Ame o que você faz

Eu nem sei como começar este texto. Na verdade, sei. Depois de ler a história de uma amiga que passa por uma baita barra (ela está enfrentando um câncer de mama), decidi que era hora de colocar no papel ~digital~ um pouco da minha história. Me senti impulsionado. Encorajado e empoderado. São duas esperanças ao fazer isso: a primeira, é que talvez eu consiga inspirar pessoas que, como eu, não tiveram uma vida tão cheia de privilégios. A segunda, é que ao me observar pela escrita, eu possa continuar refletindo e aprendendo.
Para mim, teria sido muito fácil viver o papel da vítima se eu quisesse. Vim de uma família simples do interior. Meus pais não terminaram o ensino médio. Minha irmã, ficou gravida logo cedo, com 20 anos de idade. Meu pai era alcoólatra e, infelizmente, vivia altos e baixos com o vício. Hoje penso nele e entendo que tudo aquilo que vivi me trouxe até onde estou. Não sinto outra vontade a não ser chorar de gratidão pelas experiências que a vida me proporcionou. E chorar ficou no armário por um bom tempo. Trabalhando com executivos frios, que valorizam o cinza e a falta de emoção. Classificam a emoção como fraqueza. Lidam com vínculos como se fossem meras e puras relações monetárias.
A uns dias atrás eu senti vergonha de escrever este texto. Eu senti medo. Mas percebi que não é necessário ter medo. Ou vergonha do que se viveu. Mas sim ter vergonha de vivenciar tudo isso e não levar adiante uma experiência que pode ser rica para quem possa lê-la. De não denunciar, através da auto reflexão, como o mundo corporativo e a atual estrutura de cadeia de valor tem apreço por construir uma determinante doentia para os profissionais de comunicação.
Mas voltemos a história e ao tema central. O título diz: ame o que você faz. E com 30 anos de idade, eu me questionei: eu amo o que eu faço? Eu gosto da minha profissão? Eu não sabia, dentro de mim, responder se sim ou não neste momento. A publicidade é recheada de altos e baixos. Mas, pior do que isso, ela é recheada dos paradigmas que a sociedade insiste em não quebrar. Há poucos negros no departamento de criação. Não há muito espaço para emoções. A gestão humana e o olhar cuidadoso para a convivência é inexistente. Profissionais que deveriam ser grandes gestores e espelhos para quem deseja seguir na carreira, tomam atitudes dignas de bárbaros.
Eu fui vítima de algumas atitudes assim.
E nada me doeu mais, nem mesmo as experiências difíceis e as superações que tive que viver para me sobressair nesse mercado. Ouvir palavras ásperas e que te fazem sentir diminuído de pessoas as quais você admira, é o golpe mais baixo que um profissional pode levar na sua carreira.
Alguns me chamam de louco por esse mercado, eu não tenho dúvidas. Outros me acham polêmico. E não é paranóia. Muitos já me disseram na cara: você é doido. Você é louco. Mas a verdade é que minha inquietação e meu desespero não conseguem conviver com atitudes que poderiam estar muito bem sendo narradas dentro de um presídio. Ofensas, humilhações, roubo. Tudo isso acontece dentro do nosso mercado e fingimos que está tudo bem. Continuamos trabalhando com tapa olhos e aceitando as estruturas e o status quo.
Mas: ame o que você faz.
Aprendi isso a duras penas. Que enquanto olharmos o outro, e tentarmos entender a atitude errônea do outro, não conseguimos, de fato, caminhar adiante construindo quem somos e quem seremos tanto pessoalmente quanto profissionalmente. Por isso, ame o que você faz. Não tente amar quem faz ao redor.
Sua capacidade criativa é individual. O discurso de trabalho colaborativo é lindo. Faz total sentido na atual conjectura social onde o individualismo nos seduz, onde as telas nos empurram cada vez mais para o isolamento. Mas a verdade é que esse discurso de colaboração só funciona quando a cultura trabalha pra isso. É possível ter colaboração em um ambiente onde machismo, egoísmo, roubo e falta de empatia imperam?
Colabore consigo mesmo. Intencione em suas realizações aquilo que você acredita. E você verá que o amor por aquilo que você faz, ressurgirá. A frustração foi minha companheira durante um bom tempo da minha vida. Mas eu finalmente entendi que aquilo que criamos, permanece. Por isso, eu repito, ame o que você faz.
