10 práticas por trás do que chamamos de amor (palestra no Creative Mornings)

O tema de julho 2016 nas 152 cidades do Creative Mornings foi "love". Falei a convite da querida Mariana Camardelli, que organiza os encontros aqui em São Paulo. Seguem o áudio na íntegra e o vídeo em 4 partes.

Download do áudio inteiro

É só clicar com o botão direito e salvar: MP3 da palestra ↓.

Parte 1: sofrimento, amor romântico, conexão entre amor e felicidade

Se não aparecer nada abaixo, aqui está a playlist no YouTube →

“Duas pessoas se casam não com o amor que uma sente pela outra, mas com o amor que está disponível na comunidade. A gente vai se amar com os recursos internos disponíveis nas várias relações. Se só existe o amor romântico, estamos a um triz de cair nas tragédias e violências que vemos por aí.”
“Imagine que você coloque duas pessoas juntas numa sala e diga que elas ficarão ali para sempre. No começo, talvez elas se relacionem com um pouco de raiva, depois elas vão experimentar orgulho, sedução, competição, carência, medo, indiferença… Em todas essas relações, elas vão sofrer. O único jeito de uma relação ser sustentável é pelo amor. Uma hora alguém vai falar: “Eu desisto de querer alguma coisa de você. Que você seja feliz e que eu possa te apoiar em seu caminho!” Ela vai liberar o outro. Se vocês pensarem bem, a gente não mora junto com uma pessoa, a gente mora junto com todo mundo. A gente está casado pra sempre com todo mundo.”

Parte 2: não perturbação, ver qualidades, seres de conexão, diferença entre empatia e compaixão, prática da alegria

"Quando a gente se relaciona, a gente acha que aquelas qualidades estão na pessoa, a gente pessoaliza as qualidades. Mas a gente nunca quer uma pessoa. A gente não quer dançar com alguém, a gente quer dançar. A gente não quer se encontrar com alguém, a gente quer encontro. Nós somos seres de conexão. E nossa felicidade não vem daquilo com o que a gente se conecta, vem da conexão. Se a gente descobre isso quando o outro vai embora, a gente sabe que nunca quis o outro, a gente não perde nada, deixa o outro ir. Aquelas qualidades estão disponíveis em tudo. E mesmo que você não se conecte com outro ser, você pode se conectar, se encontrar, repousar, apreciar qualquer experiência. A nossa felicidade vem do encontro, da própria capacidade da mente encontrar, tocar, beneficiar seres e situações, não do encontro com algo ou alguém específico."
"Se não soubermos como liberar o sofrimento, nossa compaixão fica limitada: o outro traz três horas de história, a gente compra aquela solidez, embarca e a gente mesmo dali a pouco está sofrendo."
"Se a gente parar de definir onde termina a nossa vida, não tem nada que a gente aponte que não seja a nossa vida. A gente é monotemático, a gente é chato… Então somos felizes na medida em que ampliamos a nossa vida e começamos a nos alegrar com as alegrias dos outros."

Parte 3: equanimidade, generosidade sem contabilidade, moralidade, paz ou paciência, energia constante, supervalorização dos sentimentos

"O que nos separa é justamente o que nos une de modo condicionado. Então melhor parar de se unir por amizades, afinidades, bolhas… Se você tirar a bolha da empresa, não tem diferença mais entre as pessoas. Sempre que vocês estiverem em um lugar e vocês não estiverem vendo seres livres em um espaço amplo, vocês estão numa bolha. Vocês estão vendo chefes, funcionários, esposas, namorados…"
"Se eu não espero nem exijo nada, o outro perde o poder de me perturbar. Quando a gente ama e libera o outro, a gente se libera do outro."
"Agir com base em sentimentos é como tomar um bêbado como guia espiritual."

Parte 4: além da indiferença, atenção, estabilidade, sabedoria além da seriedade, importância da prática

“Passei por esses 10 processos para mostrar como há muita coisa por trás do que chamamos de amor. O amor genuíno não é alguma coisa romântica, que se entende num oba-oba de transformação, só ouvindo, pensando e tentando fazer dar certo… A gente tem de praticar, pessoal, praticar, cultivar. De coração, se interessem por isso, pesquisem as fontes disso, encontrem quem já cultivou isso… Isso está sendo dito há quase 3 mil anos e a gente ainda não sacou.
Somos arrogantes: assim como adolescentes, começamos a nos fechar em uma bolha, dizendo “Vamos nos amar aqui, vamos fingir que a realidade não existe, que não tem morte, que não tem impermanência… Vamos tentar fazer dar certo aqui entre nós dois.” Somos arrogantes porque existem várias pessoas que viram que não vai dar certo e estão explicando como olhar mais amplo, mas não ouvimos. Aí vem a realidade, bate na porte, puxa o tapete, e a gente fica revoltado. Então, ó: achem isso, cultivem isso, pratiquem isso em suas vidas.”

Para aprofundar

Essa fala tomou como base 10 práticas que no budismo são conhecidas como quatro qualidades incomensuráveis (amor, compaixão, alegria, equanimidade) e seis perfeições (generosidade, moralidade, paz ou paciência, energia constante, concentração, sabedoria). Deixo algumas referências para quem quiser aprofundar, treinar, cultivar, praticar as qualidades de um coração mais aberto.

Livros que recomendo (o primeiro acabou de ser lançado!):

  • Um coração sem medo (A fearless heart), de Thupten Jinpa
  • A revolução do altruísmo, de Matthieu Ricard
  • No coração da vida, de Jetsunma Tenzin Palmo
  • Lovingkindness: the revolutionary art of happiness, de Sharon Salzberg
  • Além de religião, de Sua Santidade o Dalai Lama
  • Felicidade genuína e The Four Immeasurables: Practices to Open the Heart, de Alan Wallace
  • Para abrir o coração, de Chagdud Tulku Rinpoche

Referências online:

Por que a compaixão é mais profunda do que a empatia:

Nesse site (http://www.compassion-training.org/) tem um ebook absurdamente completo cheio de práticas, até mesmo com áudio de meditações guiadas. Ele foi criado após um evento muito importante sobre a ciência da compaixão, em Berlim, com organização do departamento de neurociência social do Max Planck Institute.

No lugar temos muitas práticas focadas nisso: http://olugar.org/participe

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