:: BREVES REFLEXÕES SOBRE A “CARTA DO GRINGO” ::
Nos últimos dias, tem florescido em diversas oportunidades algo que parece vindo de uma propaganda infomercial, que promete em 13 minutos solucionar os problemas do Brasil como um todo. (Atenção: em contraponto, eu não tenho a mínima ideia de quanto vai demorar para ler esse texto). Nesse tempo, que é o tempo médio de leitura indicado pelo próprio autor, surge o principal problema do Brasil: o brasileiro. A respeito deste texto, gostaria de tecer três considerações. Mas, antes, vamos explicar do que se trata.
Na “Carta Aberta ao Brasil”, Mark Manson, autor de um livro chamado “Modelos — Atraindo mulheres através da honestidade”, se dedica a identificar os principais problemas que assolam o Brasil, através de uma perspectiva que ele busca desinstitucionalizar, ou seja, tirar dos grandes aparatos econômicos e políticos. Através de uma análise muito típica de um estilo americano de filosofia moral e política, ele utiliza alguns exemplos dos quatro anos em que morou por aqui para “extrair a essência do espírito brasileiro”, e os motivos pelos quais todos os seus amigos brasileiros — segundo ele próprio — lhe perguntavam dos motivos pelos quais o Brasil é tão ferrado, enquanto países como os Estados Unidos e a Europa Ocidental são países tão desenvolvidos, e onde tudo daria certo. No melhor estilo “George Washington e sua cerejeira”, ele afirma que é o jeitinho brasileiro o responsável pelos problemas estruturais que afetam o país. Todos eles.
Em tempo: segundo o mito da cerejeira, um George Washington de seis anos havia derrubado a cerejeira favorita de seu pai com um machado que ganhara de presente. Quando interpelado pelo patriarca, Washington, na terna idade, teria dito, “Não posso contar uma mentira” e, ao contar a verdade ao sei pai, não sofreu nenhuma punição. Esse mito busca demonstrar que a grandeza de Washington é inata, e ele seria um modelo a se seguir. Por sorte, é apenas um mito — se bem que os mitos tem consequências bem reais em nossas vidas. Este estilo americano busca nos exemplos da vida cotidiana a verdade, e é essa a onda na qual Manson discorre sobre os problemas do Brasil.
Em primeiro lugar, gostaria de falar um pouco sobre local de fala. Como muitos sabem, sou professor universitário da área de Relações Internacionais, especializado na área de Geografia Política e de Política Internacional contemporânea. Mas eu não sou só o que faço para me sustentar. Também sou um filho, sou um irmão, sou um tio (coruja e babão). E, principalmente, sou um homem que pertence, se não a uma elite econômica, pelo menos a uma elite intelectual. Tenho mais anos de estudo que a esmagadora maioria da população brasileira. E muitos mais acessos por estas características inatas que quase 80% desta mesma população: apesar de vir de uma família miscigenada, meu fenótipo não indica que minha família é composta grandemente por negros, e eu consigo sentir a diferença de tratamento nesse quesito. Por ser homem, não me sinto tão ameaçado em andar sozinho na rua, coisa que faço inclusive em altas horas da noite.
A grande questão é que todo esse contexto deve ser trazido à tona quando nos metemos a falar de alguma coisa. Acho muito legal que tenham descoberto água em Marte, ou que recentemente tenham conseguido ouvir o espaço, ou que tenham feito um voo espacial e conseguido trazer novamente a espaçonave para a terra e pousá-la no local esperado. Meus comentários sobre isso, que felizmente consegui fazer com meus alunos durante nossas aulas, não falavam a respeito da técnica do processo. Não sei quase nada de física, matemática muito menos química — e fui entender trigonometria quando precisei passar uma mesa por uma porta. Digo entender a praticidade, não os cálculos. Assim, não posso falar a respeito de um tema do qual eu não sei, a ética científica me impede de fazer isso.
Vejam: a questão não é cercear a possibilidade de crítica, mas sim contextualizar quem é a pessoa que está falando, a partir de qual contexto ela está emitindo essa opinião, qual o seu embasamento. Manson não diz em qual parte do Brasil viveu. Será que ele viu tantos Brasis quanto Brasis existem, para poder emitir essa opinião? Manson, enquanto pessoa nascida fora do nosso país, viveu experiências enquanto estrangeiro — o “gringo”, que como ele mesmo diz, veio para aproveitar as praias, as festas e as mulheres — ou enquanto imigrante, como os refugiados haitianos, bolivianos e sírios, sem falar em outras nacionalidades, que sofrem horrores no Brasil e, com certeza, teriam outro tipo de opinião sobre o real problema do país? qual o embasamento teórico-científico que o permite fazer essas observações “sociológicas”? Em primeiro lugar, portanto, deve-se compreender que o lugar de fala é fundamental para que possamos tecer algum tipo de crítica, e também recebê-las e debatê-las.
A segunda consideração que eu gostaria de fazer é a respeito de comparações, como também já tive tempo de explicar em sala, mas nunca de maneira escrita. A fazermos uma análise comparativa a respeito de dois países, encaramos um problema: o perigo de contarmos a história de outros a partir da nossa perspectiva. Ao contrário do que alguns afirmam, a ideologia não é algo que existe só de um lado do espectro político. Como afirma Slavoj Žižek, a ideologia é a maneira a partir da qual aplicamos nossas lentes culturais que distorcem a realidade e nos fazem enxergá-la como queremos ou como estamos programados para ver. Indico fortemente, por esse motivo também, o seu The Pervert’s Guide To Ideology/Guia do Perverso para a Ideologia, para explicar melhor o que estou querendo dizer. Uma visão exterior é sempre bem-vinda, mas ela estará sempre parcial, sempre sem ter noção do quadro geral das coisas.
Explico. Recentemente, uma das revistas que um tempo atrás era uma das de maior circulação no país estampou uma reportagem que dizia “Já que não dá pra comparar com os grandes, então vamos comparar com os pequenos”. O mote era comparar o Brasil com o Azerbaijão em termos quantitativos, de PIB, desemprego, crescimento de renda, e mostrar como o pequeno país do Cáucaso era melhor que o Brasil em razão de um crescimento mais acelerado em razão da exploração do petróleo do Mar Cáspio. É triste que tenhamos que explicar que não basta fazer uma tábula rasa. Não há como apagar os históricos dos países, a sua formação, os seus processos internos e suas conexões externas e criar um quadro comparativo escolhendo arbitrariamente uma variável que representaria a verdade. Assim, não podemos falar que os Estados Unidos ou a Europa, como quer Manson, é só o fato de que, nesses países, as pessoas são mais “justas” ou, para usar um termo anglófono, “law-abiding”. Elas não são intrinsecamente mais responsáveis, e que querem que a lei seja superior a todos os restos, enquanto no Brasil as pessoas desrespeitam a lei por vaidade, como ele afirma.
Vou utilizar um exemplo utilizado por Mason. Ele afirma que, na situação em que um amigo bate o carro num outro veículo visivelmente caríssimo, a maioria dos brasileiros iria encobertar a situação, enquanto europeus e estadunidenses denunciariam o amigo em razão do ocorrido para se livrarem dos problemas que isso pode acarretar para eles (egoísmo que traz ventura social, acho que já escutei isso algumas vezes). Para Mason, isso seria um dos indicativos do fato de que brasileiros são mais propícios a quebrar as leis para proteger família e amigos que pessoas de nações “mais avançadas”.
Ele, porém, desconsidera o fato de que há uma desproporcionalidade de poder nessa situação que ocorre no Brasil, e que não posso dizer por desconhecimento se ocorre ou não ocorre em outros países. Proponho, junto com Michel Foucault, o princípio da inversão: uma sociedade pode ser considerada mais ou menos justa não na medida em que a polícia vai atrás dos que bateram num carro caro, mas sim na medida em que vai atrás do dono do carro caro caso este bata em algum outro carro.
As redes intrincadas de ajuda social não são só uma replicação do “jeitinho brasileiro”, mas constituem o fato de que nossas instituições não são despersonalizadas, e acabam favorecendo aqueles já no poder. O Brasil não é conservador só por algumas posições retrógradas em algum quesito, mas também pela manutenção de diversas dinastias no poder sem sofrer nenhum tipo de problema. É só comparar a quantidade de negros e negras mortos pela polícia todos os anos acusados de homicídio e roubo, e o fato de que o herdeiro de uma das maiores fortunas do país pode andar acima do dobro da velocidade permitida na estrada, matar um ciclista e sair ileso dessa situação toda. Inversão, portanto, para compreender de qual forma a corrupção está relacionada com a manutenção do poder, e não no mau caráter inato do brasileiro.
Por fim, a terceira consideração que gostaria de fazer é a respeito da exterioridade. Como todo processo colonizador do pensamento, a formação de uma verdade por parte dos outros cria aquilo que chamamos de alienação. E isso, sim, é uma questão de ideologia.
Como afirma Cesare Pianciola, alienação designa “uma situação psicossociológica de perda da própria identidade individual ou coletiva, relacionada com uma situação negativa de dependência e de falta de autonomia. A Alienação, portanto, faz referência a uma dimensão subjetiva e juntamente a uma dimensão objetiva histórico-social” (in: BOBBIO et al. “Dicionário de Política”. Brasília: UnB, 2010). Ou seja, alienar-se é criar uma ideia de que eu não pertenço a mim mesmo, mas sim ao outro, eu sou o outro. O colonizado quer acreditar que é o colonizador, o trabalhador que é o seu patrão, e por aí vai. Alienar-se é permitir que a ideologia de outros se torne a minha, pensar a partir de pressupostos que não me são próprios e que, portanto, não condizem com a minha realidade.
Assim como esse texto, vários outros têm surgido rotineiramente falando sobre o Brasil. Num determinado período, são compartilhados textos de gringos falando mal do país. Noutra hora, é um texto de um gringo falando bem do país. No outro, são as manchetes das grandes revistas que são tomadas como verdade. Num terceiro, é uma afirmação de um funcionário de terceiro escalão da área diplomática de um país do Oriente Médio que é usado pelo pessoal do “não para que pode piorar, e é isso que a gente quer”.
Enquanto isso, o quanto estamos nós debatendo os problemas brasileiros? O quanto nos permitimos, também, colonizar o pensamento e a nossa capacidade de raciocínio, escutando e tomando como verdade a “lavação de roupa suja” que um cara que passou quatro anos por aqui e, provavelmente, teve do bom e do melhor, quer fazer com uma nação como um todo? O quanto vamos constantemente permitir que não pensemos sobre nós mesmos, que não mudemos as nossas situações ao não dar voz a nós mesmos, elevando um gringo ao posto de maior especialista sobre Brasil no mundo - mais que nós mesmos, brasileiros.
O que isso acaba gerando é uma exterioridade. Como ele mesmo diz no texto, ele não fala nada de novo, nada que não saibamos já. Porém, ao vir de fora, esse texto acaba não tendo pedagogia interna. Num país altamente alienado de sua própria situação, este texto não terá nenhum efeito prático, pois as pessoas se verão como cidadãos justos. Não existem milhares de “cidadãos de bem” querendo a morte de pessoas sem o devido processo judicial? Elas seriam, portanto, mais justas que as outras, se denunciarem o seu vizinho? O efeito final não educa, mas gera ódio, cria uma situação na qual brasileiros utilizarão esse texto como “Viu? Você que é o problema, não eu”. Ou seja, o efeito será nulo para além da controvérsia.
Assim, estes três elementos me parecem importantes para refletir sobre esta movimentação toda. Em primeiro lugar, local de fala: de onde ele está falando, e como ele chegou a estas conclusões. Em segundo lugar, as realidades internas do país que não podem ser consideradas tão somente e apenas como efeito do nosso “caráter torpe”. Por fim, a alienação gerada pelo texto, que é mais um numa série de textos que volta e meia aparecem e são compartilhados sem pesquisa nem reflexão. Oxalá no próximo texto destes que vier as pessoas sejam mais comedidas, e busquem debater ao invés de fundar verdades máximas.