Estádios de futebol sem distinção de gênero
O RS soma cinco casos de machismo com torcedoras e repórteres em 2018

O amor que invade o coração dos homens pelo futebol é o mesmo que contagia cada mulher que escolhe se envolver com o esporte. Cada vez mais a arquibancada ganha traços femininos. Isso se torna evidente nos quadros sociais dos clubes.
O Internacional fechou o mês de março com 22% de mulheres do total de associados. No Vale dos Sinos, o Novo Hamburgo reúne 18%, enquanto que o Aimoré chega a 7%. Este crescimento de mulheres nos estádios de futebol diverge pensamentos, que acaba culminando em atos de machismo e de assédio sexual.
O caso mais recente foi com uma torcedora do Grêmio assediada por um torcedor gremista, na esplanada da Arena. Pouco antes da partida entre o tricolor gaúcho e o Cerro Porteño iniciar, o homem passou a mão nas suas nádegas e tentou beijá-la à força. O confronto contra o clube paraguaio era válido pela Copa Libertadores da América. Antes disso, no dia 25 de março, a repórter do SporTV Kelly Costa foi ofendida com palavras sexistas por um torcedor do São José. Na ocasião, o clube enfrentava o Brasil de Pelotas, pela semifinal do Campeonato Gaúcho. Ainda no mesmo mês, durante o clássico Gre-Nal do dia 11 de março, a repórter da Rádio Gaúcha Renata de Medeiros foi alvo de agressões físicas e verbais por um torcedor do Internacional. Naquele mesmo dia, a jornalista Juliana Palma filmou dois torcedores, também do Internacional, fazendo gestos obscenos para torcedoras gremistas que estavam assistindo ao clássico em um camarote do estádio Beira-Rio.

O machismo, a culpa e o trauma
A maneira de reagir a insultos machistas varia de mulher para mulher. No entanto, o que todas elas têm em comum é o questionamento do porquê que isso ocorre. Em 21 de outubro de 2017, a repórter Júlia Goulart, da Rádio Galera, foi vítima de xingamentos machistas por parte da torcida do Internacional, quando trabalhava no estádio Heriberto Hulse, em Santa Catarina. Na ocasião, a equipe gaúcha enfrentava o Criciúma, pelo Campeonato Brasileiro da série B.
A situação a deixou abalada emocionalmente. Ela conta que passou a não dormir direito e em vários momentos questionava a possibilidade de ter feito por merecer as tais palavras proferidas durante o episódio. Com o psicológico afetado, ela precisou de tratamento médico. “Eu não queria voltar aos estádios. Tinha me prometido que trocaria de profissão. Fiz tratamento psicológico durante seis meses e a ideia de desistir passou em um mês após o ocorrido”, confessa.
A volta aos estádios, após o trauma querer afastá-la, ficou marcada por sentimentos positivos, como conta a repórter. “Voltei, foi bom. Nunca mais aconteceu graças à luta e à campanha feita diariamente em combate a estes atos.” Hoje, já restabelecida emocionalmente, ela deixou de fazer acompanhamento psicológico, mas ressalta a relevância do tratamento em relação ao seu medo. “Foi importante para que eu cumprisse todos os meus traumas e todas as minhas tristezas e marcas que essas pessoas deixaram em mim”, declara.

“EU JÁ TOMEI PEDRADA EM GRE-NAL. ”
Eduarda Streb, jornalista
O clássico Gre-Nal é um jogo considerado atípico, protagonizado pelos clubes de maior rivalidade de Porto Alegre e, quase sempre, é marcado por episódios lamentáveis e difíceis de esquecer. Esses momentos deixam lembranças negativas na mente de algumas mulheres que se deslocam ao estádio, seja para torcer, ou para fazer a cobertura da partida em nome de um veículo de comunicação. “Uma vez eu estava entrevistando o Christian, atleta do Internacional, na saída de campo. Ele fez um gol e aí eu corri para entrevistá-lo e, de repente, veio uma pedra gigante, não sei de onde. Era um pedaço de concreto e acertou em mim, na minha mão e machucou o meu dedão, ” conta a jornalista, atualmente do Grupo RBS, Eduarda Streb.
Outro fato inesquecível na carreira de Eduarda aconteceu em um jogo de Campeonato Gaúcho, no interior do Estado. Ela disse que enquanto atravessava o gramado, toda a torcida entoava um cântico machista, que não cabe ser mencionado. “Eu me lembro que eu atravessei constrangida demais. Aquele povo cantando foi horrível”, revela, com voz firme. Quando ela chegou na casamata do Internacional, local que ela faria a reportagem da partida, foi o momento de ficar próxima à tela que divide a arquibancada do gramado e, consequentemente, ficar perto do grupo de torcedores que a deixaram constrangida no início do percurso. “Eu cheguei pertinho da tela e encarei cada um e comecei a olhar um a um. Mas não encarei no sentido de confrontar. Eu estava ali não acreditando, me perguntando o porquê disso, eu estou aqui trabalhando. Aí eles foram parando aquela coisa que era em massa. Eu acho que eles ficaram constrangidos porque eu estava ali encarando-os e foi aí que eles pararam de falar”, relata.