Asa Delta

Sobre aquele abraço apertado e a vontade de voar

Primeiro foi um abraço apertado, as lágrimas secas na manga da camisa.

Fazia calor, depois de um dia claro de janeiro, o que contrastava com as cores das paredes do apartamento, pintadas de cinza, pesadas de chumbo. O céu lá fora estrelado e cumulonimbus entravam pela janela entreaberta.

Os olhos vermelhos não podiam ver além das paredes do quarto e as palavras sussurradas caiam no chão, mercúrio entre os corpos que agora se afastavam. Um dia disseram que os olhos são espelhos da alma. Naquele quarto, então, eram duas almas vazias, machucadas, inchadas de pranto.

As mãos ainda estavam juntas quando uma palavra descobriu como ser mais leve que o ar e ficou por ali pairando entre corpos cansados. Ia de um lado para o outro, se misturava as nuvens pesadas e fazia relampejar. A cada clarão, a expectativa pelos trovões aumentava, mas eles estavam distantes demais para assustar.

Já não se tocavam quando começou a chover, enquanto as crianças corriam pro playground em algum lugar quatro andares abaixo.

E de dois restou apenas um, na chuva, egoísta demais para dividir a água supostamente sagrada. O corpo exausto lutava para se manter de pé, enquanto Éolo e Zeus jogavam dados com o universo.

Quando finalmente se rendeu, deixou-se cair na cama e ali afundou, num mar de sussurros que forravam o leito de inconfidências e autocomiseração.

Voltou à tona no meio da noite e quando se virou para o lado encontrou apenas um lençol amassado. Se colocou de pé, a despeito da dor no peito. Andou pelo apartamento, tudo fora do lugar, coisas demais. Coisas que o vento trouxe e não fez questão de carregar.

As paredes não estavam mais ali. Os olhos vermelhos eram os machucados da alma. O vento amenizava o calor.

Olhou para o lençol amassado. Juntou alguns cabides que estavam vazios, alguns pregadores de roupa , tocou aquela música no som.

E com sua asa delta improvisada descobriu que não sabia voar.


Alguns textos nascem dos sentimentos e lembranças que músicas provocam. Este é um exemplo disso. Leia e escute, escute e leia. Vale a pena.

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