Guardei Tanto Que Agora Tanto Faz

Eu fui guardando em mim todo o Amor que era possível reunir por alguém. E fui fazendo isso sem me importar com o dia, hora, data, momento, instante em que expulsaria tudo do meu peito. Guardei porque resolvi acumular em mim a expectativa de conseguir entregar. Vai entender. Não sei se foi ruim, mas de certo não me faz bem hoje. Guardei tanto que agora tanto faz. Precisaria de umas três vidas pra conseguir gastar o que colecionei. Sou uma enciclopédia de cheiros, um teatro inteiro de cenas previamente ensaiadas, um caleidoscópio de olhares que vão saber dizer tudo que é preciso. Sou um ser ávido em ter algo nas mãos além dos livros que me dizem tanto sobre sentimentos que parecem lacrimejar quando apertados. Fui guardando por esporte, entende? Acho que fiz tudo errado, então. Porque, agora, sou essa panela de pressão que talvez não tenha a calma necessária para reconhecer a calma dos novos amores. Aposto na urgência dos novos amantes. Cara ou coroa. Ou-vai-ou-racha. Dane-se. Guardei tanto que agora, parece, tanto faz. Eu só queria alguém pra me mostrar que eu estou errado. Que toda espera termina num sorriso. Que tanto fiz que valerá a pena. Enfim, é só mais um dos devaneios que acumulo. Das coisas que guardo. Do peito que cheio de saudades futuras.