Democracia?

Posso começar dizendo “não sou nem PT, nem PSDB, e PMDB ninguém é”, mas não adianta de nada porque os gladiadores virtuais do petismo vão me acusar de ser de “direita” e os orcs do outro lado vão me chamar de “comunista”. Mas a polarização é boa. Afinal, num mundo tão binário como esse, provavelmente a “realidade” está mais ou menos no meio do caminho. O que vem a seguir é exercício de futurologia mequetrefe (que, de propósito, ignora o 16/8, dia nacional do cachorro-louco). É um roteiro de comédia, num universo paralelo, um futuro possível, e é só por isso que vale a pena falar dele. Se vai dar certo ou não, eu, sinceramente não dou a mínima. Dizem que Charles De Gaulle disse certa vez: “o Brasil não é um país sério.” As pessoas ficaram todas indignadas, mas, convenhamos: a gente sabe disso desde que nasceu.


A presidenta Dilma diz que não se importa com as pressões que vem sofrendo porque seu mandato é legítimo e reflete a vontade das urnas. Acusa as forças do mal envolvidas no seu eventual impeachment de serem antidemocráticas, na medida em que ignoram o veredito das urnas.

No entanto, as pesquisas de opinião mostram que há uma insatisfação sem precedentes com seu governo.

“Ah!”, dizem certos petistas, “essas pesquisas de opinião são manipuladas.” Se são, não sei. Mas havia esse mesmo discurso durante o período eleitoral. Curiosamente, entretanto, as pesquisas acertaram na mosca o resultado da eleição.

“Ah!”, dizem outros tantos, admitindo [sensatamente] que as pesquisas podem estar razoavelmente corretas, “nem todos são a favor do impeachment.” É verdade, mas a margem está ficando cada vez menor. Eu diria que ela pode ser facilmente revertida em poucas semanas (como aconteceu na eleição passada).

E quanto à tal “democracia”, é muito fácil responder à presidenta. [Como disse a Eliane Cantanhede (aqui; 2:10), e podia ser qualquer outra pessoa, dada a obviedade do argumento] “Democracia tem dois lados.” Sim, a presidenta foi eleita com base no voto popular. Mas a democracia também exige que se cumpra aquilo que se promete para ser eleito.

Se nessa democracia de meia-tigela houvesse, por exemplo, algum tipo de plebiscito para confirmação do candidato depois de 6 meses, a presidenta provavelmente iria levar um belo susto.

“Ah!”, diz a esquerda-torta-naturalista que continua apoiando o PT só porque um dia ele nasceu esquerda, “se houver uma nova eleição, quem vai ganhar talvez não seja nem o Aécio, mas algum conservador-crente-higienista desses que estão por aí, tipo Datena, Russomano, Malafaia etc.”

Sim, mas, pergunto eu, o vencedor por acaso não teria o mesmo mandato das urnas? Por que o mandato das urnas do ano passado vale mais do que o desse ano?

“Porque tem uma regra. Quebrar a regra é golpe.”

Pode ter certeza que o deputado Eduardo Cunha sabe tudo de regra. Sabe inclusive das regras que têm que ser seguidas quando se precisa mudar as regras no meio do jogo.

Por falar em Eduardo Cunha, ele é o exemplar perfeito do paradigma do político brasileiro. Universal, transita pelo espectro político em todas as letras (incluindo PT, caso os esquerdo-tortos estivessem querendo se ausentar). Eduardo Cunha se recompôs da sua surtada muito louca de um mês atrás. Enquanto o Temer continua fazendo seu discurso da boca para fora de que impeachment é um absurdo, Cunha está lá organizando a estratégia mais incrivelmente óbvia para remover a presidenta com total legitimidade; em 3 atos:

Ato 1: Votar em modo relâmpago (como ele já mostrou ser capaz com a redução da maioridade penal) as contas de todos presidentes anteriores. Sim, isso é regra do jogo; o fato de que não fizeram isso antes não quer dizer que não seja. Reclamar disso é a mesma coisa que reclamar com o juiz de ter levado uma caneta; o fato de não acontecer sempre não quer dizer que seja trapaça. E o resultado? Vão aprovar todas, inclusive a do presidente Lula.

Ato 2: Votar as contas da presidenta Dilma. Resultado? Reprovada. (Petistas perplexos.)

Ato 3: Pedir o impeachment com base na reprovação das contas. Resultado? Aprovado, sem apelação.

(Ok, agora tem o elemento Renan Calheiros, que pode mudar um pouco o rumo das coisas, mas o efeito prático é muito parecido. A diferença é que a agonia do PT pode ser um pouco mais lenta. O fato concreto é: o PMDB já pulou do barco. E quando o PMDB pula do barco…)

O mais espetacular disso tudo é que quem assume é o Temer, vulgo, “Salvador da Pátria”. Sim, ele, o estadista Michel Temer (viram essa capa da Istoé?)

O PSDB vai ficar a ver navios. Não vai conseguir emplacar uma nova eleição. E, não, não vão eleger um justiceiro da TV. Nosso presidente será Michel Temer. E sabe o que é o pior? (Pior pra quem, né?) Ele vai ser um excelente presidente.

Pra começar — ou melhor, já começaram por ele — as pessoas vão reconhecê-lo como um político sério, um verdadeiro estadista. Viram o apelo que ele fez ao espírito republicano dos senadores da base “aliada”? Esse aí é o tom.

Ele vai sair em cadeia nacional apelando à população apoio para enfrentar este momento negro da nossa história. Precisa resolver uma crise da qual ele não tem culpa. “Mas nós já estamos avançando. Conseguimos tirar quem a causou.” Isto é, o PT.

E, detalhe: ele consegue lidar muito bem com esse negócio de sujeito e predicado.

“Mas ele era do governo!”.

Ora bolas, em outubro, novembro ninguém mais vai se lembrar disso.

Em seguida, ele vai conseguir aprovar todas as medidas do Ajuste Fiscal. E não vai passar nenhuma pauta-bomba. Elas foram colocadas lá única e exclusivamente para serem vetadas pela Dilma e assim aumentar o seu desgaste frente à opinião pública, essa tolinha.

E sabe o que mais? O Ajuste Fiscal vai dar certo. Em poucos meses, serão vistos resultados, com ampla cobertura da mídia. A economia vai se recuperar; lentamente, mas a olhos vistos. Um clima de otimismo vai tomar conta da população. As olimpíadas no Rio vão ser um sucesso e vão ofuscar (e curar) o drama da Copa do Mundo.

Sim, o Brasil vai entrar numa onda conservadora. Na verdade, ele já entrou, mas é que demora um pouquinho até a coisa se assentar lá em Brasília. E vai ficar nela por uns 8 a 12 anos. O PMDB vai voltar ao poder (lembre-se que eles são os mesmos caras lá da época da ditadura e mesmo antes). Mas não, ao contrário do que dizem os alarmistas da esquerda-torta, aqueles tempos não vão voltar.

Quem fez isso foi o PT. O PT, com seu projeto de poder, se misturou promiscuamente com a escória política desse país — o PMDB e seus satélites. O PT deixou de ser esquerda há muito tempo. E também não compreendeu o que é alternância de poder. Não entendeu que, no fim, depois de uns anos (e 12 é um número mágico, porque não é 13, mas é quase), o desgaste é inevitável. Não pensou que talvez valesse mais a pena entregar momentaneamente o poder para alguma coisa tipo a Marina Silva (espécie de social-democracia a la Barack Obama e o Partido Democrático dos EUA) e tentar voltar como alternativa de si mesmo 4 anos depois. Foi o PT quem enterrou a única alternativa minimamente próxima da esquerda, acusando-a de direta-neo-liberal-radical-da-filha-do-dono-do-Itaú.

Deu no que deu. O que sobrou como alternativa ao PT é a direita-coronelista, que é a coisa mais antiga que existe nesse país. Começou nas capitanias hereditárias. E ela vai voltar. Ela já voltou. Ela já ganhou.

Mas depois de uns 12 anos essa múmia vai se desgastar de novo. E vai viabilizar uma alternativa… que não vai ser de esquerda (lembre-se que o PT acabou com ela). Vai ser um spin-off do PSDB, alguma coisa direita-liberal-capitalista-eficiente, que vai se colocar como alternativa diante da corrução da direita-coronelista e vai dar uma reavivada na economia e enxugar o estado. Enfim, vai ser uma parada meio David Cameron. Os ricos vão ficar mais ricos, uma parte da classe média vai prosperar e os pobres vão continuar pagando a conta. Tudo normal.

E vai prosperar por outros 12 anos. Só então teremos, quem sabe, como alternativa a isso, alguma coisa de esquerda-social-democrata (tipo Barack Obama), que não vai ser o PT, porque o PT acabou. Vai ser uma outra Marina Silva (que, se tivermos sorte, não será crente). Estaremos em 2040 mais ou menos. O nível do mar já vai ter subido uns 60 cm. Se não rolar uma terceira guerra mundial, quem sabe aí sim esse país começa a dar certo? Ou não.

One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.