Na janela

– Como é elaborado esse sistema? Trata-se de uma estrutura burocrática imensa, arranjada de modo que não seja permitido — principalmente para o povo, as camadas menos favorecidas — compreender ao certo as competências e funções desses funcionários da alta administração. No caso, senadores, deputados, ministros e todo o amplo séquito que orbita ao seu redor. Para que isso? Porque se o humilde trabalhador entendesse com clareza que aqueles que estão ali — acusados diariamente pela TV de crimes contra o dinheiro público num estranho teatro televisionado, alguns deles inclusive bastante ignorantes até no manejo da língua portuguesa — são os mesmos que escrevem as leis, as leis que determinam o certo e o errado e muito mais, as leis que determinam o nosso dia-a-dia e o destino de nossos impostos, se esse trabalhador entendesse de verdade que aquele cara é responsável por isto, ele perceberia que há sim algo muito errado na maneira que se trata a coisa pública e que se criam as leis. Talvez, reunido com outros trabalhadores esclarecidos, eles pensassem que é possível uma outra forma de fazer política. De outro ponto de vista, quais os motivos que normalmente levam, neste país, alguém à vida política? Eu responderia de imediato: privilégios e dinheiro. Para alguém minimamente conhecedor dos afazeres de um candidato, a vereador no interior que seja, é desnecessário dizer que as campanhas demandam muitos gastos. Gasta-se no quê? Na compra escancarada de votos. Sem dinheiro ninguém se elege. Aquele papo mais antigo: uma mão lava a outra. E esse procedimento é o mesmo em todas as instâncias onde há voto neste vastíssimo país. Se é disso que se trata a política aqui, que futuro? Enquanto não houver uma luz que indique que é possível fazer atos públicos de outro modo, que não seja através da farsa e da mentira, que futuro?

Ele disse isso e ficou olhando para a cidade iluminada através da janela, todos aqueles pontos de claridade indicavam pessoas e seus afazeres noturnos. Olhar para a cidade à noite, seus prédios e aparente descaso, sempre causaram nele grande impressão. Ela nada disse, fumava um cigarro debaixo da lâmpada da sala.

Este texto foi publicado originalmente em meu blog:

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