A conquista do cool

Tomei emprestado o nome do livro de Thomas Frank, “The Conquest of Cool”, que conta como publicitários dos anos 1960 em Nova York conseguiram absorver a contracultura e a transformar em argumento de propaganda, para pensar sobre minhas primeiras descobertas do cool.

A definição de cool, pra mim, é Chet Baker. Dizem, inclusive, que o termo “hipster” surgiu do West Coast Jazz, escola do trompetista. Não que Chet Baker seja hipster — ao menos os hipsters que conhecemos hoje. Mas, de uma forma ou outra, o termo “hipster” tinha a intenção de nomear algo cool. (Até chegarem os caras com rabinhos, barbas e hobbies esquisitos.)

Chet Baker é um paradigma do cool. Antes de chegar até ele, descobri uma dezena de músicos desde os meus 13 anos. Aqui, vou me ater a somente três deles, que marcaram épocas diferentes da minha vida.

Mas antes de falar sobre isso, é importante dizer que vejo uma conexão fundamental entre o ato de apropriação — como fizeram os publicitários nova-iorquinos — e o cool. Quero dizer, antropofagia é cool. Misturar referências da cultura pop, da “alta cultura” e de fontes aleatórias é a receita para chegar até o cool. O que define se a fórmula vai ser bem-sucedida são os ingredientes envolvidos, a dosagem e a maneira como se mistura tudo. Uma coisa muito tosca pode virar cool se bem combinada. E uma coisa muito legal pode virar coxa nas mãos erradas.

Além disso, o cool também envolve muito a imagem. O que aquela imagem representa para a sociedade, e como ela se insere na lógica da nossa indústria cultural. É uma mistura de música com imagem que traz um novo significado. Chet Baker, por exemplo. Naquela época, o jazz de Nova York estava estourando. Só se falava em jazz da costa leste. Muitas notas, frases sincopadas etc. De repente, surge a antítese disso: Chet Baker, com aquele som cool e uma imagem que é quase a invenção do blasé.

Agora, vamos aos três exemplos de artistas cool, segundo minha experiência pessoal.

A primeira descoberta do cool que me vem à mente é Oasis. Liam e Noel Gallagher, mais especificamente. Eles são uma mistura de classe trabalhadora inglesa com gangue de rua mais Beatles, com doses extras de John Lennon, mais Stone Roses, especificamente Ian Brown, e algumas pitadas de Inspiral Carpets e Madchester. Tudo isso com muita pose, confusão e rock and roll. Uma das lembranças mais “esses caras são muito fodas” que tenho do Oasis é de um show da turnê do Be Here Now que passava nos primórdios da Net, acho que no canal Multishow.

A segunda banda incrivelmente cool que marcou minha adolescência foi Strokes. Os primeiros clipes deles eram inacreditáveis. Talvez a sensação de ver o Velvet ou os Ramones ao vivo fosse algo tipo aquilo — em termos de imagem, não de som. Eu amo Velvet, mas infelizmente não cresci naquela virada dos anos 1960 para os 1970. Mas, pelo menos, vivi meus anos de juventude na mesma época em que Strokes surgiu. Consegui ver a banda ao vivo em Porto Alegre, em 2005. Me senti um caipira frente à banda que representava uma efervescência cultural de Nova York que negava tudo aquilo que era chato e sem sentido na vida, que juntava diversos elementos pop com um certo minimalismo de vanguarda. Enfim, muito cool.

A terceira banda que definiu o que é cool para mim foi Cansei de Ser Sexy. E eu demorei muito para perceber isso, porque CSS não mudou a minha vida como Oasis, nem esteve ao meu lado enquanto eu começava a dar meus próprios passos como Strokes. Mas descobrir Cansei de Ser Sexy me deu uma sensação de um cool ainda mais novo, ainda mais perto. Diminuiu a distância, de certa maneira. A conquista do cool pareceu mais próximo a partir do CSS. Uma banda brasileira que fez muito sucesso fora do país e, aqui, tinha suas músicas bombando nos inferninhos — de Porto Alegre, pelo menos. Era despretensioso demais. Logo, cool. Com uma frontwoman arrebatadora, de vanguarda, de uma maneira que eu achava que não era possível ser no Brasil.

Uma banda moderna em essência. Que materializava muito bem a visão do crítico de arte Mário Pedrosa sobre os arquitetos modernos brasileiros (que, para ele, eram muito mais modernos do que os artistas e escritores modernistas brasileiros): eles eram modernos porque criavam arquitetura livre de nacionalismo, primitivismo ou qualquer herança histórica. Estavam simplesmente reagindo, em seus projetos, ao mundo que os cercava. Da mesma forma, essa despretensão do CSS revelava uma falta de compromisso com gêneros ou tradições musicais, e isso fazia com que eles fossem muito modernos. Até hoje, acho difícil perceber influências diretas do CSS. É um cool brasileiro completamente longe dos clichês nacionalistas.

Aliás, eu escuto Cansei de Ser Sexy até hoje, principalmente as músicas do primeiro disco. Quero guardar alguns cartuchos para escrever um texto só sobre eles aqui no Medium.

Falando nisso, andei deletando minhas MP3s e perdi o primeiro disco, “Cansei de Ser Sexy”, e os dois primeiros EPs do CSS. Preciso achar um lugar para baixar esse som cool. (Cool seria voltar a baixa música e não ficar refém do Spotify.)

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