Por que NÃO trabalhar às sextas-feiras pode ser a melhor coisa para a sua empresa
Uma semana com 32h de trabalho. É possível? Alguns dizem que sim.

Temos 8.760 horas em um ano.
Trabalhamos em média 22 dias por mês, durante 8h por dia (não contando as 2h — ou 1h — de almoço que, para muitos, é “aproveitada” dentro da empresa). Isso se também não considerarmos a comutação que, em média, nos rouba mais 1h dos nossos dias e que não nos é paga (na maioria dos casos).
Isso dá um total de 2.376 horas de trabalho em um ano. Ou seja, trabalhamos cerca de 27,12% do nosso ano. 99 DIAS trabalhando.
E o que isso quer dizer?
Sem um contexto? Absolutamente nada. Mas se olharmos esses números com a ideia de que é possível trabalhar menos horas, de forma mais eficiente e “ganharmos um dia” para nosso lazer ou outros afazeres, os números passam a fazer mais sentido.
Mas antes de continuar essa teoria, acho legal apresentar alguns fatos sobre como nós humanos aproveitamos (ou gastamos para alguns) nossas horas de vida:
- Você gasta 25 anos dormindo. Levando em consideração que você dorme 8 horas por dia.
2. Você passa 3,66 anos de sua vida comendo. Em média, cerca de 67 minutos de nosso dia são gastos ingerindo algum tipo de alimento.
3. Você passa 92 dias no banheiro. Homens demoram, em média, quatro minutos a mais no banheiro do que as mulheres.
4. Você gasta 48 dias fazendo sexo. Pesquisas recentes apontam que durante uma relação sexual, as preliminares duram, em média, sete minutos, enquanto o ato em si leva cerca de 12 minutos para chegar ao fim.
5. Você trabalha cerca de 10,3 anos. Esta informação é válida para um indivíduo que trabalhe 40 horas por semana no período entre os 20 e 65 anos de idade. (a maioria de todos nós).
Considerando que temos aproximadamente 700 mil horas de vida (imaginado que todos vivam cerca de 80 anos), a gente tem pouquíssimas horas para aproveitar a vida fora do ambiente de trabalho.
Agora, vamos à teoria
A cada novo dia, mais pessoas têm buscado uma coisa chamada “Qualidade de Vida”. Parece uma utopia, algo inalcançável, já que salários estão valendo cada vez menos (outro assunto que ainda quero abordar); temos trabalhado cada vez mais, estamos o tempo todo conectados e resolvemos problemas do trabalho em nosso tempo reservado para teoricamente descansar.
Outro ponto que também é bastante curioso, é que muitas vezes deixamos de ser produtivos porque necessariamente temos que trabalhar às tradicionais 40h semanais, popularizadas por Henry Ford nos anos 20. Naquela época, as pessoas chegavam a trabalhar 16h por dia. Ou seja, o dobro do que costumamos trabalhar. A semana de 40h fazia todo sentido, pois existia pouca tecnologia disponível e as pessoas trabalhavam muito mais.

E para ele, o motivo para essa semana de 40h era simples:
“O tempo livre é um ingrediente indispensável num mercado de consumo porque os trabalhadores precisam de ter tempo livre para encontrar utilidade nesses produtos de consumo, incluindo os automóveis.”
O motivo principal para diminuir as horas de trabalho da época era o de que o consumo poderia efetivamente aumentar. Para mim, o motivo principal para diminuir nosso padrão atual de horas de trabalho é o de que efetivamente podemos ter mais qualidade de vida trabalhando um dia a menos.
Mas na cabeça de muitos, especialmente os empresários, trabalhar menos horas significa ganhar menos dinheiro. No entanto, para alguns casos, essa crença já deixou de ser verdade há algum tempo. Encontrei um exemplo interessante que pode corroborar com a minha teoria: Ryan Carson, CEO da Treehouse, diminuiu as horas trabalhadas em sua startup e, segundo ele, conseguiu aumentar o lucro e otimizar a cultura organizacional da empresa. Nas palavras do próprio CEO:
“Nós criamos a semana de trabalho de 4 dias (das 9h às 18h) porque acreditamos que o trabalho com informação é bastante diferente do trabalho de uma fábrica. Uma hora a mais no seu MacBook não vai render $1,000 a mais de lucro. Acreditamos que as pessoas inteligentes podem produzir o mesmo tanto que produzem em uma semana de 5 dias de trabalho, trabalhando 4 dias. Simples assim.”
Essa ideia de termos uma semana de trabalho de 4 dias vem ganhando cada vez mais atenção de outros empresários e da mídia. Isso porque existem alguns benefícios claros em tomar a decisão de mudar a semana de trabalho da sua empresa:
- Aumentar o moral dos funcionários
- Facilitar o recrutamento de novos colaboradores
- Melhorar a criatividade das equipes
- Aumentar e facilitar a retenção dos funcionários que já estão na empresa
- Possibilitar que todos possam passar mais tempo com as pessoas que amam ou fazendo coisas que amam.
Esse último benefício é, na minha opinião, o principal. É o motor de qualquer colaborador. Do CEO ao estagiário, todos querem passar mais tempo com suas famílias, namoradas, cachorros, gatos, jogando videogame, fazendo exercícios, enfim, investindo na qualidade de vida ou como dizem em inglês: “spending some quality time”.
Na prática
O grande segredo é como aplicar essa teoria no dia a dia da empresa, pois para iniciar essa nova estratégia, é preciso fazer mais do que só trabalhar menos. Os gestores precisam sentar e criar métricas novas para analisar a produtividade dos funcionários, definir resultados que sejam mensuráveis, além de objetivos semanais, dentro de um planejamento maior, seja ele mensal, bimestral ou anual.
É claro que estamos falando de empresas da indústria criativa. Outras companhias, mais voltadas à produção industrial, precisam criar suas próprias estratégias para desenvolver essa “semana de 4 dias”, o que não significa que é impossível aplicar esse modelo em indústrias diferentes.
No nosso caso, podemos facilmente usar da tecnologia para nos ajudar a aumentar a produtividade. E é interessante entender isso: usar a tecnologia não significa se tornar refém dela, ou seja, receber e-mails de trabalho fora do ambiente corporativo não é o tipo de “semana de 4 dias” que estou falando aqui.
As empresas que já aplicaram esse novo modelo de semana de trabalho com apenas 4 dias, utilizaram 2 estratégias principais:
- Uma semana com 32h de trabalho, sendo 8h diárias. Nesse caso, é preciso aumentar a produtividade para que o modelo realmente dê certo.
- Uma semana tradicional de 40h de trabalho, trabalhando 1h a mais todos os dias e fazendo apenas 1h de almoço. Essa aqui mantém a ideia do mesmo número de horas, mas com uma distribuição diferente: trabalhar mais nos outros dias para ter um dia a mais de folga. Parece interessante.
Outro exemplo interessante, foi uma estratégia criada pelo CEO da 37signals, Jason Fried:
De maio a outubro (meses menos movimentados na empresa), eles trabalham uma semana de 4 dias, com a estratégia número 1 citada acima. A maior parte dos funcionários tiram a sexta de folga, mas alguns outros escolhem um outro dia. Normalmente, o trabalho acaba na quinta e volta na segunda-feira.
E funcionou. Funcionou muito bem, na verdade. Ele percebeu que o trabalho não só continuou a ser produtivo, como foi bastante otimizado no quesito qualidade. Para ele, quando há menos tempo para fazer o trabalho, o funcionário desperdiça menos tempo. Com uma semana de trabalho comprimida, o colaborador tende a focar no que é importante.
Conclusão
Já é hora de repensarmos nossas realidades de trabalho. A tecnologia já está transformando naturalmente o espaço corporativo, mas nossas mentes - na maioria dos casos - continuam pensando como se estivéssemos na década de 80 ou 90, quando as coisas eram muito menos dinâmicas e nem um pouco conectadas.
Trabalhar 32h semanais pode ser uma das soluções para melhorar a produtividade dos funcionários. Para animá-los, motivá-los e criar laços mais duradouros com as empresas (turnover mandou abraços).
Em resumo: queremos mudanças. E não apenas porque achamos interessante termos um dia a mais de folga. Mas sim porque queremos ter maior qualidade de vida, mais tempo para viver e não apenas trabalhar. E não sei como as pessoas conseguem imaginar um mundo onde isso seja algo ruim.
É exatamente igual quando ouço as pessoas me dizendo coisas do tipo: “os millenials não respeitam nada. Só sabem reclamar e nunca estão satisfeitos.” Fico extremamente decepcionado, pois o que vemos como uma luta para conquistar nossas vontades básicas, viver novas realidades, com maior qualidade de vida, muitos outros - especialmente os mais velhos - enxergam como mimimi.
Fontes:
http://cidadesdigital.com.br/21-fatos-curiosos-sobre-como-gastamos-nosso-tempo-durante-toda-nossa-vida/
http://ryancarson.com/post/21708810513/4-day-week