Como o mercado mudou suas expectativas sobre 2017?

E o que isso mostra sobre suas opiniões?

Gustavo Monteiro
Jun 17, 2017 · 3 min read

Toda semana, o Banco Central divulga uma prospecção realizada com “cerca de 120 bancos, gestores de recursos e demais instituições (empresas do setor real, distribuidoras, corretoras, consultorias e outras)”, para saber quais são as expectativas do “mercado” sobre os principais indicadores da economia: PIB, inflação, câmbio, etc. Essas expectativas são publicadas no Relatório de Mercado — Focus. Esse documento é importante porque, além de servir como termômetro da economia ele baliza as decisões sobre a meta da taxa básica de juros, a Selic. Ou seja, ele torna explícito como as expectativas do mercado influenciam as decisões políticas.

Como o mercado mudou suas expectativas sobre 2017?

G1. Expectativa do Mercado: crescimento do PIB em 2017 (em %)

A trajetória das expectativas de crescimento do PIB podem ser divididas em quatro momentos, conforme mostra o Gráfico 2.

  1. O Início de 2016: a expectativa do mercado sobre o crescimento econômico foi se deteriorando conforme saíam dados cada vez mais alarmantes sobre o tamanho da crise no ano anterior. Em maio, no entanto, essa tendência se reverteu em consequência da maior confiança do mercado de que o impeachment da presidenta Dilma poderia vingar.
  2. O processo de impeachment: no dia 12 de maio, a presidenta foi afastada do cargo e, a partir de então, as expectativas de crescimento para 2017 foram cada vez mais otimistas. Isso acontecia porque o mercado vislumbrava a possibilidade de que o governo Temer poderia colocar em curso uma política de austeridade que seria favorável ao crescimento da economia, através de medidas como a Reforma da Previdência, a Reforma Trabalhista e a redução dos gastos sociais. No dia 31 de agosto, Dilma sofreu o impeachment e, quinze dias depois, a expectativa de crescimento para 2017 divulgada pelo Sistema de Expectativas de Mercado atingia seu ápice: 1,38%.
  3. O início do governo Temer: o otimismo não durou muito tempo. Com Temer empossado, o mercado começou a perceber que as medidas de austeridade (conhecidas como “pacote de maldades”) e as reformas não seriam suficientes para induzir o crescimento econômico. Além disso, as reformas, extremamente impopulares, se mostraram de mais difícil aprovação do que se esperava, o que minou ainda mais a confiança do mercado.
  4. O início de 2017: com mais dados disponíveis, o quadro ficou mais claro e as expectativas do mercado para o crescimento do PIB no ano se estabilizaram em algo próximo a 0,5% (0,41% no relatório divulgado dia 09/06/17).
G2. Sistema de Expectativas de Mercado: projeções diárias das expectativas medianas para o crescimento do PIB em 2017 (em %)

O que significam as flutuações de expectativa?

As expectativas de crescimento são um termômetro do que alguns analistas chamam de “humor do mercado”. Fica claro que o dito mercado era abertamente favorável ao impeachment de Dilma.

Flutuações de humor tão abruptas (ou, “erros chocantes”, segundo Laura de Carvalho) como as que ocorreram entre 2016 e 2017 também podem sugerir que o mercado usa seu poder financeiro para validar decisões políticas polêmicas e influenciar a opinião pública. Afinal de contas, os economistas realmente não imaginavam que as medidas de austeridade não seriam suficientes para fazer a economia retomar sua trajetória de crescimento, ou eles foram cegados pelas radiantes oportunidades que a queda do governo Dilma lhes abriria?

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