A música brasileira dos anos 70

A defesa da teoria da segunda fase.


Se alguém um dia me falasse: Só ouço música brasileira dos anos 70, eu não me surpreenderia.

O LeGal da Gal, o Transa do Caetano, o Clube da Esquina, a virtuosidade vocal da Elis que tomou forma e se espalhou do Clube Esquina mineiro até o Tom carioca e gravou quase tudo mundo daquele tempo, os Novos Baianos, A Tábua de Esmeralda do Jorge Ben e assim vai. Qualquer disco desses é deleite tupiniquim garantido e os discos acima são aquilo que é fácil de encontrar; se for mais a fundo, mexer um pouco mais na nossa terra, a gente encontra A Bad Donato do João Donato, o Deodato que fez miséria com a música brasileira lá pelos Estados Unidos, o movimento black que fazia um funk brasileiro no Rio de Janeiro com Gerson King Combo, Banda Black Rio e uns caras desconhecidos como o Dimelo; ainda tem umas evoluções do samba como Antônio Carlos e Jocafi e outras coisas mais. Esse movimentos começam no final dos nos anos 60 mas tomam forma e se solidificam nos anos 70.

E vamos a razão do porque escrevi esse texto. Eu tenho uma teoria que é na segunda fase ou no segundo disco, depende da banda ou do movimento musical, que a coisa toda toma forma. Eu tentei, mas não consegui achar uma expressão melhor do que “a coisa toda”. Essa “coisa toda” é aquele conjunto da obra em que os pontos dão os nós. Não que a primeira fase ou primeiro disco não possam ser bons ou que alguém não consiga ser bom desde o começo, mas tem algo que só o tempo dá: a maturidade. Os movimentos artísticos nascem sonhadores, cheio de amor pra dar, com muita coisa pra falar mas naquele primeiro momento tudo é muito cru, a receita precisa de algo mais, e esse algo mais só é alcançado com o tempo. Um bom exemplo disso é o Chico Science e a Nação Zumbi. O primeiro disco deles, o Da Lama ao Caos é um disco excelente que entra fácil em qualquer lista de discos fundamentais; porém, ninguém sabia como captar o som de uma alfaia em 1994; o peso do maracatu ficou um pouco escondido por dificuldades técnicas; o que não acontece em Afrociberdelia, que é menos punk e menos intenso, mas melhor acabado e esteticamente melhor resolvido. O ano de 1994 não estava pronto pra gravar um maracatu de uma tonelada, 96 estava.

Os anos 70 no Brasil são isso. No finalzinho da década de 50 e entrando nos anos 60 do século passado começa a bossa nova e o rock no Brasil. Na metade da década de 60 surge aquela briga besta de música brasileira vs. música gringa que acaba sendo uma coisa meio a MPB contra Roberto Carlos (que naquele tempo era muito maior que qualquer nome da MPB já foi). Aí surge Sgt. Pepper Lonely Hearts Club Band que muda a música do mundo inteiro e joga rock'n roll em tudo o que não tinha rock'n roll ainda. No Brasil as guitarras começam a conversar com o pandeiro, mas eles ainda estão começando sua relação; as coisas começam a encaixar mas ainda existe uma distância meio óbvia entre os dois (Batmacumba é um exemplo disso, é uma brincadeira ritmíca com a palavra que dá nome a música, mas não passa disso — não que isso seja ruim, obviamente). Essa distância só some nos anos 70, quando a música brasileira já transou algumas vezes com o rock, as coisas já se encaixam perfeitamente que é difícil dizer onde termina o samba e começa o funk, o rock, o jazz.

O estranho (e o Brasil tem dessas coisas estranhas mesmo) é que o fluxo foi interrompido. Foi só em 94, com o manguebeat, Raimundos, Planet Hemp, que as coisas voltaram a se encaixar. Os anos 80 até teve uma coisinha ou outra, dá pra sentir uma timidez brasileira no Paralamas, um pós-punk interessante no Bleq Is Blom do Titãs, um rapaz de belas letras com nome Renato, mas não com a intensidade da mistureba deliciosa dos anos 70, aquela coisa brasileira que se apropria de tudo a sua volta e faz um negócio novo e impensado. Miranda, aquele produtor musical que era jurado do Ídolos, fala que a música brasileira teve um lapso, um buraco temporal porque o rock ficou meio que pré formatado naquele jeitão do Raul Seixas e da Rita Lee e parou ali. Isso obrigou os caras a copiaram na caruda o pós-punk gringo. Daí os anos 80 ficaram um pouco enevoados, pois não criaram, eles copiaram e foi só nos anos 90 que a gente retoma a energia pra voltar nos trilhos que fizeram miséria na década de 70.

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