Imagem de ciclofaixa.com.br

Motorista em São Paulo não é gente, não

Vão dizer pra mim que não existe amor em SP. Que em São Paulo os motoristas são terríveis. Que os carros deles são maiores, mais venenosos e mais perigosos. Que quem dirige os carros de lá não tem sangue na veia, tem gasolina e óleo diesel.

Mas meu amigo… meu amigo, meu amigo, meu amigo, meu amigo. São Paulo é uma cidade como todas as outras. Os motoristas de lá são gente como em todo o resto do mundo. O paulistano da capital mora longe do trabalho, tem uma vida estressada, demora um monte pra chegar em qualquer lugar e sempre tem trânsito como companheiro fiel. O cabra se estressa até quando quer desestressar. E isso é assim em várias cidades do mundo. (Pasmem, em alguns lugares já foi assim e, pasmem mais uma vez, eles deram um jeito. Fecha pasmem.)

Mas pra aumentar o veneno dos motoristas venenosos de SP, pra apimentar o molho, a prefeitura de São Paulo, que vem tomando decisões bem progressistas a favor do bem estar da cidade, decidiu construir ciclofaixas para ciclistas andarem em paz e incomodar o povo de Higienópolis.

https://twitter.com/Aloysio_Nunes/status/509505069809938433

Sou contra as ciclofaixas. Não porque sou a favor de Higienópolis. Porque bicicleta tem que é andar na rua mesmo. Junto com carros, ônibus, caminhões motos (como a lei brasileira de trânsito já prevê, diga-se de passagem) e talvez até com pedestres. O único veículo que acho que vale a pena departamentalizar são os ônibus, é interessante privilegiar quem anda de transporte público pra chegar antes em casa e passar menos tempo apertado no busú.

Sou contra Higienópolis. Não quero a higienização do trânsito (imagina que pesadelo a rua só com carecas e peruas dirigindo SUVs ouvindo Dire Straits), prefiro a mistura pra deixar as ruas bem variadas. SUV, magrela, boleia e jegue, todo mundo esperando o sinal abrir pra chegar em casa.

Mas aí vai vir um amigo paulista pra me dizer o que a introdução desse texto ironiza. Meu amigo, que hoje mora em Dourados, MS, já denunciou: Motorista em São Paulo não é gente, não. (Denúncia que virou título!)

Mas o que a gente esquece é que em qualquer lugar dominado pelo carro você vai ter esse tipo de conduta desrespeitosa em relação aos veículos mais lentos e menores. O porém é que existem bons exemplos a favor da boa convivência e da gentileza. Optar por fomentar um trânsito que se respeite é um ato político muito mais profundo e transformador do que construir com asfalto e concreto ferramentas que mudem a lógica do trânsito. Fomentar consciência e civilidade pode ser tão efetivo que quando um morador de Higienópolis abrir seus olhos, o rapaz já estará indo trabalhar de bicicleta.

Bike box em Portland. Fonte: movimentoconviva.com.br

É mais construtivo você buscar conscientização de motoristas e ciclistas do que ficar interferindo num trânsito que já é zoado. Os governantes devem perceber que uma SUV empodera o motorista, que a caminhonete vai fazer com que o motorista passe por cima de quem ele acha que deve atropelar, porém transformação é possível, seres humanos conseguem sim conviver em paz, não importa seu meio de transporte. Existem mecanismos mais simples e mais baratos de privilegiar a bicicleta (um deles são aqueles espaços nos sinaleiros pra bicicleta sair antes que os carros como na figura acima: basta pintar o chão e colocar um guardinha ali pra explicar como funciona).

Acho que as prefeituras devem buscar mecanismos que exijam menos mão de obra pra que exista civilidade dentro do trânsito. Ficar construindo coisas novas piora o que já está ruim, faz um barulho danado e gasta dinheiro e suor que poderiam ser investidos em pensamentos, diálogos, conversas e uma luta comum por convivência.

A cidade já está aí. Já é grande e não precisa de mais construções. Minha sugestão não é não fazer nada, pelo contrário, é fazer mais com mais gente e mais criatividade. Precisa-se é buscar mecanismos que facilitem a convivência e o respeito, e políticos podem ser facilitadores dessa conversa, afinal motoristas são, também, gente.

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