O ícone do Instagram tem um problema. E não é o gradiente.

O redesign do ícone do Instagram é sintomático. Quantos redesigns são realmente necessários?

Designers são meio conservadores

O chororô que acompanha qualquer “rebranding” é previsível, porém preocupante (já digo porquê).

O review da Under Consideration sobre o novo ícone logo afirmava a tendência dos comentários sobre o novo ícone:

A chuva de merda que vai tomar conta da internet hoje vai ser épica.

E as reações demonstram que boa parte dos designers não estão entendendo o business do negócio.

Uma questão de timing

Vamos lá. Não existe bem um porquê dessa mudança. E esse erro é maior que qualquer gradiente que fure sua retina.

O Instagram pode fazer o que quiser. O negócio não é meu. Mas eu acho que o momento de mudança deveria ser outro.

A justificativa oficial da mudança é que o Instagram cresceu. A comunidade hoje é outra. De acorto com eles mesmos, o ícone esqueumórfico não representa mais o Instagram. Por consequência, sentiram a necessidade de criar algo que sinalizasse isso. Daí surge o polêmico ícone.

O barulhento ícone do Instagram

Porém, a maior mudança que o Instagram fez aconteceu quando eles apresentaram o Sponsored Posts, ou seja, quando adicionaram posts pagos na nossa timeline.

Não sei você, mas como usuário, acredito que a inserção de propaganda é uma mudança muito maior e significativa na experiência do Instagram do que o aumento da comunidade ou a mudança de interface.

Ali, houve uma mudança no business e nas postagens que aparecem pra usuário. Essa mudança interessa muita gente que quer anunciar seus produtos e serviços internet a fora. Essa mudança traz grana pro Instagram. Essa mudança interfere diretamente naquilo que eu vejo no Instagram.

Além da mudança de modelo de negócio, existe uma mudança de conteúdo. E o conteúdo criado pela comunidade do Instagram é o que a comunidade quer. Ninguém nunca pede por propaganda.

Porque mudar um ícone?

Tá aqui o que me preocupa.

Assim, como designer, é sempre legal ganhar dinheiro pra desenhar um um logotipo ou ícone novo. Eu, particularmente, tenho muito prazer em desenhar esse tipo de coisa. Mas, sei lá, eu acredito em relevância e tal. Pra mim o logotipo tem que ter uma razão de existir. E também uma razão pra mudar.

Em um aplicativo, um ícone representa a marca dentro do celular do usuário. É o ícone que conecta o usuário com o mundo que o produto proporciona.

Mudar um ícone só faz sentido, se houve uma mudança na marca: pode ser um reposicionamento, uma mudança de valores ou algo no modelo de negócio.

Não se muda algo que representa a marca tão fortemente por devaneio ou por capricho. Precisa existir um motivo. Um bom motivo.

Uma mudança de interface não me parece um momento que exija um novo ícone. Por mais que a interface possa mudar a experiência do usuário, o Instagram, dessa vez, só deu uma limpada na sua interface.

Nova interface do Instagram

O crescimento e amadurecimento da marca até pode parecer um bom momento, mas como você mede isso? Uma interface já não consegue dizer isso? Eu acredito que sim.

Já a apresentação do Sponsored Posts é uma mudança meio tensa. Muita gente não gosta de propaganda. Quem usa o Instagram está acostumado a ver somente as fotos de quem segue. Não tinha ninguém vendendo nada pra mim a não ser que eu decidisse seguir alguém que vendia algo.

Naquele momento, um ícone novo viria como um manifesto da marca do porquê agora tem propaganda. O ícone novo poderia dizer que apesar da mudança na estrutura do negócio o usuário continua sendo o centro, sua experiência é mais importante que a propaganda. O novo ícone sinalizaria um Fica tranquilo, tá mudando, mas pra melhor.


Então porque o ícone mudou?

Eu tenho duas explicações: por maldade, ou por inocência.

Propaganda de graça, feita por mim e por você

As reações negativas mostram um fato que já foi dito lá em cima: designers são meio conservadores (ou são tão conservadores como todos os outros seres humanos).

Porém, designers são formadores de opinião. A gente fala pra caramba internet a fora. Se mudarem um ícone ou logotipo de algum produto que é super bacanudo pelo mundo do design, textões vão surgir; timelines vão floodar; discussões irão esquentar.

Pense comigo.

O público alvo faz muito sentido. Sendo que o principal produto do Instagram é uma plataforma de propagação de imagens, sendo que é um produto pensado pra quem tem alguma relação com o visual, sendo que ele é feito pra quem quer se expressar visualmente, mudar o ícone é um jeito fácil de conseguir que designers e outros profissionais do visual falem muito sobre o Instagram.

Não é nenhuma novidade que designers tem um papel influenciador e ativo para a comunidade do Instagram.

Mudar o ícone, aquele botão que o usuário acessa pra entrar no Instagram, por si só vai causar o mó bafo. Seja o resultado conservador ou diferentão, não importa, merda vai chover.

Mudar o ícone radicalmente vai trazer muita atenção pro Instagram. A consequência direta disso é um monte de gente falando sobre a marca. Ou seja, publicidade.

Publicidade barata, especializada, feita pelo e para seu público alvo. Um golpe de mestre.

Inocência

Mas talvez eu esteja agindo de má fé.

O texto do “cabeça do design” (head of design), Ian, fala da mudança do ícone como um caminho natural e não como uma mudança radical.

Talvez o Instagram foi só inocente.

É um erro possível. As vezes a gente está tão dentro do processo que não percebe que o começo é radicalmente diferente do fim.

Talvez eles só queiram mesmo chamar atenção pra mudança da interface (afinal, isso deve ter tomado um tempo do cão e, além de ser uma das bases do Instagram, é um dos motivos do seu sucesso).

E talvez eles não tenham nenhum especialista que cuide da marca ou que use o design visual de uma forma mais estratégica (e menos publicitária). Aí dá isso, um barulho em toda a internet por não saber usar as ferramentas disponíveis na sua mão.

E isso faz sentido. Por mais que a galera de start-up é ligada nas paradas, o know-how deles é pra fazer software. Design e comunicação estratégica é outra coisa.


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