
antifascisti italiani
Gobetti é um sobrenome italiano, oriundo da região norte. Uma das possíveis origens do sobrenome, etimologicamente falando, é que a palavra deriva da palavra gobba, que significa corcunda. A parte -etti- é um diminutivo. Ou seja, Gobeti significa corcundinha.
Por acaso, (ou não) o sobrenome que abordo em meu texto é meu sobrenome. Gobetti. O sobrenome não é mero nome no papel, é parte de mim, parte de minha história.
Desde pequeno sempre ouvi histórias de minha família. Descendente de italianos, mantivemos o costume de preservar a cultura por meio da oralidade. Me lembro bem de quando criança, as pessoas me achavam estranho por chamar minha avó de Nonna.
Nonna significa “Avó” em italiano.
Ou por comer muita polenta, por ir até o Espírito Santo, um dito estado brasileiro sem nada de interessante, para festejar o aniversário da chegada da família no Brasil, por meio dos irmãos Giovanni, Luigi, Giuseppe e Anamaria, e seus pais Pietro Gobetti e Barbara Biancardi Gobetti.
Desde criança, sempre gostei de ouvir histórias. Deve ter saído daí a vontade de contá-las e me tornar um escritor.
Muitas histórias eram relacionadas à guerra, um acontecimento marcante no mundo todo, e consequentemente, na minha família, por ser residente em um dos países do Eixo. Tive parentes lutando com os camisas negras. Rhino Gobetti, um tio avô distante, é veterano de guerra. Lutou ao lado de nazistas, contra a própria vontade. Seu primo, Pietro Gobetti, se não me falha a memória, foi companheiro de trincheira dele. Ele não teve a mesma sorte, e acabou morrendo duas horas antes da rendição dos italianos.
Tivemos também Piero Gobetti, outro parente mais distante, que atuava como jornalista nos anos 20. Crítico das políticas autoritárias de Mussolini, acabou ganhando fama e certa influência no ramo.

Piero, jornalista e ensaísta político, se opôs ao Fascismo desde a tomada do poder por Benito Mussolini.
Em 1925, foi abordado nas ruas de Torino e espancado, por ordem do Duce. Exilado da Itália, foi morar em Paris, mas morreu um ano depois por complicações de insuficiência cardíaca, causada pela quantidade imensurável de socos e chutes que levou dos camisas negras.

Piero na abordagem dos fascistas, que iria comprometer sua vida. Após sua morte, se tornou um mártir entre os partisans italianos.
Sua viúva, Ada Gobetti, retornou para a Itália. Apesar de não ter escrito textos tão reconhecidos, também teve grande engajamento nas lutas. Após a morte de seu marido, casou-se com um homem de sobrenome “Marchesini”, e lutou na Resistenza Italiana.
Após o fim da guerra, ela documentou suas experiências como partigiani no livro “Diário de Partisan: A Vida de uma Mulher na Resistência Italiana”, em tradução livre, e viveu se opondo à opressão.
A Resistenza Italiana, ou Partigiani, era formada por qualquer pessoa que se opôs ao fascismo italiano, fossem liberais, comunistas, socialistas, anarquistas, democratas, católicos, monarquistas, e com uma atuação de mulheres considerável para a época.

Ada Prospero, professora, jornalista e partisan italiana. Após o casamento com Piero Gobetti, adotou o sobrenome, e em seu segundo casamento também adotou o sobrenome do marido, Marchesini.
Houveram mais de 300.000 envolvidos na Resistência, com por volta de 40.000 mulheres. Mais de 30.000 foram mortos em combate ou executados, mais de 20.000 foram feridos ou incapacitados, mas eles alcançaram seu objetivo. Um comboio saindo de Roma foi interceptado pelos rebeldes e assassinaram todos os líderes fascistas, incluindo o próprio Mussolini.
Penduraram os corpos em praças públicas e comemoraram. A guerra estava próxima ao fim. Como disse Piero: “A liberdade só é alcançada com luta e conflito.” Houveram muitas baixas, mas a democracia foi restaurada.

Bandeira do Comitê de Liberação Nacional.
E acho que esse é um dos maiores motivos que me fazem escrever. Além de ser divertido, escrever já me salvou da insanidade mais de uma vez. Mas acima disso, é o legado que quero deixar na humanidade, me opondo à qualquer forma de opressão. E por ser brigão e orgulhoso como a maioria dos Gobetti, duvido que eu desista disso.
Mas nossa história vai muito além de antifascistas que lutaram entre 1925 e 1945. O mais antigo Gobetti em registro governou Florença em 1215. E muitos outros também fizeram feitos grandiosos que nunca foram reconhecidos, como o próprio Pietro, que morreu duas horas antes do fim da guerra. Existem muitos documentos, papéis, histórias contadas por meu avô, por tios, tias, e todo tipo de parentes.
Agora, vivem espalhados pelo mundo, saídos do berço na Itália. Alguns em Niterói, outros em Belo Horizonte, outros em Vitória, na fazenda Solidão, em Torino, Verona, e muitos outros lugares.
Alguns podem considerar pedante pelo fato de eu ter orgulho de carregar esse sobrenome. Não acho. Considero um privilégio ter a oportunidade de conhecer um pouco de minha história. Afinal, sobrenomes são parte de nós. Nos diferenciam. Nossos ascendentes vivem um pouco em nós, e deixaram seu legado para seus descendentes.
Portanto, finalizo: sou um Gobetti. Com orgulho, fervor, abraço minha origem. Sou fruto dos antifascistas italianos, dos nobres veroneses, dos rebeldes, dos bravos, dos altos que tem uma pequena corcunda nas costas. Somos nós. Somos únicos, somos vivos. Somos reais. Somos Gobetti.
