Desolação

Aconselho fortemente que você, leitor, se sente numa posição confortável antes de ler, em um quarto ou sala com pouca iluminação, ouvindo Adagio for Strings, de Samuel Barber. Esse texto foi inspirado por essa pequena sinfonia, e eu o escrevi enquanto a ouvia. Espero que goste.

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Abro meus olhos. Continuo sozinho na pequena saleta escura e cinzenta, que devia não ter mais do que seis metros quadrados. A poltrona de couro se encaixava perfeitamente em meu corpo.

Merda.

O grande televisor que ocupava a parede em minha frente, repentinamente liga. Ao lado, a porta de metal jazia trancada. De um espelho negro, a tela se torna meu único contato com o mundo exterior. Eu não queria olhar. Tudo o que eu via era morte, destruição, dor, melancolia. Eu poderia muito bem terminar tudo aquilo, me esticando para baixo e alcançando o revólver prateado. Mas ao sentir o frio do metal, os arrepios subiam até minha nuca e eu sempre largava.

Que ingênuo eu fui.

Eu poderia muito bem culpar os rebeldes ou o ditador, mas se tem alguém que deve levar a culpa somos nós mesmos. Todos nós, que odiamos, que matamos, que fizemos toda essa guerra ter acontecido. E nós sempre acreditamos no que eles falavam, que os inimigos eram a escória, que os inimigos é que causaram essa guerra. E diziam também que o fim da guerra era um bom motivo para morrer. A guerra agora terminou, e não adianta mais fazer nada quanto à isso. Dentro do bunker, vejo todos os mísseis sendo lançados de suas bases aéreas, e os inimigos faziam o mesmo. O fim estava próximo. O locutor do rádio dizia:

— Senhores, enfim a guerra chega ao seu ato final. Agora, depois de todos os mísseis serem lançados, nossa passagem pela Terra chega ao fim. Sempre fomos avisados de que um dia, este momento chegaria. Erro nosso não ter escutado nossos antepassados. Foi muito bom ter sido locutor com os senhores. Que Deus abençoe à todos. Que Ele tenha piedade de todos nós. Adeus.

O locutor desligou, para nunca mais ser ouvido. Eu sabia que iria morrer. Era apenas questão de tempo. Nada mais importava. A Causa era a a única explicação para nós assassinarmos uns aos outros. Eles viviam dizendo que a Causa era um bom motivo para lutar. Que a Causa era um bom motivo para matar. Que a Causa era um bom motivo para morrer. E não era. Nunca foi. No fundo, talvez todos nós soubéssemos que chegaria a esse fim. Devíamos estar com medo demais para fazer algo à respeito. Não lutávamos contra inimigos. Lutávamos contra nossos próprios medos. Lutávamos contra nós mesmos.

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