Libertadores da América para quem?

Manifesto de um são-paulino indignado

A diretoria tricolor repete uma estratégia cínica, que nada mais faz do que excluir boa parte dos torcedores do Morumbi em um momento tão importante

Escrevo esse texto enquanto assisto à partida do Mais Querido do Mundo contra o Cruzeiro, pela televisão. E eu realmente gostaria de estar acompanhando com alegria mais uma partida do Tricolor. Mas, no entanto, o sentimento que me veio essa semana foi a decepção. Primeiro porque tive de ver Rogério Ceni, que tantas vezes foi exemplo de alguém correto, às vezes excessivamente sério, juntar-se à corja da CBF, sendo parte da comissão técnica. Segundo, e esse é o assunto do texto que vocês estão lendo, porque foram divulgados os preços que serão cobrados do torcedor são-paulino que quiser apoiar o Tricolor na semifinal da Libertadores contra o Atlético Nacional. Os preços são esses da tabela acima. Variam de R$1,00 a R$400,00 dependendo do plano de Sócio-Torcedor. Aliás, isso é algo importantíssimo: todos esses preços são para o Sócio-Torcedor. O preço que seria cobrado do torcedor comum não foi divulgado. Escrevo “seria” porque esses preços deixam claro uma coisa: a diretoria do SPFC não quer que o torcedor comum vá ao Morumbi. E por “torcedor comum” me refiro àquele que, pagando mensalidade do programa ou não, não tem condições financeiras de pagar R$150, que equivale a cerca de 17% do salário mínimo. Basicamente, a diretoria do São Paulo não quer o torcedor que ganha salário mínimo no Morumbi, e esses preços são o sinal definitivo disso, o dedo do meio simbólico mostrado ao torcedor que não têm condições de gastar essa quantidade de dinheiro no ingresso para uma só partida.

Para deixar mais claro o porque de me indignar tanto com isso, tenho que esclarecer algo antes. De acordo com pesquisa realizada pelo IBOPE em parceria com o Lance, o SPFC conta com a terceira maior torcida do Brasil. Em números isso são 13,6 milhões de torcedores. Levando em conta que a imensa maioria destes reside no estado de SP, cuja capital tem cerca de 11 milhões de habitantes, é impossível que a maior parte dos são-paulinos seja composta por torcedores da elite, ao contrário do que diz a fama de que somos uma torcida de gente rica. Ou seja: a torcida do SPFC é plural e, em sua grande maioria, conta com torcedores de classe média ou baixa.

Reconhecendo esse fato, fica fácil perceber o cinismo da atitude absurda da diretoria, e o quão abusivo é cobrar esses preços. A atitude é cínica porque a torcida é uma das maiores responsáveis pela chegada do time à semifinal de uma Libertadores na qual muitos duvidavam que chegaríamos inclusive à fase de mata-mata. Mesmo se formos olhar para trás, em momentos nos quais o time capengava, como a desastrosa temporada de 2013 quando fugimos do rebaixamento, era para a torcida que o clube olhava, buscando apoio. Colocaram preços populares, com o ingresso para a arquibancada custando R$10,00 e a meia-entrada R$5,00. E a torcida respondeu, compareceu e tirou o time do buraco, salvando-o de um possível primeiro rebaixamento da história. Assim, a diretoria abusa dos torcedores mais pobres, facilitando seu acesso ao Morumbi quando precisa deles, e expulsando-os do mesmo quando a fase é boa.

Cobrar R$150 no ingresso mais barato de um jogo que sabidamente vai lotar independente do preço é bastante lógico, do ponto de vista do marketing e das finanças. Mas, como muito bem escreveu o pessoal do Trivela em resposta a um texto que é tudo que o futebol não precisa, o futebol só causa tanto impacto porque ainda é o futebol. Expulsar esses torcedores dessa maneira é mais um passo na direção da elitização e transformação do futebol em negócio e do torcedor em cliente. Essa semana, o SPFC atingiu a marca de 100.000 Sócios-Torcedores. Uma marca que significa uma grande contribuição para as receitas do clube, sem dúvidas. Mas até que ponto o torcedor, com esses preços, não está sendo coagido a fazer parte do programa? Até que ponto isso é ético com uma torcida tão grande?

A resposta para essa última pergunta é simples: não é ético. É uma prática abusiva com uma das maiores torcidas do Brasil, que está sempre lá quando o time mais precisa. É uma prática abusiva com qualquer torcedor que não tem condições de gastar quase um quinto do seu salário com ingresso para uma partida. É tudo que o SPFC como entidade e o futebol brasileiro não precisam. E é tudo que torcedores como eu não queriam ver.