Gudiplei
A primeira vez que ouvi a palavra “gudiplei”, se bem me recordo, foi semanas antes do meu aniversário de 2005. Na época, “Fix You” era a canção mais (trouxa) bonita que tocava nas rádios e acalentava diversos corações mundo afora.
Na época, tal qual hoje, o amor dela era o único residente em minha vida, e sempre que minha mãe ouvia a faixa citada, ela vinha em minha direção e me abraçava sem motivo aparente. Até aquele momento.
Anos depois, fui percebendo que aquele abraço só existia devido aos teclados e vocais marcantes de “Clocks”, outra faixa marcante de Chris Martin e companhia. Minha mãe conseguiu associar a ligação entre as faixas — pontuo isto pois a mesma acha que The Beatles, Jet (devido a “Look What You’ve Done) e Tame Impala são o mesmo grupo — , e lembrar que, anos antes de “Fix You”, era “Clocks” que simbolizava, para ela, meu crescimento: o fim do ensino fundamental, o entendimento de algumas noções do mundo, o enfrentamento da adolescência, entre outros.
Quando surgiu “Viva La Vida”, no fim da década passada, a catarse materna voltava a explodir.
Neste caso, as cordas e a percussão marcantes simbolizavam o começo de uma nova vida: a entrada em um relacionamento, o início de uma faculdade, o primeiro emprego, etc. Se os riffs pesados da faixa lembravam um tornado de responsabilidades que viriam em minha vida, minha mãe roubava a voz doce de Chris para lembrar que tudo se sairia bem no fim das contas.
Dois discos depois, e a magia parecia perdida. O paraíso parecia encerrado e o céu já não tinha mais a simbologia de sua eternidade, ainda que cheio de estrelas.
Oito anos se passaram, e a aventura voltava a ter sentido. “Adventure Of A Lifetime”, o retorno definitivo dos britânicos à era disco, coincidentemente, traz em seus versos alguns conselhos de uma carinhosa mãe (a minha, porquê não?). Com a nova faixa, o início de um velho diálogo.
“Meu filho, sempre que eu ouço as músicas do ‘Gudiplei’, eu lembro de ti”. “A senhora já me disse isso, mãe”. “Ai meu filho, eu te amo tanto”, disse minha mãe em tom de choro. Emocionado, eu só consegui dizer: “Mãe, não é ‘Gudiplei’. É… Deixa pra lá”.
P.s: em respeito ao modo carinhoso com que minha mãe se refere à banda, o nome original foi proibido neste texto.