Cortes na ciência. E agora? O que fazer?

Saiu recentemente na revista Nature (uma das mais importantes revistas científicas), assim como em vários outros veículos da mídia: O governo brasileiro acabou de cortar o orçamento federal voltado para a ciência pela metade. O menor, desde 12 anos atrás — isso sem ajustar para a inflação. Algo absolutamente impensável.

O corte foi anunciado no dia 30 de março de 2017.

Prefiro não falar muito do governo Temer em si (um que eu particularmente acho detestável em praticamente todos os sentidos). Mas, falando um pouco, ele responsável tanto por essa medida absolutamente desastrosa (o corte de aproximadamente metade do orçamento para ciência), pela fusão absurda do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações com o Ministério de Comunicações (algo que simplesmente não faz o menor sentido, em termos práticos, se não como uma forma de falar que a ciência não é importante), pela controversa reforma da previdência (amplamente criticada), regulamentação da terceirização, e a imposta reforma do ensino médio. Entre outras coisas. Falando de um modo resumido, me parecem ser todas essas medidas para colocar o peso da crise econômica pelo qual o Brasil passa agora nas costas de trabalhadores, sendo o peso — e os mais prejudicados — maior na população mais pobre. Muitas das medidas vão na contramão de uma sociedade com menor desigualdade social, em especial a reforma do ensino médio, que desestimula a população mais pobre a entrar em faculdades, e ao invés disso, entrar em ensinos técnicos e se tornar parte da massa trabalhadora. Não tenho como intenção criticar o ensino técnico em si — sei que são formados bons profissionais a partir desse ensino, e não acho que uma faculdade seja necessária para uma boa educação (detesto o termo “ensino superior”). Mas de qualquer forma, é inegável a correlação entre “universidade” e castas sociais superiores, e a reforma vai na contramão de uma sociedade mais igualitária nesse sentido.

Estou me delongando. Tenho várias críticas a esse governo, é verdade. Mas esse texto é direcionado ao ataque contra a ciência brasileira realizado pelo governo atual. É verdade que esses problemas não são exclusivos do governo atual. É notável que, durante o governo Dilma, também houveram cortes na ciência (como demonstra o gráfico na Nature) após 2014, e também houveram alguns programas cujo gasto pode ser considerado como duvidosos, ou no mínimo mal planejados, como o Ciências sem Fronteiras. O governo Dilma (especialmente no seu final), comparado com o governo Lula, não foi completamente agradável para a ciência. Digo isso somente porque acho importante notar as falhas anterior, mesmo quando se opõe a governos diferentes. Não podemos endeusar governantes (ou mesmo governos). Fecham-se os parênteses e voltamos ao assunto principal. Os golpes do governo Temer à ciência. Os motivos dos cortes em si são discutíveis — o governo diz que faz parte de sua política de austeridade (juntamente com algumas das mudanças previamente mencionadas) — política que, suspeitosamente, exclui a taxação de grandes fortunas e reformas salariais dos próprios políticos. Política que, cada vez mais, deixa aparente algumas coisas já mencionadas, como a culpabilização dos trabalhadores comuns, elitização (mais ampla) da educação e da economia, aumento da desigualdade e, no caso de cortes na ciência nacional, não só uma falta de preocupação com a saúde pública, como também com o desenvolvimento do país em si — algo que por si só, aumenta a desigualdade numa escala maior. Ao invés de sermos competitivos em termos de descobertas com outros países, estamos a mercê de sermos somente um país feito pra produzir produtos. Uma reforma ridícula, detestável, inaceitável, assim como muitas das outras feitas.

Mas que, considerando o histórico, provavelmente será aceita, eventualmente. Talvez não completamente — mas provavelmente será.

Os cortes, com concomitantes gastos duvidosos, não são os primeiros. Já houve a fusão dos ministérios. A ciência brasileira já está sobre ataque faz tempo — esse foi simplesmente um golpe de proporções maiores (nunca antes vistas, é verdade). E o sentimento é mais de desespero e tristeza do que de revolta. Nesse cenário, o que fazer?

Algo que sempre é bom lembrar, apesar de não ser reconfortante, é que não existem soluções locais para problemas globais. Ou, no caso, nacionais. Colocar o peso sobre indivíduos não irá solucionar nada, e medidas locais não serão capazes de combater efetivamente essa medida em escala nacional. É necessário algo maior. Institucional. Ou melhor, medidas institucionais (no plural). Posicionamentos mais fortes de universidades e outras instituições científicas. Mas, muito mais do que isso, é necessário, de várias maneiras, repensar o sistema científico-acadêmico. Não é exagero dizer que cientistas, no geral, são privilegiados, e digo em termos econômicos. Proporcionalmente, não existem muitas pessoas provenientes da camada mais pobre entre cientistas (e com as mudanças do ensino médio, provavelmente terão ainda menos no futuro a médio ou longo prazo). Há uma barreira socioeconômica entre acadêmicos e a sociedade — o nível de analfabetização científica na sociedade é extremamente alto — e temos que assumir parte da culpa. Do golpe na ciência. Da falta de inclusão científica na sociedade. Da situação como um todo. Não nos mobilizamos antes. Nos aproveitamos da modernidade líquida para fugir e possibilitar a fuga, ao invés de lutar e criar mecanismos de resistência. De novo, ao dizer isso, não culpo indivíduos, e não acho que ninguém deva se sentir pessoalmente culpado. O “temos culpa” não é sobre indivíduos. O problema é numa outra escala. Não existem soluções locais para problemas nacionais. Não existem soluções simples para problemas complexos. Dito isso, o que podemos fazer, a níveis individuais? Nada?

Não acho isso. Ao invés do niilismo, o que podemos fazer é aumentar a escala de nosso pensamento. O que instituições podem fazer, nesse caso? Como comprar briga com os políticos por trás do golpe, em termos de curto-médio-longo prazo? Um movimento com escalas maiores, que proponha mudanças duradouras, é possível? Se sim, como esse se daria? Quem incluiria? Quais instituições? Quais seriam os objetivos e como eles poderiam ser alcançados?

“Não existem soluções locais para problemas globais” — Zygmunt Bauman

São questões que eu certamente não tenho uma resposta (ou mesmo múltiplas respostas), mas sei que no meio delas, deve ser incluída uma maior inclusão científica, menores barreiras acadêmicas, maior popularização da ciência, maior troca de experiência com a sociedade no geral — algo não hierárquico, mais orgânico (detesto essa palavra, mas não achei outra). A “marcha da ciência” que irá ocorrer no dia 22 de abril, não é errada por si só, de forma alguma, mas certamente faltam moções maiores. Movimentos concretos. Propostas que mudem o status quo, pois o que está vigente é, de várias maneiras, insustentável. Com “sorte”, o corte será mitigado — mas será essa de fato uma grande vitória? Será que a magnitude do corte não foi planejada, para depois ser revista, mas ainda assim ser significativamente menor do que o que deveria ser, como muitas vezes ocorre em outras escalas e outros setores? Será um sentimento de suposta “vitória” algo desejável, frente a um sentimento de revolta mais genuíno? Enquanto a academia por si só não tiver poderes maiores (digo “poderes” num sentido extremamente lato), estamos sempre a mercê de planos de desgoverno, independente do posicionamento inicial. Enquanto a academia estiver distante da sociedade em geral, esse tipo de desigualdade continuará a não ter o devido apoio popular. Não que ele por si só iria derrubar as medidas atuais. Duvido que qualquer coisa iria — absurdos que afetam uma parcela muito maior da população já aconteceram esse ano, e não foram derrubados. Mas certamente, uma sociedade com uma academia inserida de forma mais “orgânica” daria menos problemas para a ciência. Uma sociedade assim só tem a ganhar — e a ciência também.

Bom, o golpe aconteceu. Está acontecendo. Provavelmente vai continuar a acontecer. E agora?

Não adianta pensar em nível individual. Mas talvez, bem talvez, adiante pensar.