Dez anos.

É. Eu to em Harvard. Fui convidado pra vir pra cá.

Eu geralmente não falo muito sobre o por que de eu ter feito biologia. Não que seja um assunto muito recorrente ou relevante. Mas é algo bacana de se escrever sobre, agora que estou aqui.

Decidi estudar biologia há uns 10 anos atrás, mais ou menos. Ainda estava no ensino médio, com várias dúvidas do que fazer. É algo meio bizarro pra se escolher quando se é adolescente — decidir o que fazer pro resto da vida. Várias coisas acontecem na adolescência. Uma das coisas que aconteceu durante a minha foi acompanhar o desenvolvimento de uma doença chamada Alzheimer em minha avó materna — entre outros tipos de neurodegeneração.

Acompanhei ela esquecer pequenas coisas, até ela não conseguir mais andar. Ou falar. Até ela provavelmente esquecer de mim. O que, ironicamente, é algo difícil pra eu esquecer.

Bom. Eu na época, um garoto idealista, decidi estudar biologia. Eu na época, em minha inocência (e um pouco de prepotência, por que não), achava que fazendo isso podia achar uma cura, ou algo do gênero.

Dez anos se passaram. Bastante coisa mudou. Minha avó morreu no meu primeiro ano de faculdade. Continuei estudando. Entrei no laboratório de reparo de DNA da USP, e por um bom tempo estudei (e ainda estudo!) algo que parecia não ter muita relação com neurodegeneração. Eu buscava links e modelos para tentar estudar aquilo que entrei pra estudar. Passaram-se oito anos desde que eu entrei na faculdade. E depois de oito anos, eu consegui. Um modelo pra estudar neurodegeneração.

Eu sei, nem toda neurodegeneração é igual — geralmente não o é. Cockayne não é Alzheimer, síndromes progeróides não são iguais ao envelhecimento. Conheço algumas das vantagens e limitações de meu modelo. Sei (ou espero que saiba) o que não devo extrapolar.

Ainda assim… Fica o sentimento. Demorou uns 10 anos, mas aqui estou eu. Numa das universidades de maior renome do mundo, estudando, pelo menos em parte, aquilo que escolhi estudar.

Mais um passo. Bora lá.

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