[RESENHA] Amar é para os Fortes (Marcelo D2)

Capa do álbum.

A estreia de Marcelo D2 na direção de um média-metragem é um absoluto pé na porta. O álbum visual “AMAR é para os FORTES” mostra uma maturidade inventiva, reverencial e poética do rapper.

Sinistro é o protagonista da história, interpretado pelo filho de D2, Stephan Peixoto (ou Sain). A dualidade na trama é estabelecida com Maytor (Lorran Saga), que se mostra como uma espécie de antagonista à visão de mundo de Sinistro, que saiu da favela onde morava para buscar proximidade com a arte em uma galeria. Contudo, esse superficial antagonismo pode ser desconstruído com a forma que D2 costura observações e descrições da sociedade e da vida nos morros cariocas, através de críticas políticas e afirmações identitárias.

O fato é que Sinistro, como mencionado na obra, “corre pelo certo”. E é buscando a proximidade com a arte que ele chega à galeria onde conhece Chloë (Beatriz Alves). Os dois se apaixonam, e é onde D2 explora como a fuga da realidade através do amor constrói maturidade e criatividade. A decisão do protagonista no final do filme leva à reflexão do espectador a respeito de como seria o desfecho caso Sinistro não tivesse, mesmo que pouco, amado.

Em termos cinematográficos, a mise-en-scène traz muito mais do que o óbvio, em interessantes composições visuais, algumas vezes subjetivas. As cores são exploradas da maneira óbvia, o que não tira o mérito da boa utilização. Os figurinos e a direção artística são impecáveis: revelam uma favela além de índices criminais com cores, estilos, pensamentos e atitudes. A poesia estética tupiniquim da periferia retratada é a magna carta de Marcelo D2 frente aos temas propostos pelo conceito de “Amar é para os Fortes”.

Uma edição dinâmica adiciona ainda mais complexidade ao filme, intercalando as cenas de ação com fotos em preto e branco em determinadas vezes. Afinal, não é só de pretos e brancos que a comunidade vive. Há escolhas que se intercalam nesses extremos.

D2 se inspirou em muitas artes diferentes para realizar esse filme, e todas são devidamente referenciadas ao longo da obra. Desde “Cidade de Deus”, até Jean-Michel Basquiat, passando pela banda paulistana Grinders e batidas muito inspiradas em Kendrick Lamar. Falando sobre as referências mais do lado do cinema, temos um trecho onde o protagonista assiste pela janela de uma casa um trecho de “A Febre do Rato”, do diretor brasileiro Cláudio Assis. É notável a pegada de Spike Lee na obra, do qual D2 é assumidamente fã, além de um pouco de “Wild Style”, de Charlie Ahearn. A lista poderia se estender pelo resto deste texto. Os recortes de imagens em “AMAR é para os FORTES” escancaradamente desenvolvem uma visão de mundo, uma ação prática vivida por cada indivíduo filmado.

Marcelo Maldonado Peixoto dá um passo além em termos de afirmação cultural e arte. Não apenas o conceito de álbum visual é inovador no país, mas também um álbum visual que conta uma narrativa sobre os mais ignorados pela sociedade. Esse filme não se trata apenas da história de Sinistro. Na segunda faixa, D2 joga na tela letras garrafais que dão números da violência no Brasil, especificamente contra jovens negros, moradores (em grande maioria) das comunidades parecidas com a retratada no filme. Ainda na faixa “ALTO DA COLINA”, o frame da mulher negra no chão, com a mão nos ouvidos em uma tentativa de não ouvir os tiros enquanto o vaso da sala de estar é estilhaçado é um retrato cruel porém (infelizmente) fiel da realidade das comunidades no Rio de Janeiro. O que deixa a imagem ainda mais perturbadora é a televisão ligada em algum político discursando. É revoltante. E verdadeiro.

Em se tratando da música, o disco é tudo que poderia se esperar de D2. O diálogo rico com o samba (destaque para a música de encerramento, “FILHO DE OBÁ”), as letras provocantes e algumas colaborações interessantes como com Seu Jorge, Gilberto Gil, Alice Caymmi, Rincón Sapiência e Anna Majdison são os pontos fortes da obra. Mas o grande valor está na narrativa muito bem costurada entre o som e a imagem. E entre tantas dualidades desprendidas de seu conteúdo, “Amar é para os Fortes” é marcante, visualmente estonteante, provocativo e pode ser tratado como um verdadeiro marco cultural e identitário de toda uma comunidade.

O álbum e o filme estão disponíveis no Apple Music.

Gustavo Scholl Ventura

Written by

Crítico de cinema, apaixonado por arte e escritor vez ou outra.

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