Bel Pesce e o empreendedorismo de palco: porque a Menina do Vale não vale tanto assim
Izzy Nobre
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Oi Izzy,

Você não me conhece, e eu te conheci ontem, com essa disseminação em massa do seu artigo. Não sou defensor-mór da Bel Pesce, não a sigo e, na verdade, um ou dois vídeos dela foi suficiente para eu perceber a empreendedora de microfone que existia dentro dela. Não tenho esperança de que você leia isso, mas, caso leia, eu gostaria de dar-me a liberdade de te corrigir em um aspecto do texto que me chamou muita atenção. Me sinto com respaldo pra falar disso pois já estagiei no Vale do Silício, e algumas coisas que você diz me chatearam um pouco. Lá vai:

A primeira coisa que eu gostaria de te corrigir é quando tu falas que não há nada de excepcional ou prestigioso em se conseguir um estágio desses. Eu não sei se tu se referes exclusivamente a programas de estudantes do MIT, mas eu te digo com total certeza que, genericamente, isso não é verdade. Toda minha graduação, em uma faculdade pública brasileira, foi dedicada a conseguir uma oportunidade dessas. Abdiquei de muita coisa para participar de competições de programação, inclusive de propostas de emprego. Fui medalhista nacional de prata, bronze e ouro da ICPC em 2013, 2014 e 2015, respectivamente, além de finalista mundial em 2016 – caso tenhas interesse, ICPC, ou International Collegiate Programming Contest, é uma das competições com mais destaque no mundo da computação, com o foco em resolução de problemas algorítmicos. Apenas com essa visibilidade, que eu te garanto que não foi fácil conseguir, eu fui chamado para entrevistas técnicas pela Microsoft, Google e Facebook. Consegui oferta nas três empresas, e estagiei nas últimas duas. Durante meu estágio, minha função era tudo, menos read-only, como tu afirmas que é como os estagiários do Vale operam. As empresas têm 3 meses para me conhecer e eu tenho 3 meses para provar que sou merecedor de uma oferta full-time. Eu tive quase o mesmo acesso (salvo excessões, como algumas partes do código fonte do Google) que os funcionários full-time. Escrevi mais de 5 mil linhas de código em cada estágio. Bem mais que isso, na verdade. Desenvolvi projetos que estão sendo usados por milhões de pessoas. Durante os estágios, conheci vários outros estagiários de faculdades consagradas como, por exemplo, Stanford, Waterloo e MIT. Nenhum desses estagiários operavam na forma read-only, novamente, como você sugere. E eles tinham uma base de conhecimento vasta e invejável, realizando projetos muito, muito legais. Com isso eu termino o primeiro ponto: por favor, não julgue a credibilidade de um estágio desses ou do trabalho de estagiários no Vale. Somos muito bem recompensados e trabalhamos muito, além de que não é tão trivial conseguir algo aqui. Pelo menos pra alguém do Brasil.

Beleza, sobre o ponto acima, talvez tu responda que o argumento foi direcionado exclusivamente a algum segmento de projeto de verão que ela aplicou pelo MIT, e que, nesse caso, é fácil conseguir. Mas, logo à frente, você julga a credibilidade dos trabalhos que ela realizou dentro desses estágios. Cara, essa parte me doeu bastante. No meu currículo e no meu LinkedIn, você vai ver uma menção bem superficial sobre os trabalhos que eu desenvolvi no Facebook e no Google. Colo aqui o que eu falo sobre eles:

Facebook – Worked at the Events platform, developing a system to gather several statistics of events, storing them in an efficient temporal aggregation database, back-ended by a cache layer, so the collected data could be fetched and properly displayed at any time.
Google – Worked in a social-infrastructure project that aimed to effectively promote performance and resources efficiency as a natural step of software development at Google.

Link do meu LinkedIn

Você pode duvidar que eu desenvolvi ambos os projetos. Se você pesquisar sobre esse projeto do Facebook na internet, vai achar alguns artigos de quando ele foi lançado, nenhum dos quais vai mencionar meu nome. Segue o link de um artigo lançado alguns dias após o meu projeto do Facebook se tornar público, como exemplo: http://thenextweb.com/facebook/2014/08/07/can-now-track-facebook-events-engagement-insights/

Tá, você pode parar de ler aqui e argumentar: eu não acredito que foi você quem fez esse projeto, e você está só querendo se autopromover. Não vou contestar. Não posso te provar, e apenas quem trabalhou comigo, nos estágios, poderia atestar por mim. Por que isso?

Primeiro porque existe uma cláusula de sigilo em quase todo acordo de vínculo empregatício que você firma, seja para estágio ou para trabalho em tempo integral, e as consequências da quebra de sigilo são bem pesadas para o contratado; segundo porque não há obrigação de reconhecimento público, por parte de qualquer empregador, de projetos desenvolvidos por seus funcionários; e terceiro porque uma grande parte dos projetos de empresas de software são voltadas para o uso interno da própria empresa e, portanto, não pertencem ao âmbito de conhecimento público. O meu projeto do Google, por exemplo, foi um projeto estritamente interno para a empresa. Participei do desenvolvimento de uma ferramenta interna usada pelos Googlers e para os Googlers. Não vais encontrar o nome dessa ferramenta na internet, tampouco alguma documentação, e essa falta de fontes nos engenhos de busca não anula absolutamente nada do que eu fiz. Simplesmente significa que a) não tive meu nome vinculado aos meus projetos, o que é natural; b) participei de projetos internos; c) assinei um contrato de confidencialidade que não me permite elaborar muito sobre isso.

Eu espero que tenhas entendido meu ponto. Não estou defendendo a Bel Pesce como pessoa, ou seus métodos 'charlatoneiros' de empreendedorismo, e admito que muitos pontos que você investigou são intrigantes, como as 5 graduações que ela afirma ter feito. Mas esse argumento da credibilidade dos estágios, especificamente, me incomodou um pouco, pois eu já vivi isso e sei que a internet não é credencial da verdade para os projetos que eu desenvolvi nessas empresas. E, assim como você questiona a veracidade dos projetos que ela afirma ter desenvolvido nessas empresas, o mesmo você poderia fazer comigo ou com vários outros que eu conheço.

Abraços!

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