E se todo brasileiro fosse Empresário Júnior

Gustavo Werlang
Sep 5, 2018 · 11 min read

No Movimento Empresa Júnior (MEJ), muito se fala sobre educação e empreendedorismo. Porém, esse artigo tem o objetivo de refletir outros aspectos e indicadores, que talvez sejam causas raiz de resultados do país como: 88ª no ranking mundial de educação [1], 98ª no ranking mundial de empreendedorismo [2] e 96ª no ranking mundial de corrupção [3].

Nos últimos anos o brasileiro tem vivido o período mais intenso e desafiador de toda a sua democracia. Presenciamos o fim de um ciclo de crescimento seguido de mudanças drásticas na economia mundial e vários erros de irresponsabilidade do nosso governo. O resultado disso foi uma crise institucional, social e econômica que levou o país a mais um processo de impeachment.

Mas e agora, o que podemos fazer? Vamos agora discorrer sobre alguns fatos da nossa história recente, para entender porque nós acreditamos que o Movimento Empresa Júnior tem sido uma resposta positiva para todo esse cenário: caos de identidade, falta de propósito e liderança, crise política, queda na economia, aumento de corrupção e gestão pouco eficaz.

Em 2009 a economia global era outra, o Brasil era visto como uma potência exportadora de matéria-prima, os chineses se tornavam uma potência estabelecida e os Estados Unidos da América (EUA) passavam por uma crise. No Brasil, essa nova ordem mundial trazia, internamente, coisas boas. Os investimentos eram pesados e realizados por todo o país, além de vários recursos que iam para educação e infraestrutura. Porém, ainda em nesse ano, o país cresceu pouco, mas conseguiu entrar no Grupo BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) que juntos formara um grupo de cooperação e reconhecidos por serem forças de economia emergente, lembrando que a África do Sul ingressou no grupo apenas em 2011.

Imagem dos representantes do Grupo BRICS — [4]

Podemos ser a quinta economia mundial até 2014, o Brasil Decola, diz a respeitada The Economist.

O Brasil sofreu pouco com a crise global nessa época, porém já se discutia até quando nossas commodities conseguiriam puxar a economia do país para cima. Apesar de 2009 não ter sido um ano fácil, o nosso 2010 começou muito bem, tivemos dados positivos de consumo das famílias. No dia 31 de outubro de 2010 a primeira mulher é eleita presidente do Brasil e prometia a implantação da Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira (CPMF) e aumento do salário mínimo.

Em 2011 tivemos o desafio de fazer a indústria a manter um ritmo de crescimento. Porém, foi exatamente o oposto que fizemos, com um governo pouco visionário entramos em 2012 com um cenário de baixa. Podemos destacar aqui a ascensão dos Microempreendedores Individuais (MEI) que tiraram milhares pessoas da informalidade, porém pouco foi feito para criar um ambiente favorável para o empreendedorismo, e nossa situação de regressão industrial, muita burocracia para abertura de empresas, governo com gastos inchados, educação com falta de qualidade e desigual em oportunidades, foram os ingredientes necessários para que o país tivesse em 2013 seu pior resultado econômico industrial desde 2008.

O Brasil estragou tudo? questiona a revista The Economist, criticando o desempenho econômico do Brasil no período entre 2011 e 2013.

Em 2013 tivemos uma aprovação de lei histórica para destinar os recursos do pré-sal para a educação e saúde e o Brasil conseguiu uma solução para isso. Pena que só no papel, pois a produção de petróleo, não conseguiu aumentar significativamente. Pois tivemos durante o período de 2009 e 2016 anos de baixa e alta na produção petrolífera, não acompanhando os grandes do mercado [5] [6]. O que chama atenção é que o pré-sal em 2016 foi responsável por 40% de toda nossa produção nacional [7].

Começamos assim 2014, ano de eleição, com o desemprego em alta e baixa produtividade nas mais diversas áreas. E podemos avançar nesse período com alguns aspectos em mente, empresários não confiavam mais nas lideranças do governo, queda de investimentos, os consumidores inseguros, queda da economia ano após ano. Nos próximos anos tivemos uma explosão de corrupção no país, como nunca se tinha revelado ainda, e nesse momento as lideranças políticas começam a se dividir e a criar um ambiente hostil e de guerra por poder. O governo passa por um momento complicado, a inflação dispara, os juros sobem e as dívidas aumentam.

Pesquisa realizada pela consultoria Kienbaum Brasil, com mais de 18 mil líderes do país, diz que temos gaps em gestão global e de desenvolvimento de pessoas [8].

Com a mudança do governo, a expectativa era de melhoria, porém, os resultados por mais que começassem a aparecer, não foram suficientes para ganhar a credibilidade da população que estava dividida entre os que acreditavam ter sido um golpe a tomada do poder pelo, então, Presidente Michel Temer e os que ainda não estavam convencidos da mudança de atitude do governo. Os escândalos de corrupção não pararam, e o desemprego já é a realidade de 13,7 milhões de brasileiros [9].

Imagem de uma das agressões contra os caminhoneiros durante a greve — [10]

E chegamos, hoje, a um país que tenta acompanhar a economia mundial para controlar os preços de seus produtos, porém, devido a diversos fatores como falta de alinhamento entre governo e cidadãos, e falta de credibilidade, a alta dos preços dos combustíveis entra em colapso e temos uma greve de 11 dias dos caminhoneiros. E nesse momento, vivenciamos o pior lado do brasileiro: brigas nas filas para abastecer (impaciência e falta de respeito), depredação de postos de combustíveis (ira e revolta), e compra desenfreada de insumos e alimentos gerando do recurso para outras pessoas (falta de solidariedade e cooperativismo).

Mas o pior foi ver que as nossas lideranças estão cada vez menos preparadas, um governo que demora para agir, tem como primeira resposta a opressão e imposição de multas, não tem o exemplo no momento de cortar gastos (somos o país que mais paga impostos e onde os políticos são os mais caros para se manter), e por fim tomaram medidas que muito pouco foram em prol da população, a qual é seu dever servir.

Nesse cenário que iremos abordar o contexto de um Movimento transformador e agente que vem crescendo e impactando cada vez mais jovens através de um objetivo comum e muito claro:

Formar empreendedores comprometidos e capazes de transformar o Brasil por meio de uma vivência empresarial.

Imagem que reforça o chamado para a ação dos jovens brasileiros — [11]

É uma época oportuna para se discorrer a respeito do contexto econômico e político de nosso país e sobre como ele é consequência direta do povo brasileiro e seus padrões de comportamento sociais. Entretanto, toda situação vivida nos últimos dias me fez revisitar alguns pensamentos e consegui ficar certo de algumas coisas que o Movimento Empresa Júnior (MEJ) é capaz de nos ensinar ao longo de toda jornada de trabalho e aprendizado que ele nos proporciona.

Posicionando a lente fora do MEJ, começamos a nos perguntar: quais seriam os comportamentos e atitudes que teríamos que ter para que fizéssemos um país mais competitivo, educador e desenvolvido? O que precisamos fazer diferente ou o que falta no brasileiro para fazer o braza sair do chão de vez? Indo além, como o Movimento Empresa Júnior está contribuindo para formar um grupo de pessoas comprometido e capaz de, realmente, mudar o jogo e implantar as mudanças e projetos necessários para botar nosso país no mapa dos que são exemplos mundiais?

Imagem da Capa da revista The Economist em 14 de novembro de 2009

Em 2017, o Brasil conseguiu evoluir uma posição no ranking mundial de competitividade, que leva em conta quesitos como eficiência do mercado de trabalho, estrutura tributária, políticas de combate à corrupção…, mas ainda assim se encontra na 80ª colocação entre 137 países. Isso demonstra, que há muito a ser feito e, conforme um velho ditado,

não se pode esperar resultados diferentes de atitudes iguais.

Logo, espera-se que a geração atual, os millenials, sejam capazes de entregar soluções inovadoras e eficazes para a resolução de problemas tão complexos.

Posto tal cenário, muito se fala que a solução para tudo, ou quase tudo, está na educação e na formação das pessoas, porque assim teremos agentes preparados para fazer a diferença, pôr ordem no caos. Me permito, então, tratar a respeito do sistema de educação, principalmente o superior, onde o MEJ está diretamente inserido. O que se vê, atualmente, são métodos bastante antigos sendo replicados ano após ano, mesmo que o mercado e a sociedade estejam em constante mudança e exigindo, cada vez mais capacidades mais dinâmicas e integradas. Têm-se um modelo de formação superior departamentalizado, puramente acadêmico e pouco integrado com o ecossistema empreendedor e produtivo, ainda que a tendência seja a demanda por multidisciplinaridade e soft skills, ou capacidades humanas, cada vez mais desenvolvidas.

É nesse contexto que entra a atuação e a importância do MEJ e de seu sistema de formação de empreendedores ou lideranças. Acreditamos, enquanto empresários juniores, em três principais diretrizes:

Imagem do Se Joga na Rede 2018.1 — Evento do MEJ Catarinense que reunir 500 estudantes em Florianópolis em torno da temática do empreendedorismo.

1. Learn by doing

No MEJ, acima de qualquer coisa, aprendemos fazendo e somos muito orgulhosos do resultados que isso gera em cada um dos estudantes que passa pelo movimento. Nada mais produtivo da ótica do aprendizado do que tomar pau e aprender na prática como realizar uma atividade, atingir um objetivo ou até mesmo vender uma ideia para alguém. Vivenciar o processo e tomar responsabilidade pelos meios faz com que busquemos conteúdo teórico para embasar ações e o melhor, coloca, de fato, a capacidade de realização de todos nós à prova. Cada novo projeto, cada negociação, cada venda é uma experiência gigantesca de aprendizado e crescimento pessoal e profissional.

Ser do MEJ é colocar nossos neurônios para encontrar soluções reais para clientes reais, aprendendo através de projetos que geram valor para pessoas que talvez não seriam capazes de ter aquilo, ou por falta de instrução ou pelo alto valor no mercado. O MEJ forma, de maneira complementar com o Ensino Superior tradicional, pessoas capazes de pensar em novas possibilidades para o nosso futuro.

2. Capitalismo Consciente

Vivemos em uma sociedade capitalista onde, muitas vezes, as empresas e organizações são guiadas, completamente, pelo lucro e resultados financeiros que trazem. Essa linha de pensamento não está errada e, na verdade, o dinheiro está para uma empresa, assim como o oxigênio está para um ser vivo, sem ele, a organização não sobrevive.

No entanto, surge uma nova tendência de pensamento e cultura nas organizações modernas, o Capitalismo Consciente. O equilíbrio e a função social de uma empresa não é demonstrado e posto em prática somente em espisódios oportunos e esporádicos. Esquece-se a ideia de ter uma atividade chave extremamente desequilibrada ambiental e socialmente que deve ser compensada por ações sociais, como se houvesse uma balança que comparasse e medisse a sustentabilidade das mesmas.

O Capitalismo Consciente e as empresas que optam por aderí-lo à sua cultura, o fazem ser inerente ao seu modus operandi principal. Uma organização consciente existe por um motivo nobre e todo seu core business será orquestrado de modo que todos stakeholders do negócio sejam altamente satisfeitos em suas relações com a instituição. Ou seja, desde o fornecedor, passando pelos colaboradores e até mesmo os clientes receberão um cuidado muito especial para que tenham sempre a melhor experiência possível, “todos são importantes”. Tudo isso orientado por um propósito claro.

Existem 4 grandes pilares que orientam o Capitalismo Consciente e as empresas que por ele são orientadas

  1. Propósito além do lucro
  2. Liderança consciente
  3. Impacto consciente
  4. Cultura consciente

Nós, do Movimento Empresa Júnior, acreditamos muito no trabalho guiado por propósito e fazemos o que fazemos por um motivo extremamente relevante.

Cada projeto realizado é mais um passo dado no sentido de capacitar profissionais capazes de realizar a mudança que acreditamos ser necessária em nosso país. Em meio a um cenário político tão conturbado, onde a educação fica debilitada, estamos nos movimentando em prol de um objetivo que é maior do que todos nós juntos.

Atualmente, o Movimento Empresa Júnior brasileiro atinge, diretamente, cerca de 20.000 estudantes do ensino superior e outros tantos empreendedores e micro e pequenas empresas que são impactadas por nossos serviços, produtos e projetos realizados. Ainda há muito espaço para crescimento e representatividade frente a um país de 200 milhões de habitantes. Entretanto, temos certeza de uma só coisa, e é o que nos faz acreditar muito em todo trabalho que está sendo realizado em cada canto dessa nação: formamos estudantes altamente capacitados trabalhando pautados nos princípios do Capitalismo Consciente e desenvolvendo líderes empreendedores.

Além de serem formados nas melhores e mais conceituadas universidades do país, os empresários juniores acessam uma jornada de trabalho real com o mercado, a qual fomenta seu crescimento enquanto pessoas e profissionais. Gerenciar uma Empresa Júnior traz grandes desafios, exige capacidade de lidar com crises, trabalhar em grupo e desde cedo, dominar conteúdo técnico para mostrar valor a clientes reais e executar projetos que, posteriormente, serão implementados e terão que gerar resultados práticos.

O MEJ é responsável por aproximar a vivência do mercado do ambiente universitário e fazer uma ponte que em diversos casos não existe. O ensino universitário público brasileiro se pauta muito na teoria e segue métodos do século passado, quando o ecossistema clama por interdisciplinaridade e profissionais com soft skills desenvolvidas.

3. Sinergia

Fazer parte do MEJ significa trabalhar por um propósito que é muito maior do que a soma de todas as partes ou a soma de todos empresários juniores juntos. A palavra competitividade é substituída, nas relações em rede, pelo colaborativismo. Cada Empresa Júnior se torna mais forte quanto atingimos grandes resultados em conjunto e consequentemente, cada membro se torna mais capaz quando uma meta colaborativa é atingida. Ser MEJ é fazer junto e crescer junto com o outro.

Fazendo um paralelo com a situação vivida em nosso país durante os últimos anos e, mais recentemente, na última semana com a greve dos caminhoneiros. Talvez, a chave para voltarmos a crescer, seja o trabalho em sinergia e a união da nação em função de objetivos que atingiremos em conjunto.

Quando, nos últimos dias, a greve se tornou relevante, a reação primária dos nossos governantes foi anunciar sanções e multas àqueles que resolveram parar seu trabalho e protestar por direitos melhores. Aliada a isso, boa parte da população se dirigiu à classe caminhoneira como se estivessem fazendo mal a todos outros, uma vez que as consequências da paralização se alastraram a todos setores da economia e da sociedade. Acreditamos piamente que situações como essas poderiam ser gerenciadas de maneira completamente distinta se, estivessem empossados, líderes integradores e preocupados em garantir uma experiência de qualidade a todos às partes interessadas.

E se todos setores da sociedade fossem alinhados pelas lideranças de nosso país a agirem, cada um em seu campo de responsabilidades, para um propósito maior e, por exemplo, não nos voltássemos contra manifestações democráticas com medidas ameaçadoras e punitivas de primeiro momento?

Nesse quesito, o MEJ tem muito a ensinar, trabalhamos juntos e colaboramos para construir o futuro que é o mais favorável para cada um de nós mesmos. E fazemos isso através do diálogo, do trabalho em rede, do colaborativismo e de lideranças conscientes e servidoras a um propósito nobre.

Trabalhamos por um Brasil mais ético, competitivo e educador: com governos melhores, escolas melhores e empresas melhores.

Queremos ser tão grandes quanto o Brasil!

Gustavo Werlang
“Nada me deixa mais realizado do que trabalhar por um objetivo no qual acredito muito. E acredito muito que podemos cocriar um futuro promissor a partir do impacto local que somos capazes de gerar. A educação e a colaboração são o caminho para um amanhã brilhante.”

Pedro Henrique Passos Catini

“ Acredito que o Brasil tem jeito sim, e que quanto antes assumirmos um papel de protagonistas em nossas vidas, teremos condições de conhecer nosso verdadeiro impacto na sociedade. O brasileiro é um povo muito forte e se unirmos nossas forças para melhorar o nosso país, não existirá mais nada que impeça nossa grandeza”.

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