Incomodo

Um estampido, eventualmente, uma batida surda, quase que constantemente. Algo me incomodava, a batida? O estampido? Talvez. Os sons de vozes que vinham do ralo do chuveiro, a goteira que sussurrava meu nome? Com certeza. Um chamado quase inaudível, mas que me obrigava a ficar acordado por noites e noites.

As vezes havia uma pausa, tudo na vida tem uma pausa. Porém logo, no uivo do vento pelas frestas da janela do escritório, o chamado novamente.

Não adiantava responder. Gritar, esbravejar, brigar. Ensandecido, colocar as mãos, algodão ou tampões nos ouvidos. No zumbido ainda escutava vozes.

Era a morte me chamando? Por que não me leva logo?

Talvez a loucura estivesse em meu encalço? Essa sim estava com mais chances de sucesso.

A ansiedade, os suores, coriza, olheiras, eu imaginável qual mal me afligia. Mal esse que me fazia ser a pessoa mais comum que existia ao procurar ajuda.

Conversar com amigos? Psicólogos, psiquiatras? Assim como uma criança pregando peças, tudo se escondia quando alguém surgia. Florais, placebos e tarjas pretas. Radiestesia, numerologia, quiromancia. Meditação, religião e abstração. Nada mudava o que acontecia.

Cheguei a pensar em furar meus tímpanos, mas já desacreditado, desisti. Também percebi que talvez eu precisasse me cegar, pois na escuridão, no soslaio, na fumaça, na neblina, no sol da manhã e da tarde, havia algo lá. Algo que eu temia, algo que me causava arrepios que me imobilizava.

Certa noite, ao levantar de madrugada, encarei meu reflexo no espelho do banheiro, uma imagem horripilante, cadavérica e translúcida. Taciturno, olhei para minhas mãos, e toquei meu rosto. Estava tudo certo, eu estava ali. Era o que eu sentia, mas não o que eu via. No quarto ouvi chamar meu nome novamente.

Olhei na cama e uma mulher sentada chamava meu nome, mas ela não me via. Eu tentava falar com ela, gritava, tocava, empurrava, ela simplesmente me ignorava, e chamava meu nome.

Saí correndo, tentei chamar o elevador, mas ele me ignorava, desci pelas escadas e tentei abrir a porta da entrada. Ela me ignorava. Subi as escadas novamente, ofegante, no meu apartamento, aquela mulher tomava água na cozinha, e chorava. Lamúrias que ouvi várias vezes e que me perturbavam.

Ah! Essa loucura me toma, subo até o terraço, olho para baixo, a noite fria e solitária seria minha companheira. Olho para cima o sol da manhã começa a derreter a geada. Olho para trás e o sol alaranjado do crepúsculo embeleza os últimos momentos antes do fim.

Salto, e sinto o vento contra meu corpo, sinto o silêncio daquele momento, sinto a velocidade e me lembro de um estampido, o impacto e o fim, fim que aconteceu há tanto tempo e eu não percebi, e percebi naquele momento a mim mesmo, um reflexo de mim me chamando, me puxando, dizendo para irmos embora. Para onde vou agora?