Como eu fiz as pessoas falarem “TOP”

Eu amo memes. Não somente pela graça que a grande maioria deles apresenta, mas principalmente pela capacidade de reapropriação e reprodução que eles têm. Acho muito interessante observar como um conteúdo — seja ele o tipo de mídia que for — é aceito, modificado e compartilhado à exaustão na internet. Até que ele chega à televisão e lá é sepultado. Mas isso é assunto para outro texto.

Para deixar claro, eu uso como conceito de meme aqui o demarcado por Richard Dawkins (sim, o senhor ateu que tem um documentário na Netflix). O termo foi emprestado de um de seus livros, “O Gene Egoísta”, publicado em 1976, onde definia meme como uma “unidade de evolução cultural”, que se propagaria de indivíduo para indivíduo. A título de curiosidade, como exatamente o termo foi associado à cultura da rede não é possível aferir com total certeza, no entanto, o primeiro registro de sua utilização na internet foi em 1998 no site Memepool — idealizado por Joshua Schachter (um dos criadores do del.icio.us) -, que era um agregador de links com conteúdos que viralizavam na internet.

É difícil entender como ou porque um meme surge e se desenvolve, mas eu sempre quis entender a razão disso acontecer. Minhas hipóteses são de que, para que isso ocorresse, o conteúdo em comum deveria partir de uma ultrageneralização que esteja em sintonia com a cultural local, deveria ser de um teor positivo (aqui entendido como algo que remeta a algo relativo a humor ou que transmita uma mensagem que não gere muitos conflitos) — talvez por isso o grotesco e o tosco tenham tanto espaço no mundo dos memes da internet — , mas, principalmente, um meme precisa de alguma forma ser aceito pela comunidade e repetido até que todos os indivíduos — ou grande parte destes — tenham aceitado e cooptado para si o meme em questão.

Inês Brasil é um trending meme no momento da publicação deste texto.

Um meme é algo vivo, ele surge e é cooptado e transmutado dentro da comunidade em que se desenvolve. Não é a toa que você frequentemente vê um meme várias vezes durante um mesmo dia atrelado à frases diferentes. Todos têm o direito de alterar e republicar um meme de acordo com a sua experiência e seu núcleo social. É algo intrínseco à internet, onde todos são espectadores e produtores do conteúdo na web. E o principal: ninguém é dono de um meme, não importa onde ele tenha surgido.

De alguns anos pra cá o número de memes têm aumentado frequentemente e sua duração têm diminuído na mesma proporção. Se ignorarmos os memes que rolavam nos e-mails da Era Pré-Redes Sociais (As árvores somos nozes, por exemplo) e focarmos em coisas mais recentes — já na Era das Redes Sociais — estes conteúdos costumavam ficar algumas semanas sendo replicados nas redes até que caíam no esquecimento ou, em tempos mais recentes, iam parar na televisão. Hoje é muito comum que um conteúdo criado e que atingiu certo sucesso na internet vá direto para as pautas de programas da televisão analógica em pouco tempo, mas nem sempre foi assim.

À época do meme da “Luiza, que está no Canadá”, se me lembro bem, vimos em menos de uma semana de meme a Ana Maria Braga fazendo um entrevista ao vivo com a famosa Luiza, que estava no Canadá. Isso gerou até um gráfico que falava sobre a Curva dos Memes que, até hoje, eu considero relevante:

Fonte: http://www.bluebus.com.br/ja-viu-a-curva-dos-memes-qdo-aparece-na-ana-maria-braga-significa-q-morreu/

Pois bem, meu objetivo era forçar a criação de um meme em um ambiente específico (no caso um em que eu estivesse presente a maior parte do tempo), pois como sou apenas um indivíduo, forçar a replicação de algo por um número maior de pessoas seria inviável. Não importava muito o que seria replicado, dessa forma decidi por uma expressão que foi a “TOP”. Ela obviamente não foi criada por mim, mas as pessoas no núcleo onde eu pretendia realizar o experimento não eram afeitas ao termo, por considerá-lo tosco, o que era perfeito para testar as minhas hipóteses sobre o surgimento dos memes.

Meu modus operandi foi: repetir à exaustão o termo para classificar coisas positivas que acontecessem ou que fossem comentadas no ambiente onde eu estivesse. Além disso, era necessário que em pouco tempo eu conseguisse pontos de replicabilidade dentro do ambiente — ou melhor explicando: eu precisava que pessoas queridas por todos começassem a usar o termo, o que consegui algum tempo depois.

Ao começar a usar o termo as primeiras reações foram de risos — por considerarem o uso por mim como um deboche — até que, pouco tempo depois, passou a certa irritação pelo uso da palavra “TOP” surgir com grande frequência. Não fiz uma firme demarcação de tempo, mas creio que um mês, ou pouco mais, depois as pessoas ao meu redor já utilizavam a palavra de forma irônica. Atualmente o “TOP” é utilizado de forma irônica e, muitas vezes, sem a pessoa perceber o seu uso.

Top.

Quis testar então uma variação do termo, como forma de reforçar o minha observação: foi assim que surgiu o “TOPÍSSIMO”, que servia para designar algo que fosse tão bom que ultrapassava a margem do “TOP”. E foi assim que, dois meses depois as pessoas estavam usando “TOPÍSSIMO” para designar algo que fosse extremamente bom.

O importante é: consegui atingir o objetivo de fazer as pessoas ao meu redor usarem o termo “TOP” no dia-a-dia, seja de forma irônica ou não, conscientemente ou não. Meu objetivo nunca foi realizar uma pesquisa empírica minuciosa sobre o assunto, mas sim testar se eu conseguia fazer o termo ser replicado e, de uma forma ou de outra, consegui. E as minhas hipóteses estavam todas lá: era uma palavra que fazia parte da cultura local, considerada tosca e que foi repetida exaustivamente.

Talvez nunca entendamos completa e certamente porque um conteúdo se torna um meme na internet. Se os aspectos que eu apontei são realmente necessários para que algo atinja esse objetivo ou mesmo se existem aspectos comuns a todos que surgem — exceto a possibilidade replicabilidade. Assim, continuarei na pesquisa para entender mais e melhor como funcionam esses conteúdos que se replicam e que tomam o nosso dia-a-dia sem que, muitas vezes, percebamos.

Espero que tenha achado top.