Uma bicicleta roubada, um colombiano com medo de porta-malas e a importância de dar voz às cidades.

Por Gustavo Nogueira

Dia 15 de Agosto. Em um sábado como outro qualquer, à luz do dia, minha bicicleta foi roubada dentro da garagem do prédio onde moro. Sim, dentro do prédio.

Vi alguns dias depois, no monitor das câmeras, o sujeito pouco antes do meio-dia entrando no prédio pelo portão da frente com uma tesoura de jardinagem. Circulou pela área social, tentou soltar o cadeado que prendia a bicicleta com as mãos, sem sucesso, voltou e usou a tesoura para soltar à força o cadeado. Saiu tão tranquilo como quando entrou, levando a minha bicicleta.

Além da perda material, a sensação de falta de segurança, mais uma vez, me dominou. Quem nunca ficou assim logo após ter o celular ou qualquer outro bem roubado? Aconteceu comigo e com Alex​ esse ano, inclusive. E me culpei assim como da última vez: “e se eu tivesse comprado uma corrente mais forte?”, “e se eu tivesse deixado a bicicleta dentro de casa?”, “e se eu…?”. A culpa parece ser sempre nossa.

A sensação de falta de segurança me dominou. A culpa parece ser sempre nossa.

Um sábado depois, dia 23 de Agosto, vi em meu feed pessoas ocupando a cidade de São Paulo na reinauguração do Mirante 9 de Julho. E, para meu desgosto, também vi pessoas criticando. Em uma das críticas, era preferível estar postando selfie em Londres, em Miami, na Amazônia, do que na 9 de Julho”.

Era um momento lindo para a cidade de São Paulo. Cidade que eu sinto carinho e saudade. Horas depois o post foi apagado, mas ficou marcado na minha memória.

Dessa vez uma segunda-feira, 24 de Agosto, fui ao debate entre os sociólogos Saskia Sassen e Richard Sennet no Fronteiras do Pensamento. Uma conversa sobre as cidades e as pessoas, dentro do tema do evento em 2015 que, coincidentemente, é “como viver juntos”.

Sennet, dos livros, falou sobre cooperação dialógica: a necessidade de vivermos de forma interdependente com o meio; de vivermos a cooperação como processo e não fim; mais que isso, de entendermos essa cooperação como habilidade de escutar além do que é dito e de negociar permissões e distâncias.

Sassen, das ruas, falou maravilhosamente como as ditas “cidades inteligentes” nos tornam estúpidos; que toda cidade tem uma voz e que essa voz precisa ecoar não do governo ou das grandes corporações, mas sim do povo; que hoje essa voz tem sido criada pelas elites, consumida de olhos fechados pela classe média, e confrontada pelas minorias.

Ao fim, ambos concordaram que ao escolhermos viver em silos deixamos de fora a existência do outro. Que precisamos criar a cultura da vizinhança “open source”. Que precisamos ser mais criadores da cidade e não apenas consumidores. Mais cidadãos.

Ser mais criadores da cidade e não apenas consumidores. Mais cidadãos.

O taxista que peguei na frente da UFRGS àquela noite me perguntou se ali estava acontecendo uma formatura. Contei sobre o evento e o que eu havia acabado de ouvir. Ele disse que o último sociólogo que entrou no táxi com ele pediu para parar o carro e descer nas primeiras frases. E eu quis saber o porquê.

Nos minutos que se seguiram até em casa fui ouvindo o taxista como o mundo hoje é uma terra sem lei; como ele e os colegas de profissão criam suas próprias maneiras de “resolver os problemas”; como dia desses um turista Colombiano não quis aceitar pagar o valor fechado fora do taxímetro até a cidade de Canoas e ele, o taxista, “teve” que cobrar colocando a arma no pescoço do homem; como colocou o homem no porta-malas para “dar uma lição”; como segurou a namorada do colombiano no carro enquanto o mesmo entrava no banco para sacar a diferença do valor da corrida; como resolveria caso o homem não pagasse (algo que envolvia a namorada, o Rio Guaíba e uma tragédia que nenhuma diferença em dinheiro valeria).

O homem pagou e o taxista disse que os liberou. Mas eu fiquei assustado, óbvio. Muito. Ouvi e respondi qualquer coisa. Antes de me deixar na porta de casa, em tom de legítima defesa, ele me disse: “Eu faço a minha lei”.

E, assim, poucos minutos de atenção a um dos muitos desconhecidos que cruzam nossos dias foram o suficiente para eu colocar à prova o quanto vivemos em silos, sem ideia dos diferentes mundos que nos cercam.

Vivemos em silos, sem ideia dos diferentes mundos que nos cercam.

Nessa quinta-feira, dia 27 de Agosto, é meu aniversário. Dia 29 completa um ano que mudei para Porto Alegre. Mesmo em terras inóspitas, cheio de incertezas sobre a vida, sobrevivi aos 27 anos.

Nesse minuto eu poderia ser mais um esbravejando contra o ladrão, contra o taxista, contra tudo e todos… Mas, após alguma reflexão, prefiro focar nas tantas pessoas maravilhosas com quem cruzei pelas ruas e pela vida por aqui. Foram muitas.

Então, no meu próximo ano, vou investir mais tempo fora do silo, colecionando histórias, boas ou ruins. Mais que isso, vou continuar acreditando em ocupar a cidade pelas pessoas, na importância de dar voz às minorias, e de conhecer o outro — por mais doloroso que isso seja — como caminho para que a voz das cidades em um futuro não muito distante tenham um timbre mais pacífico.

Por enquanto, não dá para comprar uma nova bicicleta. Mas a vida segue — a minha e a do ladrão, a do taxista e a do colombiano — e continuo acreditando que podemos fazer ficar tudo bem.

P.S.: Até pensei em ilustrar essa memória com um dos vídeos da câmera de segurança… Mas preferi a voz do Tiago Iorc​ em “Bossa”:
“Atenção, as pessoas não precisam ser iguais as outras
Aceite ou não, mas você é única no mundo assim
São mais coordenados, determinados, obcecados
E outros atrás vão levando a vida e quem ousar dizer que é pior
Há quem construa os aviões
Escreva as revistas
Outros dedilham violões
Eu digo
Hey, você que sabe tudo
Me diga como perguntar
Se eu não sei você que pensa em tudo
Me mostra o quanto pode amar”