A FÉ FLAMENGA E O SÓCIO-TORCEDOR

Um confrade de debates rubro-negros me perguntou, usando o inbox do Facebook, se eu achava que ser sócio-torcedor dava ao cidadão a prerrogativa de se considerar mais rubro-negro do que outros que decidiram não colaborar. Respondo por aqui pois se passaram umas cinco semanas que ele me mandou a mensagem, e somente hoje, uma terça-feira triste pela perda do rubro-negro Sérgio Leitão, é que pude responder.

E foi no comovente sepultamento deste honrado rubro-negro que tive a percepção e a resposta: de forma alguma uma mensalidade de sócio-torcedor pode levar alguém a ser mais rubro-negro que outrem. Sim, eram 16h18 na cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro quando Sérgio Leitão foi sepultado e um de seus filhos começou a cantar o hino do Flamengo. Grande parte das quase 250 pessoas (estimativa minha) que estavam em volta começaram a cantar. Impossível me lembrar disto sem me arrepiar.

Fiquei pensando se Sérgio Leitão, o jornalista que deu o furo mundial da prisão do inglês Ronald Biggs, o cara que recebeu ontem uma homenagem do próprio Zico no Facebook, seria sócio-torcedor. Ora, e isto importa? Seria possível, para mim, me considerar mais Flamengo que Sérgio Leitão? Claro que não! Irmanado em Flamengo, poderia me considerar igual (e peço perdão aos filhos dele por me considerar igual, sei que posso estar errado). Mas JAMAIS seria “mais rubro-negro” pois isto não é prerrogativa que se compre.

Fazendo um outro paralelo, um tanto mais desagradável, lembro que Antonio Soares Calçada, o ex-presidente vascaíno, também tem um título de sócio do Flamengo (patrimonial, não o sócio-torcedor). Por acaso Calçada seria mais Flamengo do que algum dos senhores que não possui título algum do clube ou mesmo tenha deixado de participar do Nação Rubro-Negra? Tenho certeza de que estaria incorrendo em grave injustiça se eu dissesse isto.

Portanto, resp0ndida à pergunta deste meu amigo: não, ser ST não torna ninguém mais Flamengo do que outros rubro-negros que não o têm.

Mas agora quero defender o ato de se tornar ST, fazendo um paralelo com a Igreja Católica Apostólica Romana, da qual sou fiel e batizado e comungado. Ora, quando vamos à Santa Missa, temos algumas interações: a oração, o cumprimento ao próximo, a doação de dinheiro (sim, uma cesta que passa) e finalmente a comunhão.

Para comungar, a liturgia diz que é preciso se confessar. O ato da comunhão é algo que une a Igreja e integra os fiéis que dele participam. Não os separa jamais daqueles que não comungam — mas cria uma irmandade em Cristo, da qual todos na missa fazem parte e dela todos (repito, até os que não comungaram) usufruem.

“Tomai e comei, este é o meu corpo, tomai e bebei, este é meu sangue”, diz o Cristo, na missa. E este é o MISTÉRIO DA FÉ. Você não precisa acreditar, e nem mesmo precisam provar a você que é isto — você não é São Tomé. Mas quando você comunga, se une em espírito a todos seus irmãos.

Um pouco parecido com isto acontece com o ato de ser Sócio-Torcedor do Mengão (e que meus confrades católicos não me tomem por herege, por favor): você faz uma doação ao Flamengo, como naquela cesta que passa todas as missas. Assim como doamos nossos trocados para termos uma igreja mais forte e atuante, damos nossa contribuição via Sócio-Torcedor para que tenhamos um Flamengo muito mais forte, mais vibrante, e a longo prazo, o grande Flamengo que esperamos ver de volta (e que este volte antes do Cristo, por favor). Os irmãos em Flamengo que não comungam, estes não precisam se preocupar: estarão sempre conosco, e repetindo as palavras do Papa Paulo VI, “o que nos une é imensamente maior do que aquilo que nos separa”. Nós que comungamos o fazemos por Deus, ops, por Zico, pelo Flamengo, pelos nossos filhos Flamengos, e também, tal como na Igreja, por aqueles irmãos na fé que por algum motivo ou outro decidiram não se confessar para a Eucaristia.

Ainda que nossos irmãos hesitem em comungar, temos a certeza de que aqueles que podem logo entenderão a importância deste gesto. Tal como manda a fé cristã, temos a humildade de não sermos maiores do que ninguém como indivíduos. Mas a nossa “igreja” um dia será a maior do ocidente.