JORNALISTA, AGORA UM FUNCIONÁRIO PÚBLICO

Na segunda semana de julho, viralizou nas redes sociais uma ação intempestiva de um profissional que, ao saber que sairia da Folha de São Paulo, escreveu um acróstico usando o texto de um obituário: as primeiras letras de cada parágrafo formavam a expressão “chupa Folha”. A ação teve repercussão quase imediata, e dois dias depois da publicação já havia pessoas compartilhando e caracterizando como “bem-feito”.

É óbvio que nesta reação está embutido o velho e nem tão bom rancor ideológico que volta e meia leva grupos e pessoas a atacarem órgãos de imprensa — no caso da Folha, é até estranho, uma vez que no jornal é possível ler todas as correntes ideológicas possíveis. Numa frase atribuída ao jornalista Cláudio Abramo, diz-se que uma boa matéria é aquela que desagrada os dois lados dela por igual. Isso, claro, no caso de uma notícia ter apenas dois lados. Nos tempos de web 3.0, estes números têm variado.

Mas dizer que a ação do profissional (segundo a ombudsman da Folha, um advogado contratado como jornalista) foi “corajosa” e “bem-feita” mostra que ainda falta aperfeiçoarmos, nas faculdades e nos próprios ambientes de trabalho, o conceito do que é um profissional de Comunicação Social. Antes de mais nada, nos tempos atuais ele é preferencialmente voltado para o público. Mais do que jamais foi.

Voltemos alguns anos no tempo: lembram quando o telefone tocava na redação, e era “um leitor”? E quantos de nós (talvez todos) em meio à correria do dia-a-dia, na hora do fechamento, já não amaldiçoou “o leitor”, chamando de “mala” ou “maluco”? Há também a clássica frase de Carlos Drummond de Andrade — “Quem escreve para jornal não tem namorada”, Sim, tudo isto pensávamos do cidadão chamado “leitor”.

Eis que surgem os celulares com câmeras, as redes sociais, o whatsapp. E o tal “leitor” vira, mais do que nunca, uma fonte de informação, a melhor que existe atualmente. Os rádios da polícia, que costumávamos ouvir para saber onde estava rolando o tiroteio ou o assalto, silenciaram nos anos 00, com a tecnologia nova adquirida pelas PMs. O “leitor que telefona” passou a ser…necessário.

Com estas transformações, não é exagero dizer que o jornalista profissional se tornou mais do que nunca (na verdade, já era) um servidor público de alto nível. Um servidor sem estabilidade, diga-se. Ele atende pessoas que ele não conhece em função de sua missão social. Ele precisa interagir e tratá-los como clientes. E este profissional ainda deve respeito absoluto a eles.

Este novo conceito faz com que o jornalista, ao contrário do que se pregava de forma hedonista e lúdica nas faculdades, passe a ser um pouco mais sisudo do que aquele que conhecíamos. Claro que determinadas áreas demandam profissionais mais descontraídos. Mas aqueles que se relacionam com o leitor precisam demonstrar uma seriedade irretocável — e um exemplo desta seriedade você vê ao se relacionar com os jornais via WhatsApp, por exemplo. O pioneiro dos whatsapp, o Extra, tem protocolos rigorosos no trato com os leitores que o procuram via aplicativo, que incluem relacionamento, sigilo, ética e respeito.

Em 2006, quando o saudoso Jornal do Brasil impresso (hoje está apenas na internet) mudou para o formato berliner, o jornalista Amauri Mello criou nas editorias um box fixo chamado Opinião do Leitor. Não era apenas uma seção de cartas, mas sim um posicionamento de um leitor impactado pela notícia trazida pelo impresso. Uma espécie de antevisão do comentarista de portal, este personagem que volta e meia nos brinda com opiniões até meio chocantes. Ressalte-se: há quase dez anos este tema já estava vindo à tona, pouco antes do Facebook, ou seja, a chuva de opiniões já era vista, como uma nuvem cinza distante, pairando sobre a profissão de jornalista. O “formador de opinião” teria que trabalhar muito mais. Ele passaria a ser um funcionário público sim.

Por isso tudo, me espanta que, nos dias atuais, em que o Relacionamento com o leitor tenha se tornado uma commoditie, um diferencial importantíssimo, haja um frisson quando um profissional usa o obituário de uma assistente social para fazer uma piadinha. Com este gesto, o profissional demonstrou indiferença com a família da pessoa abordada no obituário, indiferença para com os amigos, indiferença para com qualquer outra pessoa que já tenha publicado o obituário de um ente querido na Folha. Em suma: em vez de agir como funcionário público, deu uma de justiceiro solitário e depois virou herói para os amigos — às custas da exposição de um ato inconsequente.

Neste novo cenário, este ativismo sem resultados, esta “coragem de sofá” só terá lugar mesmo em projetos mais mambembes ou apoiados por quem tenha como missão, visão e valores a luta pela desmoralização dos veículos de imprensa. Sobre estes últimos, prefiro não falar.

Afinal, também sou “funcionário público”.