SETE ERROS DE UMA CRISE DE COMUNICAÇÃO

Sei que não estarei sozinho nessa: é uma tarefa atraente analisar os aspectos do gerenciamento de comunicação da crise vivida pelo pré-candidato do PMDB à Prefeitura, Pedro Paulo Carvalho. E mais atraente para os milhões de especialistas que não estão sob a pressão monumental do gestor desta crise — que, adianto, não sei quem é. Mas não gostaria de estar no lugar dele, a não ser talvez pelo holerite.

Na quinta-feira, Pedro Paulo e a ex-mulher deram uma entrevista coletiva. Como a leitura por tópicos acaba sendo menos cansativa, vamos a eles: os Sete Erros da Gestão da Crise Pedro Paulo. Prontos? Sigamos juntos:

1- PRESENÇA DA EX-MULHER. Não existe quem me convença de que a presença de Alexandra na coletiva era necessária. Porque para o público comum — o não-jornalista — ela era vítima. Tentou-se passar a imagem de uma mulher forte, que superou os episódios, que agora está tudo bem, etc etc. Mas é a vítima. No mesmo dia em que se divulgou uma noite de Natal em que ela era surrada e xingada na frente da filha de dois anos, o gestor da crise a colocou diante de toda a mídia nacional. Ora, isto é no mínimo constrangedor. Quis-se passar o valor da Transparência. Mas às vezes, gente, transparência mostra coisas que não precisam ser mostradas. Coloquem vasos sanitários de acrílico e teremos transparência. Desnecessária.

Uma vítima não tem que ser exposta NUNCA. E ela será sempre vítima, por mais que se façam os esforços de posicioná-la como uma “vencedora”.

2- ARGUMENTAÇÃO “QUEM NUNCA”. Uma entrevista coletiva que faz as redes sociais explodirem em lembranças do goleiro Bruno. Creio que esta frase é suficiente e nem precisaria desenvolver mais. Só que acho necessário: o candidato deveria ter sido orientado a se apresentar sozinho, ao lado da ATUAL mulher (ou da mãe, ou da irmã, enfim, de qualquer mulher menos a ex) e obter endosso. Mas sem diminuir seus atos e sem querer atribuí-los a outras pessoas. Quem nunca? Adivinhe o que aconteceu: foi criada, por jornalistas a hashtag #EuNunca. Claro, gente. Eu nunca. Nunca.

3- LINGUAGEM CORPORAL. Outra desvantagem da entrevista lado a lado do ex-casal foi esta: diversas imagens em que Pedro Paulo aparece falando e Alexandra de cabeça baixa. TOTALMENTE EVITÁVEL. Lembre-se: a história nos sites de VEJA e de ÉPOCA estava sendo lida e comentada por milhões de pessoas. A imagem formada era desastrosa. A de uma mulher vítima, oprimida, que apanhou num Natal e se manteve em silêncio por anos. Qualquer imagem formada pelos dois seria obviamente ruim!

4- SUBESTIMAR REPÓRTERES. Um bom gestor de comunicação é como o advogado de um homicida: deve dizer ao seu cliente para confiar sua vida nele e confessar absolutamente tudo. “Se você for culpado, só te tornarei inocente se eu tiver certeza disso”, é o mantra. Ministrei palestras para a Polícia Militar do Rio de Janeiro e uma para alunos da Academia de Polícia Civil. Para os dois públicos eu disse a mesma coisa, que gerenciar crise se baseia em duas frases frequentes de Jack Bauer, vivido por Kiefer Sutherland na série 24 Horas: “Esta pode ser a nossa melhor chance” e “Temos de supor que eles têm a bomba”. Sim, é preciso avaliar qual a melhor chance, mas sempre supondo que o adversário terá a bomba nas mãos. Não se subestima repórteres. Ao fazer cara de paisagem para o segundo — e a meu ver, o mais desastroso — registro de agressão (que na verdade foi o primeiro, já que é de 2008), o candidato acreditou que não vazaria. Ora, ele está disputando uma eleição, ou melhor, uma pré-eleição. Dados protegidos cedem, sim, é claro. Ainda mais na era da informatização — um simples nome digitado e se encontra um mundo. Como acreditou que não seria descoberto? A melhor medida teria sido abrir tudo na primeira entrevista e explicar ao público, que teve um casamento conturbado. Desastroso. Que agiu errado. Que foi um idiota. Que perdeu a mulher de sua vida. Que aprendeu com o desastre. Que deixou de ser uma criança grande. Que amadureceu. Mas que bateu duas vezes, sim.

Ao negar a primeira denúncia e depois ter que recuar, perdeu muitos pontos. Quando nega e ainda omite que teve mais vezes, perde quase que o campeonato inteiro. Fica abaixo do Vasco na tabela. Tudo porque ele não supôs que o “inimigo” tinha a bomba. Tudo porque subestimou repórteres — e isso é um erro fatal. Não existe repórter otário. Nasce morto.

5 — A VIAGEM. Sim, se a pessoa mora em São Paulo, fazê-la viajar às pressas para o Rio a fim de participar da coletiva causou a impressão de Desespero. E no mais, foi um prato cheio para quem quer torpedear o nome de Pedro Paulo junto ao público feminista (na quinzena do #PrimeiroAssedio lembre-se): mostrou submissão da mulher diante de um casamento frustrado.

6- A MENÇÃO À LEI. Todas as menções à Lei Maria da Penha, que é CLÁUSULA PÉTREA no momento em que vivemos (sim, todos concordam com ela, todos concordam com o conceito de que é uma evolução) foram no sentido de dizer que não se aplica ao caso. Ora, neste caso é repetir que se cometeu um grande erro, e sim, é réu primário, tem direito a julgamento, à retirada de queixa da ex-mulher, etc etc, contar tudo isso. Mas NUNCA dizer que está “fora da Lei Maria da Penha”. Se duas surras não estão, o que estará?

7- A MENÇÃO À TRAIÇÃO. Não importa se foi uma mulher que parece um travesti. O ideal era ter esclarecido logo. Não é possível que eles, os gestores, não tivessem conseguido cópia do registro. Está lá escrito. Até eu já li o trecho. Só que resolveram preparar Alexandra pra dizer que “se enganou”. Ora, se enganou em 2010 e só reparou isso em 2015? Muito ruim. Mais uma vez: o ideal era ter obtido o registro logo de primeira, e esclarecer que era uma mulher e que a mesma foi confundida (se era travesti, não tem importância, o jogador que decidiu a última Copa conquistada pelo Brasil também teve episódio com travestis).

O problema é que na comunicação de crise há ruído, e muita informação que se cruza mal — e é difícil definir o que é foro íntimo ou não. Uma crise conjugal é. Uma surra, não. Uma traição, pode até ser. Mas é preciso escolher o caminho. Mais uma vez: mostre o arrependimento. Mostre a família atual, pois você precisa defendê-la agora, mais do que nunca! Mostre que tem uma esposa HOJE e que ela te respeita e você a respeita! Mas não faça isso com sua ex-mulher.

Nessas horas vale lembrar o caso de um eterno QUASE-presidente dos EUA, o senador democrata Gary Hart, que se envolveu em um caso com a ex-miss e modelo Donna Rice na décade de 1980. Como todo candidato ao Executivo, Hart se mostrava um cara de família, até que foi fotografado com Donna em seu colo. E para piorar, Hart ainda vestia uma camiseta com o texto “MONKEY BUSINESS”, que numa tradução livre poderia ser traduzido como “PUTARIA”.

Gary Hart com Donna Rice no colo

Hart fez de tudo para sobreviver ao tiroteio da Opinião Pública. Mas não conseguiu. Porque a exemplo do que fez Pedro Paulo três décadas depois, tentou diminuir o episódio, reforçando o casamento como algo maior. Piorou, porque colocou Donna, uma mulher com jeito de pessoa comum, no papel de prostituta, de “passatempo”. Hart foi minguando aos poucos, mesmo sendo uma promessa de político nos Estados Unidos da era Reagan. Hart, ao reforçar como “maior” um casamento que a fotografia já mostrava como destruído, subestimou o que sentem milhares de esposas que não querem tolerar escapadinhas ou surrinhas em prol de uma união estável e que começou de forma apaixonada. O que deveria ter feito Hart? Não sei. Mas em todas as alternativas, vejo a expressão “pedido de perdão” presente.

Talvez Pedro Paulo se salve se pedir perdão. Mas agora, confesso, como ex-gestor de crise que sou, que não sei mais a quem ele pediria. Talvez à própria esposa atual.

Mas com certeza, a todas as eleitoras, sim. E torcer para o tempo passar.