Sobrevivência

Antes de mais nada, preciso deixar claro que esta é uma análise totalmente despretensiosa e opinativa sobre o momento pelo qual passamos há alguns anos nas redações de jornais. Há dezenas de jornalistas mais experientes do que eu, inclusive em cargos de gestão, que poderiam fazer pareceres mais profundos. O que pretendo apenas é abrir algumas abas no debate, com vistas a pensar basicamente na resposta para a seguinte pergunta: como sobreviver com o diploma de Jornalismo nas mãos?

Na semana passada vivemos mais um entre diversos dias trágicos para a profissão, com a demissão de profissionais top de linha do jornal O DIA, do Rio de Janeiro. O que é assustador é que nesta e em outras demissões têm sido descartados exatamente isso: profissionais que estavam no topo da pirâmide do mercado — repórteres investigativos premiados, gestores, bons chefes. Cortes como estes, claro, vão influenciar na qualidade do produto futuro, a menos que se tome — como espero — providências.

O DIA sempre foi um jornal essencialmente de bancas. Claro que de uns anos para cá criou assinaturas, mas este hábito de consumir O DIA não parece ter superado o velho e bom “gargarejo” nas bancas. Os jornais dirigidos à classe C tinham este foco. Nunca se pagaram em bancas, diga-se, e sim em anúncios. Aliás, não muito diferente dos outros.

Mas vamos nos deter na relação entre consumidor e produto. Sim, vamos acabar caindo naquele ramerrame de “o digital vai acabar com o papel”. Mas o que penso cada vez mais é: o digital JÁ ACABOU com o papel.
Sim, é uma conclusão triste, a minha, contra a qual eu sempre usei o velho recurso da negação. Como diz Ricky Fitts (sim, peguei o nome no IMDB) em “Beleza Americana”, um dos meus favoritos: “Nunca subestime o poder da negação”. Para mim, “o papel não acabaria porque sempre vai se querer ler no banheiro” ou “jornal de papel é hábito muito consolidado”.

Outro dia, num encontro com dez alunos de Comunicação Social da PUC, perguntamos a eles: “Quem hoje aqui abriu o jornal de papel?”. Ninguém tinha sequer visto um. Nada. Zero. Mas todos eles tinham acessado redes sociais e visto notícias. Quem “indexava” as notícias que interessavam eram os amigos, ao compartilhar de sites.
Todo aquele nobre, nobilíssimo trabalho do editor, do fechador de páginas (royalties para Amauri Mello), de selecionar para o alto a notícia mais importante, de selecionar entre 100 notícias o que era relevante para o leitor, estava ali sendo feito por…jovens de 18 ou 19 anos amigos daqueles estudantes. Eu como editor poderia não ter a menor ideia de quem fosse Taylor Swift, editaria minha página tranquilamente com o reajuste do IPTU no alto, mas aquele grupo de jovens leria primeiro — nas redes deles, via Papel Pop ou Unilad — a treta entre Nikki Minaj e a já citada Taylor.

Antes de nos rebelarmos e, tal como velhos no boteco vendo a bunduda passar com um garotão meio Cristiano Ronaldo, reclamarmos “dessas nossas gerações”, vale refletirmos sobre…o custo da operação.
O que faz com que jornais tenham uma operação cara demais? Por favor, citarei apenas o que testemunhei, ok?

1- A impressão — depender dos custos do papel, das oscilações desde custo, da compra de bobinas caríssimas, é cada vez mais sufocante para uma empresa.
2- A distribuição — fazer chegar o papel até seu consumidor final é extremamente dispendioso. Tanto com a gestão das assinaturas quanto com os repartes para as bancas, o recolhimento de encalhes, etc. Fora o pagamento de adicionais noturnos para os profissionais que trabalham tanto na impressão quanto na distribuição.
3- A redação — é uma tradição brasileira que a diferença entre o jornalista mais bem pago e o menos bem pago seja muito grande. No Jornal do Brasil do fim da década de 1990, já com o Plano Real, o custo mensal com o “aquário” (os jornalistas que comandam a redação) ultrapassava os R$ 60 mil (numa estimativa modesta da minha parte)
4- Fotografia — o departamento de fotografia de O DIA, só com profissionais top de linha, dos melhores fotógrafos do país, foi quase extinto. Quando digo que é “caro” ter um departamento de fotografia tão top, não quero dizer de forma alguma que eles não valiam o investimento. Claro que valiam. Na verdade, certamente valiam mais do que recebiam. A questão é: para as os gestores das empresas, pessoas que querem R.O.I. eficiente, é difícil convencer que um Samsung S6 ou um Iphone6 ou mesmo uma digital de 16 megapixels com um repórter não basta. E historicamente tem sido assim, com honrosas exceções. Mas em uma empresa em crise, como O DIA, seria realmente difícil impedir essa decisão que, a meu ver, é absurda.
5- A carga tributária — imagine uma empresa que vende um produto feito de papel, de madrugada, que precisa ser transportado a centenas de pontos de venda em pouquíssimas horas e que ainda enfrenta uma violenta tributação, inclusive trabalhista? O negócio passa a ficar ainda mais difícil de se pagar.

Bom, e agora que vimos que esta operação é realmente cara, e o nosso consumidor, como se comporta? Quando ao consumidor de O DIA, este é muito tradicional e consolidado — é o servidor público, o morador do subúrbio carioca, da Baixada Fluminense e da região metropolitana de Niterói. Tem professores, policiais civis e militares e aposentados neste meio. Mas a impressão que eu tive nos dois últimos anos é que o jornal da saudosa Rua do Riachuelo acabou se desconectando deste público. Claro que é apenas uma impressão e eu precisaria ter números em mãos para confirmar isso.
As redes sociais, no entanto, são implacáveis quando nós criamos um público consolidado. Porque basta uma oscilação neste relacionamento para que, via redes sociais, este público busque outras fontes de informação, que considerem:

a) Velocidade — o professor saber NAQUELE MINUTO e não no dia seguinte que há conflito e greve na UERJ
b) Interação — o professor perguntar a um gestor de página o que está acontecendo e alguém lhe responde
c) Compartilhamento — o professor, público consolidado, poder COMPARTILHAR a informação de que o pau come na UERJ

São três pontos em que os veículos tradicionais já investiram, eu sei. Mas estes três hábitos de consumo fazem com que o tempo diário do velho leitor de jornal seja mais empregado…no Facebook. “Eu na verdade gosto quando copiam e colam a matéria ali nos comments mesmo para eu poder ler”, me diz uma estudante da PUC que estava no encontro supracitado.

A internet, sabemos, é um gigantesco oceano vermelho e para as empresas de mídia não existe esse IFTTT (“If This Then That”), que é simplesmente sair do papel e ir pro digital. O risco da irrelevância é monumental. O papel, é claro, precisa perseverar por algum tempo, convivendo com o digital com a velha e boa Sinergia, uma palavra que nos anos 90 era palavrão e hoje virou palavrinha. Mas a chave é Relacionamento.

No Rio de Janeiro, o jornal Extra, por exemplo, saiu na frente e se tornou o primeiro no Brasil a ter um canal de WhatsApp. Mantém cadastro, tem relacionamento fixo, memória da interação com o leitor e principalmente, valorização da informação que o leitor envia. No Facebook e no Twitter, o jornal carioca tem mais do que seguidores — tem fãs. A interatividade é total. Ou seja: está fazendo a transição. Para usar uma metáfora clara, você vai morar em duas casas ao mesmo tempo, mas vai ser casado com uma mulher apenas, não duas. Vai manter a fidelidade ao seu público, e o relacionamento, pois é este relacionamento que vai “carregar” a sua marca.

E por que isto? Ora, por causa dessa equação Custo da Operação — Hábito de consumo da informação. Esta conta precisa fechar. O que as empresas de mídia fizeram este ano, em linguagem fria e calculista, foi diminuir o custo da operação. Mas além de investir nesta redução — dolorosa, para a profissão de jornalista — já abriram os olhos também para o hábito novo de consumo, e que incrivelmente tem uma operação menos custosa: perfis, sites, redes. Um investimento no alcance dos posts no Facebook custa muito menos do que um dia de impressão de um grande jornal brasileiro. A publicidade começa a acreditar na capacidade que a distribuição online tem de provocar a venda na hora — ou quem vende mais? A loja de tênis que anuncia no papel impresso ou a NetShoes com o banner da promoção relâmpago?

Os tais “novos meios” (e aí vamos ter que voltar ao clássico do Chris Anderson, “A cauda longa”) baratearam o que era, sempre, na economia, muito caro: estoque, distribuição, publicidade, venda. Há, claro, muito canto de sereia, muito deslumbramento, mas o exemplo que citei da NetShoes não é desprezível de forma alguma. No que tange aos transportes urbanos, a mesma coisa, com o Uber e os aplicativos eficientes de táxi. Segue com a comida a domicílio. Os descontos de restaurante. A venda de livros digitais (você vê, sente vontade de ler e compra na hora).
A mudança no acesso do consumidor ao produto (velocidade, interação, feedback, mais possibilidade) afetou as relações comerciais de forma quase geral — ainda não se compra fantasia de carnaval online, é preciso ir no Saara. Mas calma. Calma que vai ter. Ou já tem e eu não sei. Ainda não se compra pipoca e cachorro-quente online. Mas a manutenção de velhas formas de varejo não mudam o todo: o estoque on-demand, o alcance maior com menor custo, tudo isto já está mudando a forma de consumir.
Como, meu Deus, eu pergunto, como a gente, de jornalismo, pensou que não seria afetado? Achamos que seria só uma marolinha?
Se você chegou até aqui, se aguentou todo este desespero, anime-se: me despeço dizendo que os jornalistas terão que fazer uma coisa simplesmente maravilhosa, e que ninguém jamais deveria parar de fazer.

Não, não é sexo.

É estudar.

E depois?
Empreender. Sobreviver. E vencer, sim, pois vencer é a única coisa que ainda nos resta.
Boa sorte a todos os fantásticos profissionais de O DIA que estavam e aos que ainda estão naquela redação.