#5 — Maletta pela manhã

GROOOOOAAARRR!

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GROOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOARR!

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Surpreendi-me tentando localizar a origem do violento rugido da natureza, e veja só: encontro uma nota de cinquenta reais em seu bolso! Uma onça-pintada feroz da melhor estirpe da Casa da Moeda, cuja espécie está em extinção tanto no ecossistema do pantanal quanto em minha carteira. A fera desejava pular e correr para fora do bolso imediatamente, não importa para onde. Gaste-me! Gaste-me! Gritaria se pudesse, mas na sua situação atual só podia rosnar e rugir.


Não tinha dúvidas de que aquela onça preferiria pular para o bolso de traficantes e devorar-lhes as garças e os micos-leões dourados que lá viviam. Preferiria pular sob o decote maravilhosamente recheado de silicone de uma dançarina má — afamada. Preferiria pendurar-se sob o fino elástico de sua tanga comestível rosa, marcando uma pele artificialmente bronzeada e besuntada em cremes de beleza e lá brincar até ser gasta em finas carreiras de neve colombiana, como é natural do sistema selvagem capitalista, na Skorpius ou New Sagitarius.

Como é estranho que um animal arisco e selvagem tenha rosnado logo naquele ambiente monótono e esquecido que representava o sebo de livros do Maletta. Talvez tenha se confundido ou rosnado por vil traição de seus instintos, tão estranho quanto ela rosnar lá era o próprio fato de rosnar em um sebo.

Eram leituras bem datadas que lá eram comercializadas, expostas sem a menor intenção de agradar os visitantes. Naquele momento, por total força do acaso, lia uma matéria qualquer de uma revista qualquer essas de donas de casa dos anos oitenta e de repente a onça, que já deveria estar espreitando no bolso de minha calça há semanas, manifesta-se faminta e planejando devorar-me caso não a gastasse imediatamente, e fecho com violência a página marcada.

Tudo lá dentro era ensebado; os livros, as revistas e as traças que devoravam os livros e estavam igualmente ensebadas, tal como o vendedor e proprietário, homem de sessenta e poucos anos e típico alfarrabista. Como a maioria dos proprietários dos sebos locais — talvez todos da mesma família — o senhor carrega um forte sotaque nordestino. Infelizmente não consigo definir a origem do sotaque, mas gosto de pensar que tenho essa habilidade e adivinho que ele vem de uma Paraíba mental, que só existe em minha mente.

Era aquele tipo de sujeito que tocava a loja por puro prazer de leitura, sem visar lucros nem desfazer-se de seus preciosos objetos. Na verdade o idoso gastava muito mais na aquisição de novos livros velhos que ganhava na venda dos que já possuía. E por isso mesmo detestava clientes, inclusive aquele que chegou agora. Queria continuar a ler outro livro de sua imensa coleção, mas é obrigado a perguntar, como manda a educação:

“Posso ajudá-lo, rapaz?”

É claro que não, esse velho que entende muito de livros ensebados, mas não entende nada de onças. Mas é melhor responder com o banal, como manda a educação:

“Não, na verdade não procuro nada em particular.”

E escuta o já habitual…

“Fique à vontade.”

De vinte em vinte segundos ele me olhava, por detrás daquele livro-escudo, logo o ~Fique à Vontade~ era uma força irônica da expressão.

“Você tem um livro X?”

“Não!”

Velho safo! Disse isso sem sequer levantar da cadeira! Quer me convencer que em um sebo com mais de 500 livros, ele vai saber que não tem meu livro. Resolvo fazer um teste e perguntar por um autor obscuro, digamos assim… Y.

“Esse também não tem.”

É sério? Tenho vontade de interpelar o velho, mostrando sua má vontade quando ele comenta:

“Mas se você estiver interessado, chegaram esses aqui.”, Diz ele apontando para uma dúzia de “50 Tons de Cinza” empilhados. Cinquenta Tons de Cinza? Sério? Cinquenta-tons-de-apodreça- você-e-seus-livros-senhor-retrógrado-que-não-se-dá-nem-ao-trabalho-de-procurar-um-livrozinho-raro-e-está-perdendo-espaço-para-os-sites-de-vendas-virtuais..

Gostaria que o vendedor de suplementos do Mercado Central vendesse livros no sebo e vice-e-versa. Mas provavelmente agora teria gasto minha onça num livro de sadomasoquismo com gosto de chantilly para mocinhas.

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