#6 — Maletta noturno

Existe um período probatório, uma espécie de purgatório que todos os aspirantes a fotógrafos, dj’s, estudantes de gastronomia, tatuadores, barbeiros rockabilly, aspirantes a cineastas, antropólogos urbanos e fashionistas devem passar: trabalhar nos bares descolados do Maletta. É uma espécie de negociata, um pacto com o demônio descoladíssimo da (Mary in) Hell que te oferece sair da mediocridade contemporânea de ter que trabalhar de pejotinha em uma agência ou como bancário, ou com o seu pai em algum ponto da hierarquia da Cemig, para poder expressar toda a sua indievidualidade de indievíduo cosmopolita urbano.


O problema é que existe todo um rígido código de moral sobre quais roupas usar e quais tatuagens usar e quais produtos consumir, para não ficar cambaleando entre os limites aceitos da auto-ironia e do kitsch patético do desejo por aceitação. Se você jogar com as regras, pode conseguir se perder facilmente no exército indievidual.

Neste contexto, é muito difícil talvez encontrar com o novo Milton Nascimento e o novo Lô Borges, que frequentavam aqueles corredores com paredes engorduradas pelo vapor da dobradinha preparada no almoço. Mas certamente é possível, e com efeito, encontrar com o cara ou a mina que irão fazer o line-up do open do Coachella 2020. Ou quem sabe esbarrar com o dono de uma festa badalada. E que fenômeno é esse de se possuir uma festa; apresentar em carteira de trabalho o título de “proprietário de evento recreativo” e como não ser o filho desse sujeito e não matar todos os coleguinhas da escola de inveja ao saber que seu pai administra eventos singulares de diversão?

Você pode encontrá-los comendo sanduíches de bacon, sorvete de bacon e se limpando com guardanapos de bacon, ou quem sabe tomando drinks de nomes espirituosos no Arcangello. Ou quem sabe, a exemplo do Fernando Sabino, esperando as garrafas morcegais caírem em sua cabeça na Cantina do Lucas. Ou tentar ir nos banheiros do prédio, com mais burocracia para se cagar desde que a NASA colocou um banheiro na Estação Espacial.

Se você for ao prédio erguido pela iniciativa do senhor Arcangello Maletta, deixe sua mediocridade do lado de fora — e experimente novíssimas formas tão século XXI de mediocridade.

One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.