O Museu

Olavo era um homem mais próximo do fim da vida do que do início, isso era certo de se dizer seguindo uma linha lógica de raciocínio, que o próprio Olavo não teimaria em seguir, como homem das ciências que se orgulhava em ser.

Seus hábitos eram antigos como sua idade e seu local de trabalho era tão antigo quantos seus hábitos. Há 36 anos, taxidermista oficial do Museu de História Natural da pequena cidade que costumava ser histórica. Costumava até alguns dirigentes perceberem que ninguém mais queria ouvir as histórias da cidade histórica. Era preciso trazer novidades e elas vieram. Prédios tombados foram tombando e virando shoppings, restaurantes, boates, supermercados, pousadas, centros gastronômicos, cinemas com telas gigantes e casas de shows cada vez mais badaladas. Diziam os dirigentes que as pessoas de hoje querem fazer o que fazem nas cidades grandes com o clima que só as cidades pequenas tem. Olavo não entendia, mas não se importava.

O Museu de História Natural da cidade pequena ficava entre um novo shopping center e um novo restaurante badalado, de um chefe famoso que tinha programa na TV, segundo Olavo ouviu de algum dirigente certa vez.

No caminho da casa para o trabalho, Olavo via cada vez menos rostos conhecidos e mais forasteiros, de todas as idades, dando mais vida para a cidade. Olavo não sabia se gostava de ver sua cidade ter tanta vida nova assim, mas em seu trabalho, era o que fazia como taxidermista. Ele cuidava de dar uma nova vida a animais mortos. Ou pelo menos a aparência mais viva possível. E era bom, incrivelmente bom nisso. O valor profissional de Olavo era tão reconhecido quanto o valor histórico da cidade pequena, mas esse reconhecimento caíra muito para ambos. Os animais que Olavo tinha maestria manter para sempre vivos ao olhar, iam recebendo cada vez menos atenção do público. Pássaros, onças, um elefante, peixes da mais variada gama pareciam viver a morte em vão. Vez ou outra, um novo pedido chegava para que ele botasse suas habilidades em prática, cada vez mais raros, mas chegavam. Olavo trabalhava com a mesma paixão, mas sabia que era quase sempre em vão. Ninguém olhava para aqueles animais como ele. O Museu recebia crianças com frequência em passeios escolares, mas essas, cada vez mais cedo, pareciam mais embalsamadas do que os animais do Museu enquanto olhavam para seus celulares e faziam poses para si. Olavo nunca foi muito habilidoso com crianças. Era viúvo, sem filhos e sem muitos amigos. Isso não o incomodava. Gostava de seu trabalho, gostava de sua casa e só o que o incomodava era a mudança que ocorria entre esse percurso que ele fazia diariamente. Uma sensação de que ele estava sendo colocado de fora dos planos da cidade que ele ajudou a tornar histórica e que agora parecia necessitar que ele não estivesse em suas próximas páginas.

Era uma quarta-feira chuvosa quando Olavo passeava pelo Museu em um momento de ócio. Ele costumava gostar dos dias chuvosos, pois era quando os que gostavam de caminhar pelas ruas da cidade escolhiam o Museu para fazer o exercício se protegendo da chuva. Agora, essa tradição tinha sido repassada ao shopping ao lado. Olavo andava pelos animais que conhecia intimamente quando, em uma fração de segundos, toma uma espécie de susto que se sente apenas dentro da mente, sem causar um pulo ou grito. Por alguns segundos, um primata que ele saberia que não deveria estar ali, olhava fixo para a onça pintada que ele conhecia tão bem e sabia exatamente onde estava há anos. A fração de segundo, que pode ter sido até menos do que isso, logo se esclarece em sua mente. Era um menino, era um menino vivo tão estático quanto os animais que ali estavam estáticos graças ao trabalho de Olavo. A onça pintada encarava o menino, mas não podia olhar nada. O menino encarava a onça e Olavo encarava o menino. Logo, algo mudou: a onça continuou encarando o menino, mas o menino se virou para Olavo como se percebesse que estava sendo observado. Ele toma um susto, desses que são para fora e causam um pulo. O menino diz enquanto um de seus pés ainda não tocava o chão novamente “não toquei em nada!”

“Eu sei”, disse Olavo, “não precisa se assustar”. “Meu pai sempre me diz para eu não tocar em nada” responde o menino, magro como Olavo, só que menor, muitos anos menor, uma idade que a ciência e lógica de Olavo concluiriam que ele estava muito mais próximo do início do que do fim.

“Gostou da Panthera Onça?” perguntou Olavo. “Esse eu não sei qual é, só vi a onça ainda”, responde o menino. “Esse é o nome científico da onça pintada que você está vendo”, diz o cientista. “Você é professor?” “Mais ou menos, eu sou taxidermista” “Isso é quem dá aula pra taxista?” indaga o menino já recomposto do susto, mas com o olhar de curiosidade que Olavo não via ali desde que a cidade era histórica. Olavo ri, como não fazia há tempos. “Não, não dou aula a taxistas. Taxidermista é a pessoa que pega animais mortos e trabalha para que eles possam parecer vivos aí na sua frente, como essa onça pintada”. “Você então fez essa onça?” pergunta o menino com o olhar ainda mais curioso. “Eu refiz”, diz Olavo, “refiz todos os bichos que você vê por aqui”, completa. “Uau, como você faz isso? É difícil? Qual o maior que você já fez?” Eram muitas perguntas a serem respondidas, mas Olavo preferiu responder com outra pergunta. “Qual o seu nome?” “Meu nome é André, mas todo mundo me chama de Deco. Mas quando estão bravos comigo é André mesmo.”

Olavo perguntou mais coisas a Deco, estava curioso. Deco contou que tinha acabado de se mudar para a cidade pequena e que seu pai era um dos cozinheiros do restaurante chique ao lado do Museu. Olavo nunca tinha ido ao restaurante, sempre trazia sua própria comida de casa em uma marmita. As aulas de Deco começariam em uma semana, mas como o pai trabalhava muito o dia todo, passava a maior parte do tempo sozinho, pois também ainda não tinha feito amigos na cidade. Olavo então mostrou todo o Museu ao menino, contando sobre cada animal que lá estava. Deco se mostrava mais curioso sobre como Olavo tinha feito cada trabalho do que como eram os animais vivos que ali estavam representados. Fazia tempo que Olavo não falava sobre seu trabalho para ninguém. Ele nem lembrava o quanto isso lhe dava prazer. Olavo também fazia perguntas sobre Deco, que respondia animado como se também ninguém lhe fizesse muitas perguntas em sua curta vida de um garoto de 9 anos, 62 a menos do que Olavo.

Deco dizia que o que mais gostava de fazer era desenhar e ler histórias. Disse a Olavo que não gostava de ver televisão, pois nos desenhos animados já vinha tudo pronto e ele tinha só que assistir, não podia fazer mais nada, não podia imaginar nada diferente e foi no meio dessa conversa que ele fez uma pergunta um tanto absurda como são as perguntas das crianças, mas igualmente profunda, como são as perguntas das crianças:

“Por que você fica esse tempão todo só pra fazer as coisas como elas já são?” Olavo disse que esse era o trabalho dele, mas a resposta pareceu não convencer o menino. “O meu pai inventa comidas novas sempre sem olhar nenhum livro de receitas, gosto de ver ele fazendo comida porque é a única hora que ele faz bagunça que nem eu e sem reclamar.” Olavo achou graça. O menino teve que ir embora, era hora de ir pra casa, mas passou a ir todos os dias no Museu. Mesmo depois que tinham começado suas aulas, ele ia direto da escola para o restaurante do pai, onde almoçava e logo andava alguns metros da mesma calçada para encontrar Olavo em seu local de trabalho. Ele não precisava pagar ingresso para entrar. Já tinha feito alguns amigos na escola, mas esses nunca queriam visitar o Museu com ele, eram mais adeptos de ir jogar bola ou passear no shopping, onde tinham novos videogames a cada semana.

As visitas de Deco já haviam entrado na rotina de Olavo. Eles conversavam sobre diversas espécies do Museu, onde Olavo explicava como tinha feito cada trabalho. Deco queria saber, cada vez mais, como era o processo de cada bicho que via por lá, quais foram as partes mais difíceis. Olavo se animava em explicar tudo, não importa quantas perguntas o garoto lhe fazia. Em uma dessas visitas, Deco trouxe um caderno que entregou a Olavo. Ao abrir, ele viu diversos desenhos do garoto, desenhos bem feitos para alguém daquela idade. Os traços não impressionavam Olavo pela perfeição ou algo assim, mas por uma certa falta de compromisso que funcionava muito bem em cada desenho. Em cada página, havia bichos que Olavo tinha trabalhado para o Museu, mas não em uma representação normal. Deco tinha misturado diversos bichos. Havia uma onça com tronco e cabeça de um macaco ao invés da cabeça da onça . Havia um pato misturado com um gato, um peixe que não tinha cabeça, mas duas barbatanas, uma capivara que tinha duas cabeças de macaco entre outras misturas em mais de 20 páginas desenhos. “Por que fez os bichos assim misturados?” “Porque esses não existem, são novos.” “Ficaram muito bonitos, os desenhos.” “Não são desenhos apenas!” Olavo viu um olhar triunfante na resposta do menino. “O que são então?” “Um projeto! Quero que a gente faça esses bichos pra ver como ficam.” Olavo riu, mas o menino continuou sério, o que fez com que o velho taxidermista lhe respondesse de maneira mais séria também. “Não posso fazer isso, meus chefes não iriam gostar.” “Mas eu achei que você fosse o chefe. Nunca vi mais ninguém aqui com cara de que é chefe de alguma coisa.” “Meus chefes não vêm muito aqui, estão cuidando de outras coisas. Quase ninguém vem muito aqui, mas mesmo assim não poderia jamais fazer isso. Meu trabalho não é inventar animais novos, é fazer do jeito que eles já são.” “Mas qual é a graça de saber tantas coisas como você sabe se não pode inventar nada novo? Qual a graça de trabalhar fazendo só o que já existe?” Olavo poderia ter dado muitas respostas para o menino, mas de alguma forma, uma parte da pergunta pareceu grudar nele de uma forma diferente. Ele voltou a tratar o assunto com mais graça, mas tirou as esperanças de Deco de que o projeto poderia ir adiante. O garoto não pareceu ficar bravo, apenas um pouco decepcionado. Os dois então deram as voltas que estavam acostumados no Museu, mas antes de ir embora o menino pediu que Olavo ficasse com o caderno. “Você me ensinou como se faz um monte de coisas, queria que ficasse com o meu caderno pois essas são as coisas que eu fiz. Assim também te ensino como eu faço coisas.” Olavo aceitou o presente, o primeiro que ganhara em muitos anos. De noite, em sua casa, Olavo não conseguia parar de folhear o caderno que havia ganhado. Lembrava do ânimo do garoto em lhe entregar o presente com uma expectativa de algo que pudessem fazer juntos. O garoto estava errado e certo ao mesmo tempo e isso atormentava Olavo.Ele então teve uma ideia que não parecia vir dele e talvez isso tenha o animado, como descobrir um novo tipo de entusiasmo.

No dia seguinte, na hora de sempre, o menino chega e Olavo o conduz até o seu laboratório, onde nunca haviam entrado. O laboratório de Olavo tinha muitos materiais, quadros e amostras, mas fazia tempo que não havia nenhum trabalho em andamento, por isso, quase nunca passeavam por lá. Mas Olavo se lembrou de uma sala onde quase não ia, uma sala que ele não gostava tanto, pois era uma sala onde estavam coisas que não saíram como deveriam. Olavo explicou ao menino que, as vezes, alguns processos não ficavam dentro de seus padrões de excelência, apesar de parecerem perfeitos para qualquer leigo. Olavo disse que havia alguns animais ali que não estavam expostos, por isso, poderiam tentar coisas novas, desde que aquilo ficasse em segredo e apenas naquela sala. O entusiasmo do menino quase invadiu Olavo por inteiro e ele achava que bastava isso para que ele também gostasse da idéia. Pois decidiram começar pela onça com corpo de macaco, pois havia uma onça e dois macacos entre os espécimes não aproveitados por Olavo. O processo também não era o mesmo que Olavo estava tão acostumado. Havia um ritual quando um animal morto chegava para que fosse trabalhado, desde moldes de gesso para a base, retirada da pele, congelamento, colocação de olhos e línguas falsas. Agora era diferente, era mais como desmontar esse trabalho até certo ponto entre o final e a metade e começar outra coisa entre a metade e o final. O menino passou a ficar duas horas por dia assistindo e ajudando Olavo a fazer a onça-macaco, mas quando ia embora, Olavo continuava depois de seu expediente a fazer um pouco mais, para que no dia seguinte o menino pudesse assistir partes mais legais do processo, que o próprio Olavo ia improvisando aqui e ali para criar. Olavo descobriu que não era mais apenas a felicidade do menino que o alimentava. Nunca havia estado tão animado em anos. Estava realmente se divertindo com uma liberdade que a profissão nunca lhe deu.

Em 6 dias, estava pronta a onça-macaco, primeira da espécie com toda a certeza, segundo Olavo. Deco olhava para aquilo como um menino que descobrira ter superpoderes. “Eu nunca tinha visto um desenho meu virar uma coisa.” Olavo olhava para a coisa, como se fosse ainda um desenho de criança. Era isso que o emocionava. Olhou para o menino e disse: “posso dar uma opinião sobre uma coisa?” “Claro!” “As onças pintadas têm sempre manchas pretas e essas espécies de macaco tem sempre o pelo preto. Mas essa é a primeira onça-macaco, vamos colocar mais cores?” O menino ficou em êxtase. Agora a imaginação de Olavo começava a dar as mãos à de Deco e, 4 dias depois, descobriram a melhor maneira de achar uma tinta que funcionasse e fizeram diversas bolinhas coloridas na onça, enquanto o tronco de macaco ganhava um membro de cada cor. Em 10 dias, eles haviam feito algo que ninguém nunca havia feito em toda a história da pequena cidade histórica, ou qualquer outra cidade do mundo. Olavo emoldurou o desenho de Deco, já com as novas cores refeitas pelo menino e colocou ao pé da nova espécie com a frase “Onça-Macaco / Criação de Deco e Olavo”. Durante uma tarde inteira, ficaram olhando para sua obra. Em silêncio, os dois sabiam de uma coisa: iriam querer mais. Olavo disse ao menino que achava que poderiam fazer novos bichos do caderno, mas que não poderia prometer. O menino abriu o maior sorriso do mundo, pois sabia de alguma forma que Olavo iria conseguir fazer mais. Sentiam a mesma coisa e assim foi.

Olavo passou a usar seus conhecimentos e prestígios para conseguir novos animais, ou outros animais imperfeitos de outros museus. Ele se aproveitava de algumas brechas na burocracia que conhecia tão bem, mas que nunca tinha usado, para conseguir os transportes, os materiais que precisava repor e tudo mais. Durante 6 meses, a pequena sala onde estava a única onça-macaco do mundo, também passou a abrigar os únicos cachorro-gato, galinha-pato, porco-espinho-peixe, peixe de dois rabos, jacaré-javali, onça rabo-de-cobra, ovelha-cisne e, o mais ambicioso que já haviam criado: o cavalo coberto de tartarugas. A sala era grande, mas já estava apertada. Nesses meses, seu único trabalho tradicional foi para a esposa de um dos dirigentes, que pediu que ele empalhasse sua cadelinha de estimação que havia morrido, mas que viraria um enfeite na casa. Olavo achou esse trabalho mais estranho do que todos aqueles que estavam em sua sala secreta, sua e de Deco.

Mas o que parecia estranho, ficaria mais: Olavo foi convidado à casa da mulher para a festa de inauguração da cadelinha empalhada. Ela queria algo solene para dividir com as amigas e amigos a alegria de poder ter para sempre sua companheira. O trabalho de Olavo tinha ficado impecável, o que deixava tudo ainda mais bizarro. Mas na festa ele foi cumprimentado por todos pelo seu trabalho. Foi um pouco antes de ir embora que um dos dirigentes, marido da mulher, veio até ele. “Sr Olavo, que belo trabalho. Estamos muito gratos.” “Disponha, foi um prazer.” “Faz tempo que não vou ao Museu, a agenda anda muito apertada com todas essas mudanças, você pode imaginar.” “Sim, imagino.” “Bom, eu queria lhe dar uma notícia que acho que vai gostar. Ainda não há nada assinado, mas queria lhe dizer em primeira mão que o senhor poderá finalmente ter seu merecido descanso.” “Como assim? Não estou cansado.” “Não esse tipo de cansaço, mas imagino que seja chato passar o dia no Museu, que está sempre vazio. Pois conversamos com nossas redes e em breve o acervo será transferido para a capital, o Museu irá fechar. Fechar não! Irá ser comprado pelo shopping, que vai ser ampliado. A cidade está ficando melhor e você poderá se aposentar para desfrutar dela como merece!” Olavo não soube o que responder, foi para casa com um sentimento que não sabia explicar. Jamais pensou que aquele Museu iria morrer antes dele e logo agora quando ele realmente estava estava feliz por estar lá. Na semana seguinte, os dirigentes e outros homens passaram a visitar o Museu, o que batia com a hora da visita de Deco e, por isso, não puderam ir para sua sala secreta. Empresários e dirigentes já preparavam para selar o futuro daquela área e assim, Olavo percebeu que realmente o fim estava próximo.

Olavo contou a Deco, que perguntou se até mesmo a sala secreta iria virar shopping, os dois não queriam perder aquilo e Olavo ainda nem pensara em como iria fazer para sumir com aqueles animais antes que começassem as inspeções dos empresários para a futura obra. Deco dizia que queria levar tudo para casa, o que fazia Olavo melhorar um pouco o humor ao ouvir.

Um dia, no velho caminho da casa para o trabalho, Olavo vinha pensando em como seria sua vida de aposentado em uma cidade que mudou tanto enquanto ele estava dentro do Museu. Não existia no mundo cidade que ele conhecia mais e menos ao mesmo tempo. Resolveu mudar o caminho mais curto e ir passando por várias das ruas que já não frequentava. Tudo ou quase tudo era novo e percebia que realmente era uma luta perdida tentar frear o novo. Seu Museu não tinha mesmo como resistir. Em 2 meses, seria fechado para virar o novo apêndice do shopping. Seu trabalho iria para outros museus, talvez para outros museus que logo logo iriam acabar virando shopping também. Seus animais perfeitos não poderiam ser libertados, não tinham vida para serem colocados de volta à natureza caso o museu fosse um zoológico com os dias contados. Seu trabalho não iria mais fazer parte da pequena cidade histórica. A cidade que parecia o estar expulsando de lá, pois era hora do novo. Ao chegar no Museu, o dirigente já estava lá para lhe informar dos procedimentos que seriam feitos para a retirada de tudo em alguns meses e também para informar que haveria um último passeio de todas as escolas locais até lá, uma espécie de despedida das crianças com os animais. Olavo sabia que nenhuma daquelas crianças sentiria falta daqueles animais e as máquinas de fliperama do shopping eram espécies muito mais apreciadas por elas. A escola de Deco também estava incluída no passeio. O menino andava cabisbaixo há dias, pois Olavo havia dito que o mais provável a fazer seria destruir todos os novos animais da sala secreta, para evitarem problemas.

Foi na última noite antes do passeio que Olavo teve mais uma ideia que jamais teria antes. Com muito esforço, depois do expediente, tirou todos os animais da sala secreta e os colocou espalhados por todas as partes do Museu. Cada um com o respectivo desenho de Deco. Ficou exausto e feliz. Sabia que aquilo causaria uma grande confusão, mas uma confusão o daria mais sensação de vida do que a aposentadoria ou a idéia de ter que matar seus novos animais que mal tinham nascido da imaginação de um menino que lhe devolveu a alegria.

Na manha seguinte, Olavo estava na porta do Museu, depois de ter dado explicações para os poucos funcionários sobre tudo que havia feito. Todos estavam chocados e logo chegaram as turmas de escola. Incluindo a de Deco. Ao começar o passeio, professores e alunos ficaram estarrecidos. As crianças estavam em êxtase com tudo aquilo, os professores estavam divididos, nunca imaginaram aquilo. Em poucos minutos, era uma confusão generalizada no Museu. Deco ia junto com Olavo explicando aos amigos tudo o que haviam criado. A notícia ganhou a cidade com a velocidade das mudanças atuais e logo o dirigente gritava com Olavo em uma sala fechada. Aquilo era um absurdo, Olavo só podia estar maluco e, com certeza, estava acabado. “Você não tem respeito pela história da cidade”, gritava o dirigente. Olavo achava graça de ouvir aquele homem falar sobre respeito à história. Logo, depois de anos, a imprensa local foi até o Museu. A história ganhou os noticiários e o dirigente dava entrevistas dizendo o quanto estava revoltado e que Olavo já estava demitido e teria que responder pelo que fez judicialmente. Deco dava explicações a seu pai em casa, dizendo que Olavo era seu amigo e que aqueles animais eram as receitas dele, que Olavo o ajudou a fazer e que nunca havia estado tão contente. Logo, era a imprensa de todo país noticiando o que ocorrera no Museu de História Natural da pequena cidade histórica. Olavo estava trancado em sua casa recusando as centenas de ligações para entrevistas. O dirigente já se preparava para organizar a retirada dos novos animais, mas os veículos de imprensa e moradores insistiam em adiar para poder ver tudo aquilo. Logo, turistas também chegaram para ver tudo aquilo. Olavo virava uma espécie de celebridade e todos queriam conhecer os novos animais que havia criado a partir dos desenhos de Deco. O Museu virou notícia até fora do país e agora recebia centenas de pedidos de visita diariamente. Graças a tudo isso, ao invés de organizar a retirada dos animais, o dirigente teve que organizar novas visitas e preparar o espaço para receber cada vez mais pessoas. Teve também que perdoar Olavo e desfazer o contrato com o shopping. Olavo e Deco viraram celebridades.

E foi assim que Olavo entrou para a nova história da pequena cidade histórica. O Museu de História Natural realmente iria fechar, dando lugar ao Museu da Imaginação, que agora recebia novos artistas dispostos a criar novas coisas. Os novos animais ficaram, novos foram encomendados e a classe artística passou a tratar o velho taxidermista e seu pequeno parceiro como os novos expoentes da classe.

O novo venceu e Olavo estava feliz ao descobrir que se sentia muito melhor estando no time vencedor.