relação

Ele descia a rua. Ela subia. Ambos apressados, desviando de coisas e de pessoas menos apressadas até que, sem perceber, vão de encontro, um contra o outro.

Ele pensa em desviar pela esquerda enquanto ela pensa, na mesma hora, em desviar para a direita. Não se desvencilham. Ele agora tenta ir para a direita, mas ela tenta pela esquerda e a coisa se repete. Se repete tantas outras vezes, até que param e resolvem achar graça da situação. Se olham e pensam que talvez seja o destino. Mas era melhor conferir, então tentam de novo. E mais uma vez parece sempre pensarem em desviar por direções opostas, porém, por estarem em lados opostos, acabavam se bloqueando. Começaram a gostar de olhar um para o outro. O outro era o que estava na direção que caminhavam e talvez fosse o destino que tivesse feito isso, talvez fosse esse encontro a razão de cada um estar indo naquela direção. Continuaram ali enquanto as pessoas menos apressadas continuavam a passar. O tempo também passava, mas não dava pra sentir. Não precisavam de mais nada, nem do tempo. Chegaram a fazer fotos para que as outras pessoas também se entusiasmassem tanto quanto eles. Parecia tudo certo, bastava olhar para frente que havia o outro também olhando para frente. Um era o destino do outro. Mas mesmo sem sentirem, o tempo passava e com ele se conheciam melhor. Conforme a euforia daquele encontro se arrefecia, pensavam se o outro era realmente tudo aquilo que parecia quando se colocaram frente a frente pela primeira vez. Algumas vezes, um ou outro começava a ter uma pequena vontade de olhar para o lado e ver o que as outras pessoas que passavam estavam fazendo, ou para onde iam. Mas se censuravam logo depois, pois o resto não deveria importar. Mas ao olhar para frente, também começaram a pensar que talvez o destino pudesse ser justamente o que o outro privava em seu campo de visão. Não falavam sobre isso, apenas sentiam e se irritavam sem discutir. Faziam mais fotos. Quando um tentava olhar para o lado e interagir com alguém que passava, o outro censurava, sem saber o porquê, apenas por instinto, já que também era censurado quando tentava fazer o mesmo. Com o tempo, um sempre tentava se desviar para um lado e seguir, mas o outro ia na direção oposta logo depois, impedindo a ação, sem saber também o porquê. Iniciaram um balé às avessas, fazendo de tudo para impedir a passagem do outro e o outro do um. Até que se cansaram. Olhavam os outros passando e agora esses pareciam mais rápidos do que eles eram antes. Tentavam jogar olhares de socorro discretos para quem passava, mas ninguém reparava. Um passou a culpar o outro por sempre desviar para o lado errado quando o outro queria passar. Ficaram amargos e já não se olhavam. Um dia, meio que por cansaço, meio que por reflexo, cada um deu um passo para o lado. Ele para direita e ela também. Estavam finalmente livres para olhar para frente, apesar de seguirem paralelos.

Lado a lado, em direções opostas, se sentiram impelidos a dar um passo a frente, mas pareciam cansados demais para seguir. As pessoas desviavam deles como se eles fossem objetos, os outros eram velozes, não os olhavam, não interagiam. Ficaram assustados e novamente deram passos para o lado, ficando novamente frente a frente, parados e sem se olharem nos olhos. Seguros.