43. ADAM YAUCH

Adam Yauch

O texto abaixo foi publicado na edição 69, junho/2012, da Rolling Stone Brasil, no mês seguinte à morte de Adam Yauch.

Ele tinha ido tão longe, feito tantas coisas, desempenhado tantos papéis ao longo do caminho. Mas até nos últimos meses de sua vida curta demais, Adam Yauch continuou a todo vapor. Punk adolescente, brincalhão semimalicioso, atirador de ovos, baixista subestimado, o primeiro rapper branco com credibilidade do mundo, endiabrado entornador de cerveja, maconheiro, consumidor de ácido, esquiador, skatista e praticante de snowboard, budista, feminista, ativista pelo Tibete, amigo do Dalai Lama; diretor de videoclipes e documentários, distribuidor de filmes independentes, vegano, marido, pai – ele era tudo isso. “Se houvesse uma palavra para descrever o Adam, seria ‘evoluído’”, diz Matthew Allison, um dos amigos mais antigos. “Ele sempre levou as coisas mais longe, a um nível que nunca se esperava.”

Poderia ter sido suficiente ser apenas “MCA”, o mais determinado e musicalmente proficiente rapper do Beastie Boys – o trio de Nova York que alterou o curso da música popular e definiu o que era legal para uma ou duas gerações de moleques. “Yauch estava no comando”, diz o companheiro de banda Adam “Ad-Rock” Horovitz, talvez pela primeira vez. “Tinha aquela motivação a mais nele, de ver as coisas claramente.”

Sempre houve espaço para mais uma encarnação. Nos últimos anos, em meio aos tratamentos para o câncer nas glândulas salivares que se espalhou e acabou tirando a vida dele, em 4 de maio, Yauch começou a andar a cavalo. Se você está procurando uma imagem final de Adam Yauch, aqui está: magro, de barba branca, um chapéu de caubói cobrindo os cabelos grisalhos. Ele engancha suas botas nos estribos, segura as rédeas e cavalga por campos vastos, verdes e tranquilos em uma fazenda no interior do Tennessee.

A fazenda pertencia a Sheryl Crow, sobrevivente de câncer que fez uma amizade improvável com Yauch depois que ele começou a ligar pedindo conselhos sobre a doença (eles se conheceram em uma turnê de incentivo a votos nas eleições presidenciais dos Estados Unidos, em 2008). Yauch encontrou um centro de tratamento avançado em Nashville capaz de atingir geneticamente seu câncer, e perguntou a Sheryl onde poderia ficar – ela ofereceu seu próprio complexo de 62 hectares, a 45 minutos da cidade.

Sheryl tem uma lembrança vívida da primeira noite em que Adam apareceu ali, chegando de Nova York. “Eu esperava ver alguém muito fraco e pálido”, conta. “Só que ele parecia muito radiante, tão leve quanto a pessoa mais desperta que já encontrei. Teve muita esperança até o fim, acho. Sempre estava pendendo para a iluminação. Sempre esteve em linha com sua busca por serenidade, paz e compreensão. Eu amava isso nele. Aqui estava um dos Beastie Boys, e era uma das pessoas mais sábias que conheci.”

Com a esposa, Dechen, e a filha, Losel, frequentemente por perto, Yauch usou o rancho de Sheryl como um refúgio. Cozinhava pratos veganos (seu molho pesto sempre fez sucesso), levou para ela uma cópia de Country Mike’s Greatest Hits, o infame projeto country nunca lançado do Beastie Boys, brincou com os dois filhos dela e até se ofereceu para tocar baixo em seu disco de country. Em algumas de suas últimas aparições públicas, Yauch usava com orgulho um enorme chapéu de caubói.