Identificando o vitimismo

Não lembro bem a idade.

Acho que tinha uns 7 ou 8 anos. Talvez um pouco mais.

Tinha passado a tarde toda sozinho. Tinha febre.

Depois de dormir e suar muito, já estava me sentindo um pouco melhor.

Ainda um pouco debilitado, mas já estava melhor.

Queria me levantar e fazer alguma coisa. Talvez brincar um pouco.

Mas aí me dei conta de que estava quase no horário dos meus pais chegarem.

Não queria que eles me vissem bem.

Queria que quando eles chegassem, me vissem deitado, doente.

Porque assim iriam cuidar melhor de mim.

Minha mãe fazia massagem nos meus pés. Meu pai sempre trazia algo para eu comer.

Décadas depois, percebi que esse mesmo comportamento ainda era repetido por mim.

Uma espécie de apego ao vitimismo. Ao coitadismo.

Uma parte de mim que achava legal ficar doente, ou sofrer. Porque quando eu estava sofrendo, as pessoas me davam mais atenção. E eu me sentia mais especial.

No trabalho, uma parte de mim gostava de reclamar do chefe ou da diretoria.

No empreendedorismo, uma parte de mim gostava de dizer que estava difícil, que empreender não era fácil.

Nos relacionamentos, uma parte de mim gostava de dizer que é desafiador se relacionar.

No caminho do autoconhecimento, uma parte de mim gostava de entrar em processos de curas emocionais profundas.

Eu usava isso para contar minha história de superação. Usava isso para chamar a atenção. Usava isso para provar meu valor.

Mas a grande verdade é que o apego ao vitimismo não te faz mais forte. Te faz mais fraco.

Te desempodera.

Porque tudo vira uma desculpa para você não conseguir fazer o que se propõe a fazer.

É muito mais legal ir lá, fazer e realizar do que sofrer e contar como superou a dor e o sofrimento.

O vitimismo é um dos maiores males da nossa sociedade.

Uma espécie de doença invisível que pega quase todo mundo.

Fazemos isso quando justificamos o que estamos vivendo porque tem um algoz nos prejudicando. Às vezes é um chefe, o governo, o parceiro ou a parceira, o pai ou a mãe.

Tiramos o poder de nós mesmos e colocamos no outro. Naquele que nos impede de sermos quem somos.

Hoje eu não sou mais aquela criança que precisa estar doente para receber mais atenção.

As pessoas gostam mais de você quando você realiza do que quando você sofre.

Mas mais do que isso, eu gosto muito mais de mim quando eu realizo do que quando eu sofro.

Eu gosto mais da minha versão inteiro do que da versão vítima.