A Torre de Hanói

Guto Castro
Jul 24, 2017 · 10 min read
Hanói, Vietnã, 30 de maio de 2004

Amigos,

Quando eu nasci, ou um anjo torto e tonto me rogou uma praga, ou uma espécie de carma budista me foi imputado. Alguém selou em meus ossos a maldição de que, não importa onde, por quanto tempo ou em que circunstâncias eu vá viajar, eu devo ir carregando sempre muitas malas. Este é meu carma: carregar o fardo da vida em duas ou mais malas. Sempre e por todo o lugar. Que inveja desses mochileiros que conseguem viajar meses e meses com um saquinho nas costas. Eu não. Sempre duas malas, no mínimo. Isso sem contar as de mão. Até parece que eu comecei a viajar por esse mundo de Deus ontem. E, não consigo passar três dias fora de casa sem levar muita, muita coisa. Fico pensando: e seu eu precisar disso? E se eu tiver de ir a algum lugar formal? E se? Ah, esses “e ses”. Após acertar toda a viagem para o Vietnã, passagens, vistos, hotéis, a única coisa que me incomodava era olhar para aquele monte de roupa que não caberia na mala. Muitas coisas aconteceram para chegar nesse ponto. Primeiro as roupas se multiplicaram, como elas teimam em fazer em toda a vi agem, miraculosamente se multiplicaram, crescem em volume, e, mesmo quando não compramos um centímetro de pano sequer, as mesmas roupas que vieram acomodamente na mala da vinda, não

querem caber na mala da volta. São muito rebeldes. Depois, as próprias malas, acho que por causa do clima ou da pressão do avião ou ainda por alguma magia ainda desconhecida também teimam em encolher, fazendo com que pelo menos um terço daquilo que veio não caiba na volta. E, por último, o consumismo, mesmo que eu não tivesse tido a necessidade de comprar to do um guarda-roupa novo por ter engordado comendo arroz todo dia e em todas as refeições, eu já iria comprar algumas coisinhas mesmo. Enfim, mais uma mala de quinta categoria e tudo estaria resolvido. O problema fica adiado para o dia do embarque e suas taxas extras pelo excesso de bagagem.

Uma vez que teria de voltar a Bangcoc depois da viagem ao Vietnã, resolvi deixar as bagagens excedentes em um hotel perto do aeroporto. Era um hotelzinho barato, estilo um motel americano, realmente de beira de estrada. Tinha até cachorros vira-latas tailandeses no estacionamento a espera um osso ou algo parecido, um carregador fumando e olhando o tempo passar enquanto o recepcionista e gerente estavam em um canto qualquer comendo o seu macarrão matinal. Correr riscos e confiar é algo qu e temos de fazer quando viajamos sozinhos. Eu tive de correr o risco de não mais ver minhas malas e assim poder viajar para o Vietnã. Larguei toda a minha vida dos últimos meses em um local estranho e ermo em um país mais estranho ainda. Com um povo que nem de estranho posso classificar. Mas parecem confiáveis.

Paguei a taxa do aeroporto (eu ainda esgano quem inventou essa moda irritante de cobrar taxas dos viajantes que deixam o país, e sempre em dinheiro vivo). Embarquei em um avião todo roxo, com orquídeas em todo o lugar. O voô da Thai Airlines foi excelente, vazio, calmo e excelente. Ali, no meio dessa rouxidão toda, tive a mais bizarra das comidas de avião que já tive: Arroz, carne moída e ovo frito. Jamais imaginei isso como comida de avião, que normalmente são tão pomposas quanto insossas. Essa realmente estava saborosa e simples. Uma hora e quinze minutos depois, atravessando de um ponto da Indochina a outro, desembarquei em Hanói, capital do Vietnã, ao meio-dia. Um aeroporto simples e pequeno. Sem muito movimento, acho que apenas o vôo em que eu tinha vindo estava por lá. Logo de início já me interessei pelas letras e pela forma de escrever as coisas. Enquanto aguardava na fila da imigração eu fui verificar em

meu super-guia a origem de tudo isso. Até um tempo atrás eles utilizavam os caracteres chineses para escrever. Aquela caligrafia pictórica em que os de senhos

simbolizam as palavras e não os sons. Um frei português há uns três séculos, ao ver que a grande maioria dos vietnamitas eram analfabeta, principalmente pela dificuldade em aprender os símbolos, e, uma vez que a língua era tão fonética, re solveu escrever

com os alfabetos latinos, aquilo que ouvia. Pronto! Quase. Eles além dos sons latinos também possuem os tons, ou seja não basta o som do “O” ser aberto ou fechado, só um acento grave ou agudo não resolveria. Os sons também sobem, descem, mantém-se. Então alguns novos símbolos como um ponto, uma bolinha, um acento

circunflexo foram adicionados e a língua estava pronta. Algum tempo depois todos estavam sendo capazes de ler e escrever. Outra coisa é que a língua tenta ser uma língua silábica, ou seja cada palavra seria uma sílaba, o que nã o é bem verdade, mas funciona mais ou menos assim. Então escrevem sílaba por sílaba separadamente, como se fossem palavras: Viet Nam, Ha Nói, Sai Gon, Cas Tro, Em Ten De Ram?

Ao passar pela imigração Viet Cóng não esperava passar por um portal do tempo. Voltei 30 anos no passado. No caminho do aeroporto até o hotel, no centro de Hanói, passava por campos de arroz alagados, com agricultores ceifando com aquela mesma foice que

tanto víamos em bandeiras comunistas, tratores e colheitadeiras nem pensar! Bicicletas e centenas, ou melhor, milhares de lambretas cruzavam o caminho e este número só ia aumentando cada vez que nos aproximávamos do hotel. Mulheres trabalhadoras com seus chapéus cônicos estavam por todo o lugar. Se só as mulheres utilizam esse tipo de chapéu, e se só vejo esse tipo de chapéu nas colheitas de arroz, nas vendedoras de rua, nas jardineiras, nas pessoas da limpeza. Onde estarão os trabalhadores homens? Terão seguido a máxima “Trabalhadores Uni-vos” e mandado as mulheres seguirem outra como “Trabalhadoras, trabalhem por nós”.

O Meliá Hotel é um prédio moderno, em meio a tanta coisa velha e antiga. Sejamos francos, moderno e feio, em meio a tanta coisa velha e bela. Não sei como o Partido deixou que construíssem tal coisa. Eu estava sem um dồng furado. Em frente ao hotel havia um caixa eletrônico e fui sacar um dinheirinho. Ao ver as opções de saque na tela me assustei, de duzentos mil a dois milhões de dồngs (é uma letra o com circunflexo e acento grave). Saquei logo dois milhões de dồngs pois queria ser um milionário por um dia. Dezenas

de notas que não valem muito, pois um dólar aqui é igual a dezessete mil dồngs. Mal cabia no bolso da calça aquela tonelada de notas. Enquanto isso iam se juntando ao lado da ATM (máquina de saque) vendedores de tudo quanto há. Livros piratas de turismo, passeios de motocicleta, CDs, comida de tudo quanto é tipo, agenciadores de prostitutas, guias de turismo…

Ainda bem que eu tinha um guia exclusivo enviado pela agência que me acompanhava em cada passo. Era um rapaz de aparentemente uns 20 anos, mas que tinha na verdade. Um “comunistinha” bem treinado pelo partido para ser guia e mostrar as maravilhas de Hanói e do Vietnã. Pois tudo o que o Vietnã quer ser é um membro da OMC e ser uma economia atuante em todos os setores, isso sem deixar de ser comunista. O Tuan é bem reservado mas muito prestativo, muito atencioso também. Acho que o treinaram bem. Tinha também uma pick-up da Toyota com um motorista exclusivo que nos leva de um lugar ao outro tentando se livrar das motocicletas que não seguem regra de trânsito alguma.

Eu vim para o Vietnã sem saber muito da sua história.Na verdade, ao contrário do que nos ensinam, eu vou pra maioria d os lugares sem muita informação sobre o local. O mínimo e ao mesmo tempo o máximo que eu faço é comprar um guia turístico antes, ler as primeiras páginas, os resumos e pronto. Assim é melhor pois não há decepções e depois, ou muitas vezes durante o passeio eu leio no guia mais detalhes sobre os lugares mais interessantes. Sabia apenas que o Vietnã esteve em guerra com os Estados Unidos, entre si mesmo — o seu Norte contra o seu Sul, com a França e com a China há muito tempo. Tinha ouvido falar sobre alguma coisa sobre o Cambodia também. Pelo jeito eles não sabem viver sem uma boa guerra. Depois de um breve passeio pelo museu etnológico do Vietnã, fomos visitar o mausoléu de Ho Chi Minh. Ho Chi Minh é simplesmente idolatrado no Vietnã (especialmente no norte). Foi o general que comandou e arquitetou a vitória comunista contra os Estados Unidos e o mesmo que forçou a reunificação do Vietnã do Norte com o Vietnã do Sul. Eles o tratam como um santo, um imortal.

Deve ter tido sim seus motivos e razões para ser exaltado. Mas as atrocidades e torturas que fez com os seus compatriotas do sul, e com outros que se rebelavam contra o Partido jamais são contadas. e se não tivesse ido à Saigon depois de Hanoi jamais saberia disso. O Mausoléu fica onde foi a sede do Governo Francês do Norte da Indochina. Como toda construção francesa do período das colônias é um prédio amarelo, bonito e pomposo, com suas portas e janelas verdes. Aqui na Indochina tudo é assim. Só que a Catherine Deneuve não está mais aqui. Um lugar belo e agradável onde também fica uma pagoda (que nome heim?) que é o símbolo de Hanoi (a Torre de Hanoi). A torre de Hanoi é uma pagoda no meio de um laguinho, em formato de uma flor de Lótus, que é o símbolo do Vietnã, e uma flor muito importante para o budismo pois representa algo como a pureza. Toda essa região entre a Índia e a China era chamada de Indochina, incluindo aí o Cambodia, a Tailândia, o Vietnã e o Laos. As religiões mais fortes aqui, e aprovadas pelo governo, são o Budismo, o Confucionismo e o Taoismo.

Existe uma tentativa, até bem sucedida de misturar essas religiões,

mas mesmo assim cada uma tem seus templos próprios, embora as pessoas

participem de mais de uma. A grande diferença do budismo daqui com o da Tailândia é que o daqui não é tão meditativo e é muito mais supersticioso, é o budismo chinês (o zen-budismo).

Existem vários Budas aqui, enquanto na Tailândia só tem um. Os Budas aqui são freqüentemente representados por um homem gordinho. E também acreditam na reencarnação do Buda, o que para os budistas da Tailândia isso não faz sentido pois Buda já teria atingido o Nirvana e não precisa mais sofrer mais por aqui, e conseqüentemente, não precisa reencarnar novamente. Existem também vários deuses, e a superstição é grande também, mas a religião parece não fazer parte do dia-a-dia como na Tailândia. É mais alguma coisa para antes de começar o dia, o ano, o tempo de trabalho ou para depois. Não para durante. E, como também não interfere em nada que seja em relação à liberdade de pensamento, e essas coisas que são abomináveis por aqui é muito adequada. Não existe também para eles a necessidade da privacidade, as pessoas vivem em casas com três, quatro famílias (normalmente várias gerações da mesma família).

Isso também faz com que seja muito agradável para o Partido, pois é mais fácil controlar os movimentos.

Depois do templo budista, fomos ao templo Confucionista, o chamado templo da Literatura. Onde Confúcio é idolatrado. É um templo bonito, definitivamente de influência chinesa.

Confúcio como pensador é o professor por excelencia e, visto como que u

m deus da sabedoria, os pais vêm até aqui antes dos exames para pedir que Confúcio ilumine seus filhos. Depois fomos em um templo Taoista.

Já lá é uma confusão um pouco maior mas mesmo assim as divindades ainda são muitas. É tudo muito confuso na religião. Uma busca constante por um Deus que os guie, mas não sabem onde procurar, buscam nos animais, idolatrando tartarugas, elefantes, garças, dragões, cães e peixes. Buscam nos antepassados, buscam nas lendas. Buscam constantemente. E, como dizia santo Agostinho, o coração não repousa enquanto não descansar em Deus.

Uma cultura muito forte no Vietnã, e que, talvez seja o ponto mais difícil e tenha sido uma barreira das religiões cristãs, é o culto aos antepassados. Não é apenas a memória ou reverência que é feita aos antepassados. É realmente um culto, são tratados como mini-deuses. Vendem de tudo nas ruas de Hanói para que sejam cremadas como oferendas aos antepassados. Se você estiver precisando de dinheiro, compre um punhado de dólar de papel (de brinquedo), ofereça aos antepassados e os queime. Dê lhes roupas, comida, bebida e tudo o que precisarem no outro mundo, eles compram e queimam estas coisas para que os antepassados possam ficar tranqüilos e dar um jeito nas vidas dos que aqui estão.

As ruas de Hanói são limpas, mas andar nas calçadas é simplesmente impossível. Ou as calçadas são estacionamentos para as centenas de milhares de lambretas ou os vendedores estão sentados em seus banquinhos bem pequenininhos negociando. Então andamos pela rua mesmo. Pelas ruas de medicina tradicional (ervas), ruas de vendas de oferendas para serem queimadas, ruas de roupas, ruas de sedas, ruas deu tudo. O que mais m e intrigava eram as vendedoras de rua, com seus chapéus cônicos, seus lenços cobrindo a face, aquela “balança” que carregam, formada por um bastão que colocam nos ombros e penduram em cada ponta as mercadorias. Queria tirar fotos, mas todo o tempo elas escapavam. O Tuam me disse que elas são supersticiosas e têm medo de fotografia, de ficarem com o espírito preso nelas.

Andamos pelas ruas de Hanói por horas e horas até chegarmos a um teatro de marionetes. Neste teatro ao invés de utilizarem cordas como as marionetes comuns, elas ficam debaixo da água. O arroz e as plantações de arroz inundadas de água são o centro da vida vietnamita. E, durante o tempo em que não há plantação os campos estão inundados, então brincavam com fantoches que saiam da água. E assim esta cultura nasceu. Os manipuladores das marionetes ficam dentro d’água e às vezes debaixo d’água.

Hanói é assim. A capital de um país onde o povo é agricultor. São agricultores que moram na cidade, cultivam arroz, comem arroz, vendem arroz. E, quando não estão ouvindo as ordens do Partido estão sentados nas ruas comendo arroz.

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Born in Brazil, bread in the world

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