Desejos, Desejos, Desejos

A mediocridade é tudo o que eu desejo hoje.

Quem dera pudesse eu não sentir a dor que sinto por simplesmente

ouvir o que os outros não disseram.

Quem dera pudesse eu não sentir os tapas que os outros nem sequer

ensaiaram.

Quem dera pudesse eu não ouvir os escárnios e desprezos que existem

por detrás das palavras e gestos que os outros nem sequer esboçaram.

Quem me dera pudesse ser medíocre:

Ouvir somente o que foi dito. Ler somente o que foi escrito.

Concluir somente o óbvio e explícito.

Se eu pudesse não olharia o presente com os olhos vesgos que tenho,

onde um olho mira o futuro e outro teima em fitar o passado.

Se eu pudesse não ouviria nada além do que está sendo pronunciado

abertamente, faria com que as malditas sinapses não tivessem efeito e

nenhuma imagem se formasse em minha mente, associando as

palavras, tons e pausas que ouço com outras palavras, gestos,

expressões escutadas, vistos, vividos por mim no passado.

Se possível fosse eu arrancaria de mim essa dor e esse tormento.

Eu iria para um lugar onde somente a superficialidade tivesse sentido,

onde amigos seriam apenas aqueles que se encontram e falam o que os

outros querem ouvir e onde a imagem jamais se desgasta e o respeito é

o pano de fundo.

Se eu pudesse. Se eu pudesse eu não seria eu. Eu seria um outro. Eu

viveria sem me importar com os outros, sem me importar com que os

outros pensam de mim, sem me importar se eu invado, transgrido,

enojo, escandalizo, humilho ou ignoro alguém amado. Não existiria amado, querido, amigo.

Se possível fosse eu não sofreria. Se eu pudesse não padeceria, não me importaria e nem rezaria. Somente viveria mediocremente a vida.

Se eu não fosse eu, eu viveria neste mundo medíocre, de uma forma medíocre, com pretensões medíocres e relacionamentos superficiais.

Pois se eu fosse desse mundo e não um estrangeiro num mundo medíocre eu não sofreria, eu não me doer ia, eu não gritaria, eu não choraria, eu não seria. Mas, provavelmente sobreviveria.