Fora do Tempo

Janeiro 2006
Quem nunca se sentiu como se houvesse nascido em época e local errados?
Eu tenho certeza que nasci pelo menos uns 100 anos antes do programado — tudo hoje me parece lento, devagar, antigo, enfadonho. Também houve um erro no local do meu nascimento — embora tenha nascido na mais moderna e única cidade de primeiro mundo deste terceiro mundo chamado Brasil — tenho certeza que estava programado para nascer em Londres ou Nova Iorque. Mas, fazer o que?
Deus deve ter feito um outsourcing* do serviço de entrega de bebês, e entregou-o para alguma empresa da Índia onde era mais barato, e, conseqüentemente, esse tipo de erro começou a acontecer com mais freqüência. Enquanto Ele tenta fazer valer o SLA** — processando aqueles indianos com a feiúra que lhe é peculiar, com catástrofes e outras cláusulas do contrato de não cumprimento dos níveis de serviço mínimos exigidos, a gente releva e tenta viver na época e local em que foi colocado mesmo. É bem verdade que o local, algumas vezes, conseguimos até mudar — por 25 reais a passagem fica mais fácil ainda..
Conheço até gente que gostaria de estar nos anos 80 ou 70 — são aqueles alucinados que pensam que “guerra fria” foi uma desavença qualquer na Antártica e quando ouvem alguém dizer “dia seguinte” pensam em uma pílula qualquer. Outros sonham em viver dançando ao som das orquestras dos anos dourados — esquecem que o ouro não era para todos e, na época, sequer tinham 3 canais de TV, como viver sem TV a cabo? Loucos! Já conheci até pessoas que queriam ter nascido no tempo do Brasil Colônia — acham que seriam senhores de engenho, sinhás. Será que nunca leram A Escrava Isaura?
Mas, parece que uns dos maiores erros que o serviço de entrega de bebês terceirizado cometeu aconteceu na Capital Federal, mais precisamente no Lago Sul.
Azeitona tem hoje 30 anos, é um rapaz bonito, forte (usando o termo politicamente correto para não falar que é gordo), bem apessoado. Fala português direitinho, consegue construir uma frase completa e coerente, com sujeito, verbo e predicado. Não se sabe ao certo, porém Azeitona não apenas gostaria de ter nascido nos anos 60/70 mas vive naquele tempo psicologicamente falando. Fala da inauguração de Brasília como se houvesse sido ontem e, como se ele realmente estivesse presente.
De segunda à quinta-feira, dias de trajes mais formais, Azeitona até parece uma pessoa normal. Porem, às sextas-feiras tudo muda. Azeitona vem com seus óculos ray-ban, camiseta de rock, jaqueta de couro, calça jeans super-indigo-blue com a barra voltada pra fora e um tanto quanto apertada e aquela bota bico fino. Esse tal de “casual day” é algo interessante mesmo, reflete completamente a personalidade oculta dos seres trabalhadores.
Azeitona quando fala deixa escapar um eco do que motivou todo o país a apoiar a ditadura nos anos 60 — ele não suporta a insubordinação, e, classifica como insubordinação qualquer questionamento feito a um superior hierárquico. Entre seus amigos é conhecido pelo seu ardor em defender os fortes e opressores.
No campo cultural adora rock pesado e jazz-soul. “Não gosto muito dessa banda nova, como é mesmo o nome? Os Beatles! Ouço e até vejo algum valor nos rapazes de Liverpool — eles têm muito que aprender ainda, boas mesmo eram as bandas daquela época” — me disse Azeitona outro dia e eu fiquei pensando cá com meus botões — de que época ele fala?
“Mas gosto muito de Soul e Jazz também — aquelas meninas, a Nina Simone e a Ella Fitzgerald, sabem realmente colocar a alma na música né?” Finalizou Azeitona.
E Azeitona prossegue falando de Woodstock, Led Zeppelin, “aquele rapaz o Bob Dylan”, “aquela menina, a Janis Joplin”, e assim prosseguia falando dos meninos e meninos de “sua época”: The Doors, David Bowie, AC/DC, Rolling Stones…
Ano passado Azeitona contraiu núpcias, a noiva, moderninha demais, colocou na lista de presentes um CD Player. Pra desespero de Azeitona, eles ganharam o tão avançado presente. Azeitona não conseguiu negociar com a esposa onde colocar a vitrola. Agora quando quer ouvir seus LPs do Led Zeppelin e do Ozzy, Azeitona tem de pegar o carro e fugir do Sudoeste até o Lago Sul, na casa da mãe. “Única que me entende” — diz Azeitona.
Falam por aí que a única diferença entre meninos e homens seria o preço dos brinquedos. E qual seria o brinquedo preferido de um jovem dos anos 60? Azeitona não conseguiu se conter e se deu de presente uma super-moto. Ele se imagina naqueles filmes de James Dean, fumando e andando de moto, indo aos bailinhos, tomando um milk shake, dando um role, ficando parado ao lado da moto fazendo pose…
Comprou logo uma DragStar — moto grande — que pra gente que é pequenininho é um verdadeiro monstro.
O processo de compra foi complicado, o pai, a esposa, o sogro, a sogra, ninguém apoiou Azeitona na decisão. Apenas a mãe deu o parecer favorável, desde que ele não fizesse besteira de sair por aí nos meios dos ônibus nem ziguezagueando os carros. “Ah e tome cuidado com esses táxis! Eles acham que são donos da rua!” — Disse dona Olivia.
Outro dia fomos eu e o Gominho acompanhar o Azeitona para buscar a tão esperada moto. Depois de muito olhar, muito assinar, muito tudo, fomos ver os acessórios. Até o momento não havia reparado no tamanho da cabeça de Azeitona. O vendedor olhou para a cabeça de meu amigo, olhou de volta para as prateleiras de capacetes e foi logo falando:
- Infelizmente não temos capacetes do seu número aqui.
- Como não? Com tanto capacete aí? — replicou Azeitona falando de forma natural como se realmente seu coco fosse de um tamanho comum.
- É que do seu número vêm pouco e sai muito rápido — mentiu o vendedor tentando ser educado, pois sequer devia fazer pedidos desse tamanho.
Azeitona, não contente com a resposta, olhou atentamente para as prateleiras e escolheu o maior de todos os capacetes. Pegou-o com as duas mãos. Olhou-o de frente, girou-o, levantou-o e disse bem alto: Esse aqui serve!
O vendedor falou um não de forma tão contunde e colocando-se entre o capacete e o Azeitona disse: Senhor, esse não é seu número, eu lhe dou um endereço de uma loja especializada em cabeção — interrompeu a frase e continuou — digo especializada em capacetes ali no Setor de Indústrias. Lá o senhor vai encontrar.
Azeitona, ainda não satisfeito, com o capacete nas mãos, colocou-o acima da cabeça e enfiando-o de uma só vez, disse:
-Dá sim ó…
Azeitona soltou um grito de dor e falou comigo e com o Gominho:
-Minhas orelhas dobraram-se. Acho que quebraram!
Azeitona puxava o capacete pra fora e não conseguia movê-lo um milímetro sequer.
O vendedor falou baixinho:
-Mais um cabeção cabeçudo… retirando-se para o interior da loja como se já houvesse assistido a esse filme.
Deitamos o Azeitona no chão. Eu puxava o capacete por um lado e Gominho puxava as pernas do outro. Azeitona só gritava de dor. Tentávamos de todos os modos, de todas as posições possíveis e imagináveis e nada! O capacete não saia, e, para nossa preocupação a cabeça parece que inchava lá dentro.
- Vamos tentar graxa, disse Gominho. Já com um pote de graxa de motor na mão. Enfiamos graxa pelos poucos orifícios que sobraram entre o capacete e a cabeça de Azeitona. Nada adiantou. Só ficou mais difícil segurar o capacete, e sequer puxar conseguíamos agora.
Enquanto isso mais gente se aglomerava ao redor de Azeitona dando palpites:
- Subam no segundo andar, o segurem pelo capacete e deixem que a gravidade faça o resto!
- É só jogar água fria — com os cachorrinhos lá na minha quadra funciona — disse outro.
- Isso joga água fria, vou pegar um balde! — Respondeu um rapaz que havia se juntado à confusão.
- Água fria que nada — lá na minha rua é com vassourada mesmo. Disse um terceiro já com a vassoura na mão.
Começaram a discutir então qual o melhor método para separar as coisas presas. Enquanto várias idéias eram colocadas e debatidas, os olhos de Azeitona brilhavam e gritavam por socorro por detrás daquele capacete.
Um médico que estava comprando uma Harley Davison (seja lá como se escreva isso) veio e falou que só existiam duas opções:
Ou esperávamos Azeitona emagrecer ou em uma sala de cirurgia do pronto socorro do Hospital de Base alguém poderia, teoricamente, remover o capacete.
- Nem pensem em ir ao Einstein. Primeiro que não vão deixá-lo entrar em um avião assim e esse tipo de coisa só acontece com pobre e quem está acostumado com isso é o pessoal do pronto socorro do Hospital de Base.
Quando o vendedor voltou do interior da loja com um maçarico na mão Azeitona correu para o estacionamento e já entrou no carro se trancando. Agradeci ao vendedor a sua pro atividade e fomos eu, Gominho e Azeitona para o Hospital de Base. Íamos sérios, sisudos, compenetrados — nem o rádio ousei ligar. Até que Azeitona deu uma respirada mais forte e disse com uma voz ecoando de dentro do capacete:
-”Vocês já podem rirem! Podem rirem” — errando no português propositalmente, penso eu.
Eu e Gominho não nos contivemos mais. Gargalhávamos só de olhar para o Azeitona, quase batemos o carro umas três vezes por não conseguir segurar o volante de tanta dor ao rir. Tivemos de dar voltas e mais voltas nas tesourinhas do Eixo simplesmente porque não conseguia parar de rir e prestar atenção que entrada devia pegar. Fomos quase internados no Hospital de Base quando lá chegamos, pois estávamos com problema de respiração e dores no abdômen de tanto que ríamos. Enquanto isso, dentro de seu capacete, Azeitona furioso só grunhia.
Na recepção tentávamos explicar o problema, mas bastava olhar para o outro ou para o Azeitona e a gargalhada vinha. Mesmo sem explicarmos a atendente entendeu o que se passava e chamou um enfermeiro.
Azeitona foi então depositado em uma maca estreita e fina. O enfermeiro começou a levá-lo rumo a uma portinha com uma plaqueta escrita — “preparação cirúrgica”.
A porta era extremamente estreita, mal passava uma maca. Olhei para o Gominho, ele olhou pra porta, para o Azeitona deitado na maca, para a porta novamente e olhou finalmente para mim e concluiu:
- Se a cabeça passar o resto passa!
Caímos na gargalhada de novo.
Outsourcing — Processo de transferência de atividades que são normalmente realizadas dentro da empresa para uma empresa terceirizada, algumas vezes fora do país (offshore) — A Índia tem o seu crescimento da última década baseada nestas empresas.
SLA — Service Level Agreement — Contrato que a empresa que terceiriza seus serviços tem com a terceirizada para garantir um nível mínimo de serviços
