Mão na Mão, Pés no Chão

Guto Castro
Jul 23, 2017 · 5 min read

Bangcoc, Tailândia, 25 de maio de 2004

Amigos,

Acho que sempre quis ser santo, santo no mais nobre sentido da palavra, não um taumaturgo, mas alguém que vivesse com Deus. Mas tinha uma outra expectativa. Eu pensava que para ser santo era preciso morrer primeiro, ou no máximo fazer um monte de milagre em vida e ser reconhecido ainda vivo como santo pelos seus. Pois é, aqui na Tailândia a gente se sente um santo, sempre sendo venerado. E o que é melhor, nem precisei morrer, nem fazer milagre algum (pelo que eu saiba). É essa a sensação que tenho quando entro no hotel, saio de um táxi, entro em um restaurante, saio de uma loja, entro em um templo. A forma dos tailandeses se cumprimentarem, e, principalmente cumprimentarem pessoas que consideram muito, ou que tem um karma superior é sempre colocando as mãos em posição de oração, unidas, palma com palma, quase na altura do rosto. E, preparem-se, nesse momento vem a glória que só nos altares teríamos, ao se curvarem, baixando a cabeça até as mãos, quase tocado a ponta dos dedos na testa e se curvando um pouco também. É como ser saudado como um rei, como um santo enfim, alguém muito, muito especial. Isso tudo é fantástico, mas quando se torna rotina, é algo que irritante, e muito. O subserviência extrema é algo que nos mantém lá em cima (quando somos os servidos) porém o fato de sabermos que não existe razão para isso, que não somos melhores, ou talvez até sejamos piores. Isso incomoda. A única coisa é tentar lembrar que é tudo parte de uma cultura que tem suas razões e motivos, temos que ir nos inculturando. Até o Ronald McDonald já o fez. Mas, mesmo santo e reverenciado tenho de tomar alguns cuidados, pois até que eu possa ser alguma coisa, mas ainda não sou um deus e o cuidado que tenho de ter em lugares assim tão ermos e tão admiráveis devem ser extremos. É muita coisa pra pensar e prestar atenção ao mesmo tempo. Entrando em um restaurante todos os garçons, hosters, gerentes, e quem mais for me reverenciam. Ao sentar e receber o cardápio tentamos ver se existe alguma coisa que não contenha frango ou pato, pois a Gripe do Frango atinge a todos — mas se o frango está gripado o que que a coitada da Margaridinha (1) tem a ver com isso? — penso eu. E você acha que eles comem alguma coisa além de frango e pato aqui? Tem pato morto, assado, defumado, inteiro, com cabeça e pés, pendurado em tudo que é esquina! Mas eles comem outras coisas sim: frutos do mar e porco. (eu li que comem baratas no norte do país). Carne de boi? Vermelhinha, vermelhinha? Não que o budismo proíba, mas digamos que não aconselha. Enquanto vejo o cardápio — graças a Deus cheio de fotos e com alguma coisa em inglês. Enquanto folheio o livro de fotografias de comidas, minhas pernas teimam em querer sair do chão e uma cruzar sobre a outra, como fazemos o tempo todo. Mas ao menor sinal de um pé sair do chão já lhe dou uma bronca. “Aqui não, você não está em casa! Lugar do pé é no chão!”. Apontar o pé para alguém por aqui é algo inaceitável e horrível. É como rogar uma praga, desejar o mal para a pessoa, pois o pé é a pior parte do corpo e ele não deve sair de onde ele deve estar, lá embaixo, no chão. Depois de domar o pé e a perna que parece querer brincar com a situação consigo escolher algo que não tem gripe, nem resfriado. Apesar de não entender muito o que é. Só sei que é delicioso como tudo por aqui. Tudo aqui é simplesmente delicioso. Acho que até se fizerem balut por aqui deve ficar gostoso. Outro dia fui levado por um americano amigo meu que mora aqui há anos para comer a verdadeira comida tailandesa: comida de rua. Não acreditei que ele me levava em tal lugar. Logo ele que é muito mais chato e fresco do que eu! Eu somente o imitei. Ele pedia pro vendedor

um macarrão de arroz (noodle) eu pedia o mesmo. Ia pedindo como se fosse um cachorro quente em que você vai escolhendo os recheios. Lula, camarão, bolinhas de peixe, peixe, etc… Em uma bacia de plástico é servida a tal da iguaria. Parece um miojo, mas mais aguado, com um macarrão mais fino e transparente. Vem junto com uma colher e dois hashis (pauzinhos). A colher a gente usa para tomar o caldo que é simplesmente divino. E os palitinhos para comer o macarrão e pescar os demais ingredientes. Nas mesas espalhadas pela rua parcialmente iluminada, pois já passam das 20h e eles dominam as calçadas depois que o comércio fecha, em cada mesa existem 4 vidros de temperos: Um tempero salgado (não é sal mas algo parecido), um doce (açúcar), um amargo (nem me lembro o que era) e um azedo (vinagre).

Coloquei um pouquinho do “sal” e nada demais. O meu amigo me explicou que a comida tailandesa, assim como a religião e a vida deles, busca a harmonia. E deve ser misturado os 4 sabores para buscar uma harmonia no sabor. Aí está o segrego. Coloquei então um pouco de cada. À medida que colocava eu verifica o gosto, por último pus o açúcar. Ao testar, que diferença! Tudo ficou realçado, principalmente o sabor que ardia, mas não queimava. Veio queimar dois dias depois. A comida não estava estragada, mas meu corpo não está “fechado” ainda para estes temperos e uma coisa muito comum por aqui chamada “diarréia do turista” me pegou de cheio. O domingo foi um dia perdido. Posso dizer que experimentei a vida de plantinha de vaso. Pois fiquei lá, sentado a noite e a manhã toda. Mas, depois de um dia de jejum forçado, e mais um dia de semi-jejum, três quilos a menos (eba!!!! quero mais umas 5 dessas!). Estava pronto pra outra. Estou levando umas especiarias (infelizmente nada novo, pois um tal de Marco Pólo passou pelas redondezas antes e levou tudo que era novidade), e poderemos tentar qualquer dia desses. Vocês também querem experimentar um pouco da vida vegetativa? Digo meditativa. Sei-lá. Entende?

Abraços,

Carlos Augusto de Castro

Fuso Horário: (GMT+7, Brasilia+10h)

(1) Margaridinha — a 5a filha da da dona Pata, irmã da Pata, Peta, Pita e Pota. Eu lhes apresentei na história do Balut.

PS: McDonald’s na Tailândia:

http://guto.castro.fotoblog.uol.com.br/photo20040522085654.html

PS2: O Taigutonês2004 continua a todo vapor. Corra que ainda há tempo de participar.

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Born in Brazil, bread in the world

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