Motivação

Agosto de 2005

Motivação

A aula de hoje foi uma das mais simples que tive no MBA (normalmente esnobamos falando eme-bi-ei).

Tenho tido aulas com professores-doutores — alguns realmente doutos outros nem tanto, com celebridades — algumas célebres outras nem um pouco. Algumas aulas têm sido boas, outras medíocres e, infelizmente uma ou outra até que são bem ruinzinhas.

A aula não foi com nenhuma celebridade (a professora Tânia que me perdoe, mas eu que não sou do meio acadêmico, jamais havia ouvido falar dela). Mas ela tinha uma didática e empatia muito grande com os alunos, o que é quase raro encontrarmos em professores universitários.

O tema era batido e desgastado, principalmente para quem trabalha em grandes corporações: motivação. Confesso que não tinha grandes expectativas. Cansei de ouvir sobre motivação em todas as empresas que trabalhei. E, provavelmente por ter ouvido tanto e visto tão pouco, eu esperava muito pouco do que ouviria da doutora Tânia.

Ela foi falando do que acontecia nas empresas nos anos passados, da forma como as empresas organizavam-se, de como as pessoas cresciam nas instituições fui vendo refletida minha história profissional, minhas expectativas profissionais e meus questionamentos trabalhistas ao mundo corporativo de hoje. Enquanto ela discorria sobre as formas como as empresas se organizavam e como organizavam seus funcionários eu fui vendo que minha história não era só minha.

Quando entrei no mercado de trabalho, o que trazia em mente era o que eu havia aprendido da história de trabalho de meus pais, um bom emprego, em um grande banco estatal era o que precisava para crescer na vida. Mas aquela coisa do casamento eterno do funcionário com a empresa já não me seduzia. De alguma forma eu sabia que isso não mais existia. Assim mesmo arrisquei, e entrei neste casamento incestuoso empresa-funcionário. Digo incestuoso, pois a relação não é muito clara, às vezes somos parceiros, às vezes filhos e às vezes pais das empresas. A idéia de uma empresa mãe-mulher-esposa já não era tão forte pra mim, mas ainda era o desejo da maioria dos meus colegas. Vivíamos do passado — o que ouvi de “em outras épocas é que era bom”. Trabalhávamos no final dos anos oitentas com alguns resquícios — principalmente as lembranças de uma época em que “A FIRMA” era uma extensão da casa. Na realidade, o ar que pairava sobre as empresas era de fim de festa, de fim de uma era. E eu, um mero trabalhador, querendo entrar no mercado, era um filho do divórcio entre empresa e empregado — não desejado por nenhuma das partes, mas necessário para definir o poder. Era o marido traído, humilhado, ferido. As mais profundas e básicas necessidades humanas já não eram atingidas.

Ao mesmo tempo uma nova casa era construída: os cargos e planos de carreira muito bem definidos. Sabia exatamente o que tinha a fazer e até onde iam minhas responsabilidades e ações. Porém eu não me encaixava nesta forma de trabalho. Ao ver algo errado ou precisando de um reparo eu, mesmo tendo tempo e a técnica necessária, não poderia fazê-lo pois não era minha função. Fazer algo além do “job description” era um pecado imperdoável. Esta forma de trabalho também não me seduzia e mais uma vez voltei a procurar.

Trabalhar como consultor — um nome chique que dão para pessoas que se sujeitam a trabalhar sem nenhuma garantia e respeito profissional e humano também não foi muito interessante. Aos poucos ia ficando claro que, se antes já era um recurso humano, agora era apenas um recurso — descartável e não necessariamente humano — pois me escondia por uma falsa capa de empresa, de pessoa jurídica e já não precisava mais de férias, não podia mais ficar doente, casar, ter filhos, perder entes queridos. Tais atos e ausências ficam restritos aos humanos que possuem um vínculo com as empresas. Infelizmente isso não mudou muito até hoje.

Entrei então, desta forma, no mundo da competitividade, no trabalho em times, mesmo distantes uns dos outros, que entram em campo para ganhar. E, assim também trabalhei. As multinacionais traziam isso mais forte e mais claramente. Mas uma hora esta forma de trabalho também não mais me seduziria, pois o time cansa o ganhar pelo ganhar, sem que eu ganhe nada pessoalmente, sem um crescimento pessoal e individual não é atraente por muito tempo. Nós, seres mortais, estamos mais para torcedores do que para jogadores de um time.

Finalmente uma nova estrutura de trabalho começa a surgir. Infelizmente ainda está, em sua maioria, restrita às áreas de RH das empresas, às diretorias, ainda não chegaram com força total ao chão de fábrica. Mas caminha para isso — espero. A responsabilidade social começa a tornar-se essencial para as empresas, e com ela vem a responsabilidade individual. O respeito às individualidades, às diversidades, e a busca pela congruência dos objetivos pessoais com os da empresa. Tudo isso é muito belo.

O problema é que teimamos em imitar o passado. Assim como os antigos gregos criaram conceitos maravilhosos do indivíduo e do homem, como os romanos criaram estruturas jurídicas e republicanas tão perfeitas, mas tais conceitos e direitos diziam respeito apenas àqueles cidadãos gregos ou romanos com sandálias nos pés. Hoje as empresas, mundialmente, sentem-se maravilhosamente responsáveis pela vida e pela necessidade de seus funcionários. Mas apenas destes. Os “contratados” que nestas empresas trabalham continuam sem direitos mínimos, pois não são humanos, não são gente — são empresas.

Na teoria em que vivemos os anos atuais, cada vez mais pessoas, poderiam escolher se a empresa em que vão trabalhar serve para eles, e não se o trabalhador serve para a empresa. Os objetivos, os valores, as ações e a forma de atuação das empresas têm sim de estar em consonância com os valores, objetivos e ações dos funcionários, acionistas e interessados na empresa. Somos poucos no mundo capazes de realmente viver isso. Somos pouquíssimos no nosso querido Brasil a realmente viver esta etapa do mundo corporativo. Descobrir o que há de humano e de valor das empresas, verificar aquilo que nos alinha e que nos diverge e poder escolher ficar ou não no emprego é algo ainda muito distante da imensa maioria do nosso povo.

Infelizmente nosso país não vive isso, nem vive assim. Enquanto tivermos filas de desemprego, não teremos a possibilidade da escolha. Enquanto tivermos desemprego, corrupção e a maldade imperando, teremos amigos que se sujeitam a se desumanizarem e serem tratados como coisas, nós teremos empresários que fingirão ter uma ética e responsabilidade, mas que são restritas aos cidadãos de sandálias nos pés ou carteira de trabalho na mão. Enquanto o homem não for a medida das coisas e a razão de ser e o centro das empresas, não teremos empresas, países, governos que realmente façam do trabalho algo digno, não teremos no trabalho humano a vocação básica e perfeito do homem que é de continuar a obra da criação.

Com essa aula que tive descobri, ou redescobri — que o que me motiva realmente não é o salário, o cargo, o prestígio. Mas a possibilidade de ser feliz e realizado ao poder um dia ver no trabalho humano a realização do sonho divino da construção de um mundo humano, solidário e feliz.

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