Pérola do Oriente

Guto Castro
Jul 22, 2017 · 5 min read

Amigos,

Escrevo-lhes essas mal-traçadas linhas (yes! sempre quis usar esta expressão) enquanto sobrevôo o Mar da China Meridional (South China Sea), em um vôo da Philippine Airlines de Manila para Bangkok, a turbulência constante não ajuda muito e talvez fará a letra ficar meio tremida.

O avião é um apertadíssimo Boeing 737 e o vôo está simplesmente lotado. Tento ouvir um pouco de música enquanto digito estes mal-teclados caracteres (yes!, de novo!), mas o barulho das turbinas é tão alto que mal consigo escutar os acordes da Bossa Nova que aprendi a apreciar ainda mais, agora que a escutei aqui do outro lado do mundo. Ontem foi meu último dia em Manila. Uma cidade estranha, surpreendentemente estranha. Durante anos foi conhecida como a Pérola do Oriente, porém, para encontrar a pérola e toda a sua riqueza é preciso encontrar a concha que a contém e que muitas vezes está escondida debaixo de bancos de areia, de algas e corais.

Acho que fiz o contrário, encontrei primeiro a pérola e somente ontem, apenas no último dia fui na parte turística, ver o que todos vêem, ver a areia, as algas, a poluição. Combinei com o taxista do hotel e ele me pegou às 8h e fomos rumo à Intramuros.

É muito interessante ouvir eles tentarem explicar e traduzir para o inglês o significado das palavras, a maioria em espanhol que para eles é grego ou russo e para nós, que fomos amamentados com a última flor do lácio, inculta e bela, e que entendemos razoavelmente as outras floradas que antecederam o português é de certa forma cômico ouvir as explicações.

Então enquanto “aprendia” que Intramuros significava “dentro dos muros”, que Forte de SanTiago era “Forte de São Tiago”, “Ora”, “Pulisya”,”Vaso” ia olhando para os outdoores e chovia… A estação das chuvas havia chegado há uns dois dias, nada que atrapalhasse um turista acidental, mas o caótico trânsito na Epifania de los Santos Avenue (EDSA) estava pior do que nunca e pude então começar a reparar mais e mais na única coisa visível: o grande número de outdoors. Um outdoor do Citibank, outro do McDonalds, outro do novo filme do Harry Potter, mais um da Pepsi — tudo me lembrava uma única coisa: “casa”. Enquanto os minutos passavam e nós continuávamos no mesmo lugar eu ia percorrendo meu trajeto do Brasil até este outro lado do mundo. Como vim parar tão longe? E, o quanto me sentia perto de cada um. A sensação de que voltava pra casa me acalentava, enquanto paradoxalmente o fim de um tempo me apavorava. Ainda estaria no meio da viagem, mas era o fim de uma etapa, o começo de um retorno.

O serviço de bordo interrompeu o meu processo de digitação. Pensei que serviriam Balut neste vôo, mas serviram foi miojo mesmo. A gente acaba generalizando o miojo, mas na verdade aqui chamam noodles e é um macarrão bem diferente do miojo, feito de farinha de arroz às vezes misturada com trigo outras vezes só arroz. Comi apressadamente, pois queria continuar a escrever sobre meu último dia em Manila, antes que o choque com a cultura da Tailândia me fizesse esquecer o que vivi. Acho que é parte integrante do curso de formação de aeromoças e comissários serem lentos e tardos para retirarem as bandejas após o serviço de bordo. E, como demoravam muito resolvi ler um pouco. Eu quase havia comprado, ainda há pouco, o livro do Paulo Coelho. É impressionante como que, seja em Manila, Paris, Bangkok, Hong Kong, em todas as estantes dos livros mais vendidos lá está ele — o detestado Paulo Coelho. Seja O Alquimista, Verônica decide Morrer, aquele outro do Rio Pedra, eles estão sempre lá, prontos para serem comprados por um desavisado. É estranho como pode alguém ser tão famoso, vender tanto e eu não conseguir terminar de ler um livro sequer dele. Uma coisa fantástica aqui, os livros são muito baratos. Um livro como o que leio custa menos de 10 reais. Mas voltando ao assunto do livro.

Peguei então um outro que há muito tempo queria ler, “The Catcher in The Rye”, acho que em português é algo como “O Apanhador no Campo de Centeio”. E, quando já estava no terceiro capítulo, resolveram recolher as bandejas. Fiquei querendo ler e ao mesmo tempo contar-lhes o que lia, o que vivia… O livro parece ser bom, mas resolvi parar novamente e continuar a escrever.

Chegamos a intramuros. É muito interessante, do outro lado do mundo, encontramos relíquias de colônias espanholas. Uma cidade inteira cercada pelos muros que a protegiam dos invasores, e essa Manila dentro dos Muros, era uma villa española. Era como se voltasse no tempo da colônia. Tudo muito bem cuidado e muito bem mantido. Igrejas, povoado, edifícios públicos, o forte. Até parecia que estava em uma cidade mexicana ou da Califórnia há uns 400 anos.

No caminho de volta para o hotel pedi para que passássemos no “centro” de Manila. Quiapo. Uma outra cidade estava diante de mim. Um centro lotado de gente, muita, muita gente. Pessoas descalças, homens sem camisa, crianças nuas nas ruas, brincando nos esgotos e com os cachorros imundos. Lojas, camelôs, pedintes, carros, bicicletas, jeepnees. Tudo em um perfeito e assustador caos. Olhava mais atentamente nas fisionomias das pessoas ali jogadas, sem emprego, sem nada. Um comia um noodle, outro bebia uma pinga qualquer, outros simplesmente passavam tentando vender algo indecifrável. Outros tentavam dormir, em meio ao caos. Um mercado enorme surgia logo em frente e vendiam souvenirs, verduras, frutas, legumes, carne (talvez até carne de cachorro como me disseram) tudo ali. Para quem quisesse. Eu não quis. Era uma outra Manila, uma Manila pobre e miserável. Haviam me dito sobre a pobreza de lá, mas não imaginei que fosse tanta e em tão grande número. Mas, apenas uma coisa me chamou mais a atenção. Uma coisa estava lá: O Sorriso. Como estavam rindo e sorrindo. Eu me perguntava e tentava encontrar a resposta: como podem viver em tamanha miséria e ao mesmo tempo estarem tão felizes, sorrindo? E novamente o sorriso contagiante do Pinoy me fez ver aqueles pobres miseráveis com outros olhos. Os vi pobres e miseráveis, mas alegres e esperançosos.

Dali, paradoxalmente, parti para um jantar de despedida que o pessoal da HP e da Globe tinham preparado para mim. Da extrema pobreza parti para a o local mais caro de Manila, onde lojas como Louis Vuiton, Gucci, Escada, Mont Blanc encontram-se espalhadas. Talvez seja esse o maior pecado da Pérola do Oriente: Não ter sido dividida entre todos. Alguns ficaram com a pérola, outros com a concha e outros só com a areia.

Acabam de avisar que preciso desligar o computador porque o avião já está em procedimento de aterrisagem em Bangkok, Tailândia, meu próximo destino e o assunto das próximas cartas.

Com saudades,

Guto / C.A.

Intramuros:

Forte de Santiago:

http://guto.castro.fotoblog.uol.com.br/photo20040521123843.html

Catedral:

http://guto.castro.fotoblog.uol.com.br/photo20040521124025.html

Santo Domingo:

http://guto.castro.fotoblog.uol.com.br/photo20040521124622.html

Carlos Augusto de Castro

Ang

libro ay nasa

ibabaw ng

mesa.

The book is on the table.

Yeh!

Referência: Olavo Bilac — Língua Portuguesa:

http://www.releituras.com/olavobilac_lingua.asp

Written by

Born in Brazil, bread in the world

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