Paracetamol

Paracetamol, 2 cápsulas de 4 em 4 horas, no máximo 8 no período de 24 horas

Quando o médico disse que ele ficaria em casa por mais seis dias até o ciclo de vida do vírus se completar ele não conseguiu esconder o sorriso maroto. Mas logo voltou a fazer a cara de dor pois afinal ele estava doente, muito mal, mas em 30 segundos planejou tudo: Ficaria em casa naquela quarta-feira terminaria alguns capítulos do texto da Turquia, começaria a tomar os remédios, e no dia seguinte à tarde a garganta já estaria praticamente curada, talvez não o suficiente para comer pipoca com guaraná no cinema, mas o suficiente para poder ir ver os últimos filmes candidatos ao Oscar. Na sexta-feira iria escrever mais um pouco, talvez terminar o livro que nunca acabava e assistiria outro filme, no sábado descansaria um pouco pois tinha uma festa pra ir durante a noite em Shoreditch e no domingo assistiria o terceiro filme, fechando assim toda a lista dos filmes assistíveis.

Mas o maldito do médico só lhe receitou Paracetamol (Tylenol). Paracetamol é a única droga que receitam na Inglaterra. Quando estava com febre e dor de cabeça, paracetamol era a resposta. Até aí tudo bem. Paracetamol, Aspirina, Advil, Novalgina … essas drogas são pra isso mesmo. Porém quando ele estava com dor de ouvido e dor de dente paracetamol foi receitado. Problemas no estômago: paracetamol. Dor muscular, dois comprimidos de paracetamol a cada quatro horas, não mais que oito em vinte e quatro horas. Diarréia, paracetamol é a solução. Depressão, hipertensão, fadiga? Paracetamol pra tudo e pra todos.

Enquanto voltava da vendinha onde comprara uma caixa de comprimidos genéricos, pensava como seria o curso de medicina no Reino Unido. Devia começar com Introdução ao Paracetamol, História do Paracetamol e Constituição do Paracetamol, passar por vários anos fazendo Paracetamol I, Paracetamol II, Paracetamol III… até o Paracetamol X. E, entre uma matéria e outra, algo como Paracetamol para Crianças e Como Receitar Paracetamol. E os cursos de atualização que fazem todos os anos devem ser Paracetamol — Novos Usos.

Pensou em descansar um pouco antes de começar a escrever e deitou, não sem antes tomar dois comprimidos de 500mg de Paracetamol. Acordou somente de noite com as amígdalas mais grandes do que nunca, mas tão grandes que pareciam duas luvas de boxe espremendo a coitada da úvula que por sua vez também tentava empurrar uma da amígdalas pra lá.

A febre também chegou no final do dia, trinta e sete, trinta e oito, trinta e nove graus. Enquanto isso lá fora fazia quase zero grau e se preparava pra nevar, o quarto parecia uma sauna, os olhos mal queriam abrir e as mãos mal conseguiam alcançar o abajur. Arrastou-se até a sala. Tomou um copo d’água e mais um paracetamol e ligou a TV. Os delírios da febre pareciam tomar conta de tudo. A neve que caia la fora fazia todo o calor de dentro da sala parecer algo surreal. O que passava na TV era mais delirante ainda.

O Paracetamol devia ter algum efeito alucinógeno. Um comercial de duas criancinhas tirando fotos transformava-se de repente em uma louca seqûência de espasmos de sobrancelhas e no final a propaganda era de chocolate. Uma maratona de seriados antigos estava em cartaz e ele assistiu pelo menos vinte episódios de Golden Girls (aquele com quatro garotas de 60 anos dividem uma casa em Miami). No dia seguinte continuou a maratona e somente notou que já tinha assistido todos os episódios duas vezes quando começou a achar que assistia uma versão da Flórida de Sex and the City com umas mocinhas um pouco mais velhas.

No terceiro dia sob efeitos do Paracetamol começou a notar que o remédio tinha algum efeito colateral. Na TV anunciaram a última série de ER (Plantão Médico). Sim. Depois de 16 anos resolveram parar de filmar a coisa mais maravilhosa que já havia surgido na TV desde que inventaram a TV em cores. Passou o dia deprimido pensando em como seria agora as noites de quinta-feira sem um novo episódio de ER para ver. Claro que sempre tem as reprises, mas a surpresa de quem vai morrer, qual doença que vão ter, quem vai beijar quem e outras coisas assim não mais estaria ali… Empanturrou-se de chocolate e comprou pela internet todos as 15 séries já lançadas de ER. Até segunda-feira chegaria.

No dia seguinte viu que realmente só podia estar delirando, descobriu que estavam refilmando “Barrados no Baile”, ou como dizem em inglês: 90210. O original era ‘Beverly Hills, 90210’. Agora, no remake deixaram só o CEP mesmo, afinal o mundo todo já sabe que 90210 é o CEP de Beverly Hills. E o seriado já havia estreado. Os dois primeiros episódios passaram aquele dia mesmo. O mais incrível da alucinação é que o novo seriado era tão maravilhoso como o anterior. Excelentes interpretações de atores-modelos de 30 anos de idade fazendo-se passar por estudantes do ensino secundário de 15 anos. Enquanto outros atores de 30 anos fazem o papel dos pais dos adolescentes. Somando-se isso ao desfile de bolsas Prada e Gucci, alunos indo pra escola de Ferraris e Porshes, estudando em escolas com telas de cristal líquido e computadores em todas as carteiras, celulares, blackberries, ipods e iphones e comprando presentinhos na Tiffany’s. Só mesmo muito drogado pra entender.

De noite ficou deprimido de novo. Afinal para estarem refilmando as séries que assistia outro dia era sinal de que estava velho, só faltava agora refilmarem Jornada nas Estrelas e De Volta para o Futuro, pensou ele. Tomou mais duas cápsulas de paracetamol e foi dormir.

Quando viu já era segunda-feira e tinha que ir trabalhar. Ele empacotou-se todo, cachecol, luvas, gorro. Nevava fino. Londres estava bonita, toda branca, parecia cartão de Natal. A garganta ainda doía. O nariz e toda a respiração ainda bloqueada, ele tossia feito uma vaca espalhando o vírus por aí, afinal pensava ele, todos mereciam um descanso e uma boa overdose de TV e paracetamol para poder aguentar mais um ano de trabalho.