Quem Veio Primeiro, o Ovo ou a Galinha?

Manila, Filipinas, 14 de maio de 2004
Aquela velha pergunta “quem veio primeiro, o ovo ou a galinha?” tem um sentido todo diferente nas Filipinas.
A resposta filipina tenta apaziguar e acomodar a todos os gostos: “Nenhum dos dois, eles vieram juntos no balut”- dizem eles.
Pelo que pude notar eles são muito políticos, pouco politizados talvez. Estão sempre rindo é verdade, um amor de criaturas. Nunca se zangam, nunca dizem não, nunca duvidam, nunca. O sim é de importância fundamental para o ser humano. Afinal foi por um sim de nossos pais, e, mais precisamente de nossas mães que nós estamos aqui. É por um grande sim de uma mãe que tivemos a possibilidade da grandeza da vida. E, foi pelo sim de um Filho que nós herdamos o céu. Sim, o sim é muito importante para nossa existência e, talvez, quem sabe, para a o que vier depois dessa vida. Mas por mais negativo que seja o “não”, por mais irritante que seja o “talvez”, eles também têm um papel essencial em nossa existência. E não é por causa da dúvida que chegamos à certeza da fé? É por duvidar de nós mesmos que nos desafiamos a ir mais além e vencer nossos próprios limites. E, é pelo “não” que ouvimos e que prontamente aceitamos que exercitamos a paciência, a renúncia, o amor. Tudo, sem precisar fingir que o “não” era um “sim”. A falta do “não” no dia-a-dia faz com que o “sim” seja um “talvez”. E, um “talvez” nunca é um “sim” — no máximo é uma possibilidade remota de um “sim”.
Fico imaginando se dois noivos ao serem questionados diante do altar sobre a veracidade do amor entre eles, sobre a certeza e perenidade desse amor… respondessem: “Talvez”. Qual a certeza desse casamento? Em que se baseia tal promessa? Em um talvez? Que felicidade existiria aí? Se uma testemunha ao ser esconjurada a dizer a verdade somente a verdade respondesse: “Talvez eu o diga”. O que seria de todo o sistema judicial?
Assim a nossa vida está baseada em “sims” e “nãos”. A presença do “não” no dia-a-dia garante que o “sim” seja verdadeiro. Garante-nos a certeza da verdade. Se eu pudesse fazer alguma mudança aqui nas Filipinas, não mudaria muita coisa, apenas exigiria que dissessem “não” de vez em quando. A grandiosidade de coração, a enorme hospitalidade os impede de discordar uns dos outros. Mesmo entre eles. Assim, não existem discussões, não existem problemas, pensam eles. Mas na verdade não existe é solução. Os problemas continuam existindo. Quando simplesmente sorriem amavelmente e concordam com o que é dito, um grande ponto de interrogação ronda o ambiente. Pois o “sim” tem um grande sotaque de “talvez”. Acho que tudo isso tem origem na questão do ovo e da galinha. Porém como aqui eles adoram galinhas, pois a influência chinesa é muito forte e galinha e sorte são a mesma palavra em chinês, eles resolveram jogar o problema pro pato, ou melhor pra pata. Afinal, quem nasceu primeiro, o ovo ou a pata? E a resposta vem em um pequeno prato muito apreciado pelos filipinos chamado balut.
Eu me preparei para comer o tão famoso prato. Não quis comer no escritório com receio de cometer algum desacato, de ser rude com os costumes locais, nem mesmo uma gafe qualquer eu quis arriscar. Levei o ovo para o hotel, preparei o ambiente, nem tirei o barong (aqui não estou usando mais terno, uso o barong que é uma bata que vai por cima da camiseta, ela é feita de fibra de abacaxi e é bem fresquinha, propícia para o clima de 40 graus de Manila). Um ovo normal de pata. Maior um pouco que o de galinha, mais escuro talvez…
Eu já tinha me aventurado em outras coisas daqui como a “Crispy Pata” que nada mais é do que um pernil à pururuca, e o “Sisi” que é gostosinho, um pouco de carne de porco moída e frita… (descobri depois que a carne na verdade era bochecha de porco).
Mas até então eu estava muito receoso em comer o balut. Achei que uma vez que já estou pra lá da metade do meu período por aqui eu devia me inculturar um pouco mais e aceitei o desafio.
Estava então pronto, vestido como um filipino — com barong e tudo, para comer o balut.
Abri cuidadosamente o ovo, quebrando a casca e tirando pedaço por pedaço, um cheiro de incerteza, de dúvida, de “talvez”, aquele grande ponto de interrogação do “sim” filipino me veio à memória. Um cheiro azedo, podre, que foi invadindo todo o quarto do hotel. Tentei fechar os olhos na esperança que o cheiro sumisse e não entrasse pelas minhas narinas — tarde demais. Também me lembrei na hora do arroz e da carne de porco que tinha comido no almoço pois os dois resolveram vir ver o que estava fedendo tanto aqui fora. Depois que me entendi com o meu almoço — na verdade eu me desentendi com ele e o joguei pelo vaso sanitário. Resolvi tentar novamente.
Até que não era tão feio. O cheiro era muito pior. Tinha até um colorido especial, meio mesclado de marrom, amarelo, branco, cinza. Mas ao tentar partir o ovo e ver aquele patinho que mal se desenvolveu, com penas e tudo, misturado com o resto de clara e gema, cozido… não deu. O cheiro de pato cozido, misturado com ovo podre, ovo cozido, pena queimada é simplesmente insuportável.
Balut é exatamente isso, um ovo de pato (ou de pata, e, depois de hoje nem quero saber se o ovo é de pata ou de pato, eu quero mais é distância do ovo). Um ovo choco. Um pintinho leva uns 21 dias para ser chocado, acho que o patinho deve levar um pouco mais. Estes ovos “balut” são ovos que estão sendo chocados por 15 dias. E, mal estão ali, quietinhos sob o calor da senhora Pata que tenta arduamente chocar suas cinco filhinhas (a Pata, a Peta, a Pita, a Pota e a Margaridinha) vem o filipino e arranca, fazendo um tipo de aborto de pato.
Assim quando me perguntarem novamente quem nasceu antes, o ovo ou a galinha. Minha resposta será: “Não sei e sou contra o aborto de pintinhos e patinhos!”.
Um grande abraço e que o sim de vocês seja sempre sim e o não sempre não!
Com saudades,
Guto / C.A.
PS: A Pata dá o nome que quiser para suas filhinhas, se ela quis chamar de Margaridinha a última filhinha é problema dela, temos de respeitar, afinal nem sabemos se a coitadinha da foto é a Pata, a Peta, a Pita, a Pota ou a Margaridinha…
