Sobre “sair para andar o mundo” e o que pode vir a ser o “sair”.

Quase inevitável, quando vivemos uma transição na vida que nos leva a nos colocar em movimento sobre o planeta, surgem em nossas mentes (e nas mentes dos que nos cercam) histórias ideias — mitos e arquétipos a serem vividos. O andarilho, o buscador, o ermitão, o mambembe.

Quando me percebi pela primeira vez sem um endereço fixo para voltar, uma torrente de histórias lembradas e outras tantas imaginadas invadiu minha mente. Eu poderia ir para qualquer lugar mas minha mente tentava me vender versões ideais para o futuro.

O que me importaria fazer? Quilômetros a percorrer ou pessoas a conhecer? Cidades visitadas? Voltas ao mundo? Carimbos no passaporte? Comidas exóticas? Vistas incríveis? Aldeias descobertas? Textos escritos? Ondas surfadas?

“Sair para andar o mundo” era uma fase que começava de cara com uma sensação de dever. Nada menos que as grandes navegações, fotos da National Geographic, passaportes carimbados frente e verso. Parecia que só a intensidade poderia justificar o salto de fé.

Meu primeiro destino, depois do meu último endereço fixo, era a casa de um amigo na mesma cidade de onde eu partia. Poucas quadras de “casa”. De alguma maneira, na ocasião, modesto de mais. Mas uma virada de perspectiva se sucedeu assim que eu cheguei na nova morada.

Haviam ali todos os elementos da vida trivial. Os espaços da casa, as ferramentas do dia a dia, os alimentos, o teto, a água. Um desenho aparentemente monótono se comparado com o ideal vôo-de-22h-para-a-montanha-mais-alta-do-mundo. Mas como se houvesse um botão com duas fases, ou frequências diferentes, olhei novamente e “vi” como minha história a seguir seria imprevisível, intensa e surpreendentemente diferente de qualquer ideal de futuro.

Estavam na casa os anfitriões e uma trupe de viajantes-em-kombis-azuis trocando humores, sons, improvisos, poesias, presentes. Quanta diversidade, quanta arte.

Percebi, olhando as pessoas nos olhos e ouvindo com atenção, que seria em todas as minhas relações que o melhor desenho aconteceria. Que ele pode não ser o desenho do herói ou o do explorador mas pode ser o do “observador”. O observador não depende de quilómetros porque não mede. Não depende de roteiros porque cada relação é o destino. De maneira essencial, o observador não é um desenho. Por isso não pode ser copiado ou cobrado. Não pode ser tomado como referência para a viagem de ninguém. Nem pra minha. É como sair do comando e controle (do plano) e viver o sentir e reagir (do grande mistério).

E que viagem incrível é essa de me relacionar — comigo, com as trupes e com tudo, ou o todo.

Procuro não me distrair com as histórias antigas. Prefiro essa de estar aqui, morando onde escrevo esse texto. A vida tem sido uma viagem, está claro. O que seria então — “sair” para andar o mundo?

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