Filmes do Mel Gibson, ‘frescurites’ e o novo, velho, mal do século

9/10 dos inside sales com metas de ligação pesadas sofrem de lobotomia auto-aplicada.

Já começo pedindo desculpas pelo trocadilho, mas a primeira vez que eu vi de perto uma crise de pânico, eu fiquei em pânico.

Não tinha noção do que fazer para ajudar, me senti totalmente impotente e assim que cheguei em casa fui ler a respeito.

Aprendi muitas coisas (inúteis) sobre o assunto, a origem em latim, as sub-celebridades que venceram o pânico, como cada signo reagia as crises, etc.

Só não aprendi como evitar que um dia eu também tivesse… E eu tive.

Minha experiência com o pânico foi, digamos, corporativa: a primeira crise foi no meio de uma reunião.

Era final de 2015, país em crise, na época eu liderava uma equipe de inside sales em uma empresa que estava afundando. Recebia MUITA pressão da diretoria e absorvia ela TODA para mim, não repassava para meu time, em vez disso fazia speeches motivacionais à la filmes do Mel Gibson.

Até que um dia após uma dessas reuniões eu explodi em um desespero avassalador. E isso me acompanhou por um bom tempo.

Havia dias que eu chegava no trabalho e tremia mais que o Roberto Baggio na hora de bater qualquer pênalti depois da Copa de 94.

Havia dias que eu nem chegava no trabalho, ficava chorando no carro como se tivesse assistido A Espera de Um Milagre descascando uma cebola.

Não teve um dia se quer que eu não desejava ser demitido (cadê o Trump nessas horas?), não tinha forças para pedir demissão, morria de medo de destruir minha carreira.

Demorei pra buscar ajuda. Achei que era só dormir 8 horas por noite e tomar um cházinho de camomila que eu iria melhorar. Apenas piorei.

Contei para pouquíssimas pessoas e quase todos acharam ‘frescurite’ minha, afinal era um bom emprego ($$$) por mais abusivo que fosse.

Bem, no final a terapia abriu meus olhos, vi que o problema estava em mim e não no meu trabalho, ganhei coragem para pedir demissão e me reencontrei no deserto do Atacama.

Aceitei um emprego com um salário bem menor para fazer algo que eu tinha vontade (trabalhar em uma startup) e nunca mais tive tremedeiras analisando gráficos de cohort.

Agora é meio de 2017, país ainda em crise, ouço de várias pessoas que o trabalho, ou a falta dele, vem causando pânico… Pelo jeito isso vai longe.


Moral da história 1: ganhar pouco para trabalhar onde você gosta é admirável mas não paga as contas, ganhar muito para trabalhar onde você odeia é ̶b̶u̶r̶r̶i̶c̶e̶ criticável mas paga as contas dos remédios que você vai precisar tomar.

Moral da história 2: já diria Krishnamurti (quem?): “não é sinal de saúde estar bem adaptado a uma sociedade doente”.

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