Hacks: como viajar pegando carona sem ser sequestrado e ter seus órgãos vendidos na Ucrânia

Uma versão mendiga e desidratada minha.

Uma das lembranças mais incríveis que eu tenho de mochilões foi quando um motorista de caminhão apontou uma arma na minha cara.

Claro que nada aconteceu, se não eu não estaria aqui escrevendo. Mas antes de eu dizer o porque disso, deixe-me contextualizar para vocês.

Essa é mais do que uma história, é uma lição de vida na forma de hacks que te ajudarão a viajar pegando carona sem ser sequestrado e ter seus órgãos vendidos na Ucrânia.

Eu comecei a mochilar por causa de um filme chamado Eurotrip. É um filme do c****** (nem tanto assim na real) sobre um mochilão pela Europa entre amigos em busca da namorada virtual do protagonista. Nome clichê, filme clichê. Mesmo assim eu assisti umas 13 vezes.

Eu comecei mochilando seguindo toda a cartilha dos Escoteiros do Panamby ao pé da letra. Porém só fui ser feliz quando aprendi a abraçar os perrengues que ocorrem nas viagens.

Seja causar um incêndio sem querer no hostel, participar de uma greve geral ou ser ameaçado por um mochileiro psicopata ladrão, o perrengue é sempre a melhor parte da viagem e da história.

Uma vez mochilando eu conheci uma turma de gringos que estavam viajando de carona por meses.

Os outros mochileiros acharam aquilo super perigoso, já eu achei aquela a melhor ideia possível e pedi para viajar junto deles. Segue aqui embaixo alguns hacks que desenvolvi depois dessa experiência:

[Hack 1] No primeiro dia de estrada eu cheguei e estiquei meu dedão em direção aos carros. 15 minutos depois e nada de carona, nenhum carro parou. Os gringos usaram uma placa simples, com a cidade de destino escrita de canetão, e no segundo carro já tínhamos uma carona. Uma plaquinha mostrando o destino é melhor do que uma perna a mostra. Isso pode parecer besteira mas passa credibilidade e aumenta em uns 3.000% a probabilidade de você ganhar uma carona.

[Hack 2] Nosso destino ficava a 2.000 km de distância mas pedíamos caronas para locais a menos de 100 km na média. Viagens de pequenas distâncias são mais fáceis de se conseguir do que longas jornadas. Isso se dá porque a maioria dos motoristas estão viajando pequenas distâncias, indo e voltando do trabalho em outra cidade por exemplo, já os que andam longas distâncias normalmente estão de férias e não tem espaço ou tempo para dar carona.

[Hack 3] Pegamos carona com um hermano, e por mais que ele tenha tentado me convencer a todo custo que o Maradona era melhor que o Pelé, a troca cultural entre nós e ele, com direito a ensinamentos sobre os segredos milenares da parrillada, fez da viagem um momento inesquecível. Abusar do fato de ser brasileiro é fundamental. Você ganha crédito, vira o assunto da viagem e todo mundo te trata bem.

[Hack 4] Pegamos uma outra carona com um casal mais velho, eles eram muito gentis mas meio quadradões. Tudo ia bem até alguém tocar em um assunto taboo. Nessa hora a carona virou uma ‘ceia de natal com meus tios’. Carona não é lugar de debate sócio-político. Mesmo parecendo importante você expor suas opiniões de Facebook isso só deixa um climão chato e estraga a viagem de todo mundo.

[Hack 5] No meio da viagem fomos abordados por um rapaz dirigindo um carrão e que não parava de rir, ele implorou para que pegássemos carona com ele, e é claro que não pegamos. Emoções de mais ou de menos são sempre sinal de perigo. Não sei a estatística mas acho que na grande maioria dos casos você no mínimo irá desmaiar e acordar nu em algum outro canto do mundo.

[Hack 6] Quase no final da viagem nós já estávamos uns 2 dias sem tomar banho, parecia que tínhamos saído do casting de The Walking Dead, o que fez as caronas diminuíssem e aumentou a incidência de gente estranha querendo interagir conosco, como o caso do motorista de caminhão que apontou a arma na minha cara. O motivo: ele estava com medo que eu assaltasse o caminhão dele. Não ter uma aparência ameaçadora é importante. Ela assusta as pessoas legais, diminui suas chances de carona para uns 0,0001% e atrai as pessoas realmente ameaçadoras.

[Hack 7] Ao final de uma carona os gringos davam sempre um presente simbólico em agradecimento ao motorista, eu resolvi copiar e dava quinquilharias brasileiras que havia levado comigo e todos gostavam muito. Presentear alguém gera empatia e perpetua o bioma de caronas. Um presente de 50 centavos vale mais do que 50 dólares na mente das pessoas e garante a carona do próximo viajante.

Serei sempre grato aos gringos pelos ensinamentos. O interessante é que mesmo vivendo num país acolhedor viajar de carona para nós é um absurdo, enquanto para eles é algo normal.

Esses hacks são apenas insights que eu tive nessa experiência, existem muitas outras situações bem mais complicadas do que essas e eu não aconselho ninguém a sair viajando de carona sem antes planejar isso muito bem.

De qualquer forma nenhum dos meus rins foram vendidos na Ucrânia, então imagino que as dicas já sirvam para alguma coisa. ;)


Moral da história 1: passar perrengue enobrece e te dá histórias para contar mas não é prazeroso, eu posso ter ido de carona mas voltei de primeira classe.

Moral da história 2: minto, eu comprei a passagem de primeira classe mas uma greve interditou os aeroportos e eu fui obrigado a voltar de ônibus numa viagem de 25 horas, sem ar condicionado, com fome e com uma dor de dente aguda, isso sim foi perrengue.

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