BH Skate Invasion 2017. Foto: Diogo Andrade.

AOS MESTRES, COM RESPEITO.

Ao contrário dos tempos passados, os skatistas veteranos passaram a ser vistos com mais naturalidade pela sociedade de modo geral, em decorrência da própria mudança de imagem por qual o skate passou nos últimos anos. É evidente que o crescimento do número de pessoas mais velhas que permanecem ativas esportivamente também ajudou nesse processo; como é cada vez mais comum vermos esportistas de cabelos brancos, também se tornou mais frequente ver por aí tiozinhos e tiazinhas sobre seus carrinhos e longs. Não foi um processo nada fácil e nem um pouco rápido; durante anos, ouvi muitas pérolas no estilo “isso é coisa de criança”, “quarentão adolescente” ou “vovô-garoto” quando saía pra dar um role, algo que não ocorre já há algum tempo (pelo menos comigo).

Não importa se a pessoa já tenha décadas ininterruptas de experiência, retornou depois de alguns anos ou começou há pouco tempo: quem tem mais idade precisa estar muito mais consciente de seus próprios limites. Salvo algumas raras exceções, existe o momento na trajetória de skatistas veteranos em que executar as manobras que já se domina passa a ser muito mais fácil do que aprender outras novas, então esse também passa a ser o objetivo da sessão. Qualquer novidade nesse sentido é comemorada com muitos gritos na hora e um bocado de cerveja depois, na hora da esperada “resenha” — e tem gente que vai andar com a galera já pensando nessa última parte mais agradável… Além disso, a gente também vai aprendendo que faz muito bem pros nossos corpos e mentes fazer outra atividade física além do skate, como andar de bicicleta, nadar, musculação, yoga, pilates ou qualquer outro exercício. Principalmente, a gente agradece (e comemora intimamente) cada sessão ou drope que fazemos sem cairmos ou nos machucarmos, já que sabemos que o preço que podemos pagar em dores fica cada vez mais alto com o passar do tempo.

Pois bem: por um lado, existe mais aceitação da sociedade; por outro, existe mais conscientização do que se pode fazer. Aparentemente, tudo parece conspirar a favor dos skatistas veteranos de modo geral. Sendo assim, fica muito difícil de entender os motivos da falta de valorização dos mestres do skate por parte do mercado brasileiro.

Sempre que essa questão é levantada, vem a inevitável comparação com o mercado dos EUA. Desculpe, mas não dá nem pra alinhar no mesmo nível. Primeiro, o profissionalismo no skate de lá existe há pelo menos quatro décadas e resistiu a duas “mortes”, a primeira nas viradas dos anos 70 / 80 e a segunda no início da década de 90. Segundo, o mercado norte-americano sempre teve critérios bem definidos de promoção de imagem e pagamentos de royalties dos produtos assinados por skatistas profissionais, ao contrário do Brasil; até hoje, essas são as questões mais difíceis e nebulosas nos contratos entre empresas e os pros, justamente porque cada um faz o que achar melhor. Terceiro, o cenário de lá não é tão focado em competições como é o nosso, o que dá condições pra quem ande muito e viva no sistema de “skate for fun” possa ser divulgado adequadamente e consiga sobreviver apenas andando de skate, filmando, fotografando e viajando pra demos. Não vou nem comparar os diferentes cenários econômicos e sociais porque seria covardia e esse não é o foco aqui. O importante é entender que são muitas variáveis a serem consideradas além das diferenças estruturais entre os dois países.

Apesar de tudo isso, nosso país pode se orgulhar de uma característica bem peculiar: existem mais disputas dedicadas a skatistas veteranos por aqui do que em qualquer outro lugar. Eventos como o tradicional Old School Skate Jam de Guaratinguetá, o Skate For Fun de Fortaleza e o Kaveras Bowl Masters de Taubaté reúnem a galera mais velha que anda em transições, enquanto que o BH Skate Invasion da capital mineira e o Skate Generation de Floripa promovem a interação entre várias gerações de “pistoleiros”. Praticamente todos os campeonatos de downhill slide, slalom e freestyle têm pelo menos uma disputa dedicada aos masters. Até mesmo no speed, uma modalidade normalmente evitada pelos skatistas mais velhos, rolam pegas que reúnem nomes históricos como Alexandre Maia, Ivandro “Mano” Silveira e Douglas Dalua — esse último estreando entre os masters nesse ano após ter sido bicampeão mundial no início dessa década. Aliás, até a própria IDF (International Downhill Federation) vem colocando os Masters em um ranking separado desde o ano passado, após a pressão de competidores brazucas e europeus; mesmo incluindo todos os competidores acima de 35 anos na mesma categoria, é um começo de uma maior valorização daqueles que fizeram a história do skate de velocidade.

Algo curioso rola nesses eventos: sempre há quem leve a disputa a sério, mas a maioria marca presença pra confraternizar com a galera de outras cidades ou regiões do país. Mesmo com todas as redes sociais e apps de mensagens, nada substitui os abraços fraternos entre amigos que não se veem muito. E, claro, toda a zoação que acompanha de graça…

Voltando à questão do mercado, é preciso analisar a questão sob a ótica de quem está “do outro lado do balcão”, por assim dizer. A indústria nacional de skate vem sofrendo com os conhecidos problemas estruturais de nosso país, como o excesso de impostos, a dificuldade de distribuição e logística devido ao mau estado da malha rodoviária de modo geral, a redução das margens de lucro com a concorrência de importados de baixo custo, a excessiva informalidade, os calotes… Eu fiz uma análise mais detalhada noutro texto, que você pode ler aqui. Na real, as marcas mal têm folga orçamentária pra investirem adequadamente em skatistas profissionais, que em princípio seriam os que trariam um retorno maior por terem popularidade e visibilidade maiores. Pense em pagamento de salários e plano de saúde, mais bônus por fotos ou vídeos publicados na mídia, mais pesquisa e desenvolvimento pra lançar produtos assinados pelo pro, mais a verba de promoção e publicidade tanto do pro quanto de seus produtos, mais os royalties a serem pagos, mais as despesas com inscrições e viagens pra campeonatos e demos, etc. Pensou?! Deu um nó na cabeça, né não?! Agora imagine incluir iniciantes, amadores e veteranos, e você verá que a conta não fecha.

Daí acontece aquilo que é mais comum: skatistas veteranos trabalham muito fora do skate pra juntarem dinheiro e se bancarem caso desejem participar de campeonatos. Na maioria dos casos, mesmo se forem pro pódio, a quantidade de material que receberão de prêmio não daria pra bancar as despesas que eles tiveram — e não é por culpa de quem organiza os eventos. Vão pra correr o campeonato muito mais pelas sessões com gente que não vê com frequência e pela confraternização, e tudo bem.

Na boa, isso é muito injusto. Sempre que penso nessa questão, penso em um amigo que tenho. O Júlio Vasconcelos “Feio” despontou no cenário carioca lá nos anos 90 como skatista overall, que detonava no street, sabia andar muito em bowls e se tornou um dos melhores do país em minirrampas. Ele chegou a morar em Portugal por alguns anos, onde virou skatista pro e adquiriu uma valiosa experiência de vida, e sempre andou de skate mesmo se afastando do cenário de competições. Há alguns anos, ele resolveu voltar a levar os campeonatos mais a sério e os resultados não demoraram a aparecer de novo em sua carreira. Atualmente, ele também é um “hexa”, sagrando-se tricampeão brasileiro tanto de banks quanto de bowl na categoria masters, dividindo nas redes sociais os detalhes de suas viagens, dos eventos que participa e da galera que cruza com ele. Nesse ano, o cara completa 40 anos andando como um menino, praticando várias modalidades com eficiência e deixando preocupados os competidores da categoria Grand Masters, que ele acabou de estrear. Como se tudo isso não bastasse, Júlio é um cara muito gente boa. Tranquilão, consegue dar um papo reto sem perder a gentileza, uma habilidade cada vez mais rara nos tempos atuais de ânimos e egos exagerados, além de ser um bom pai e bom filho em seu núcleo familiar.

Não é por ser meu amigo que ele não tenha defeitos, até porque ninguém está isento de tê-los, mas esse não é o caso aqui. A questão é uma só: como é que um skatista talentoso, vencedor, popular e com um excelente networking como ele não consegue apoios pra bancar as despesas que tem pra competir? Estou falando de um cara que ainda está pra entrar nos “enta”, ou seja, pertencente às gerações “menos veteranas”, gente com habilidade e desempenho invejáveis a muitos garotos com a metade da idade deles. Em termos de mercado, seriam eles que mais poderiam influenciar os chamados “novos senhores”, consumidores entre os 35 e 45 anos que começam a atingir a maturidade mantendo os vínculos com a juventude. Eles seriam a prioridade de investimento no segmento.

Seriam, se a realidade não fosse outra. Mais uma vez eu insisto: não culpe as marcas, os organizadores de campeonatos ou a mídia em separado, seria uma injustiça sem tamanho. Caso isso fosse possível, a responsabilidade pela realidade atual deveria ser dividida igualmente entre os três setores; da mesma forma, cada um deles tem a possibilidade real de mudar o status quo a favor dos veteranos.

Como assim?! Começando pelas marcas: ninguém espera que seja investida uma verba que não existe. O que se espera é mais critério na hora de se separar as cotas de apoio a skatistas e eventos. Por exemplo: se a marca pode ceder 10 unidades de seu produto pra eventos iniciantes ou amadores, então também deve ceder 10 praqueles que tenham disputas de várias categorias de masters. A galera mais nova pode usar, vender ou fazer rolo naquilo que ganhar de premiação, isso é o mais natural, enquanto que os mais velhos vão usar os produtos e podem se tornar consumidores mais fiéis caso aprovem a qualidade do material. Venho participando de eventos como competidor ou organizador há 35 anos e é o que tenho visto acontecer ao longo desses anos, com algumas variações aqui e ali.

Se você organiza eventos, leia com atenção o que vou escrever em seguida, vou até botar em negrito: estabeleça uma cota mínima pros apoiadores do seu evento e não abra exceções nem pra marca do seu melhor amigo. Infelizmente, eu já vi campeonatos sensacionais em suas execuções ficarem com má reputação por causa de premiações decepcionantes. Sendo bem franco, ninguém gosta de “merrecagem” nem de “ramelagem”. Pra você adotar um critério de premiação pra finalistas (até o 6º / 8º / 10º) além de troféus e medalhas, você também precisa definir os critérios de distribuição da premiação em produtos. Se a marca que você procura não concorda em dar a cota que você solicita, agradeça o contato e procure os concorrentes dela, simples assim. Já vi um organizador abrir uma exceção pra ter os logos de duas marcas grandes como apoiadoras de seu evento, pra depois se decepcionar com o baixo retorno obtido em divulgação dessas marcas e ainda ser massacrado por isso, tanto pelos competidores que foram premiados quanto pelos outros apoiadores. “Quem quer rir, tem que primeiro fazer rir”, entendeu?

Deixei a mídia pro final e não foi por acaso. Antes de cometer alguma grande injustiça, é preciso que se entenda que existem basicamente dois tipos de produtos de mídia segmentada de skate, um que é direcionado ao mercado e outro ao cenário. A imensa maioria das mídias de mercado procura se disfarçar de mídia de cenário porque “pega bem” entre os skatistas, e boa parte das mídias de cenário gostaria de se tornar um produto de mercado pra alcançar as maiores empresas do setor. A mídia de mercado sempre viveu de criar e fomentar ídolos, descartando-os na medida em que novos ídolos aparecem no cenário, enquanto que a de cenário procura destacar quem é relevante em termos de skate, não de mercado, em primeiro lugar. Desnecessário citar nomes; se você me lê é porque se interessa pelo skate, portanto tem as suas escolhas e seus próprios parâmetros críticos.

Se existe uma palavra que pode definir a relação entre a maioria dos veículos de mídia especializada nacional e os skatistas veteranos, ela é ingratidão. Isso se torna pior ainda quando se sabe que existem skatistas por trás de quase todas essas iniciativas, gente que sabe como é andar de skate e como não é nada fácil continuar andando com o passar dos anos. Gente que deveria ter mais empatia com os construtores do enorme cenário da atualidade, cedendo mais espaço pra pelo menos divulgar os campeonatos com disputas de masters. Como skatista e jornalista de longa estrada, fico muito triste em constatar que a maioria dos veteranos não se identifica com nenhum veículo de mídia especializada na atualidade. Não precisava que eles fossem tão fissurados como o eram nas antigas, mas também não precisava de serem tão indiferentes.

Dá pra mudar? Opa, claro que dá, eu mesmo já vi acontecer: foi no ano passado, durante a disputa do BH Skate Invasion na capital mineira. Poucas vezes vi uma organização de um evento tratar os skatistas veteranos com tanto respeito e tanta consideração, ao mesmo tempo em que ofereceu aos finalistas uma das premiações mais generosas que eu já vi em todos os tempos. Não por acaso, foi um dos eventos mais bem divulgados pela mídia em geral de todo o ano passado. Isso é uma façanha quando se sabe que não houve nenhuma disputa pro no evento, somente amadores, iniciantes, veteranos e mulheres, justamente porque eles não conseguiram o valor que julgavam como o mínimo aceitável pra uma premiação de nível profissional. Evento de skatista pra skatista, pra onde todos os que foram irão voltar no final do próximo mês de maio e ainda vão levar mais gente ainda.

A união de todas as condições favoráveis ainda é uma exceção, mas pode virar uma regra. Basta que mercado, organizadores e mídia se disponham a tal, trabalhando em conjunto pra retribuírem aos veteranos tudo o que eles já deram e ainda dão ao cenário. Masters de todos os tipos e sexos estão por aí andando muito, cada vez melhor, em todos os lugares. Já passou da hora de terem o reconhecimento justo pelo seu valor, de acordo com os seus anos de skate. É o mínimo que se pode fazer.