Falando a sério sobre o câncer

De vez em quando, as redes sociais nos sugerem diversas ações a respeito do câncer, sempre sob o pretexto de se mostrar uma suposta solidariedade aos pacientes de câncer e suas famílias. Daí a pessoa vai lá, copia e cola um textão que fala sobre as agruras de um doente terminal de câncer e do drama de sua família, ou então pinta a sua foto de rosa pra dar uma força às mulheres que sofrem de câncer de mama ou ainda colore a sua capa de azul pra aumentar a consciência masculina em relação ao câncer de próstata. Depois disso, essa mesma pessoa vai dormir toda feliz e contente acreditando que os pacientes e suas famílias sentirão um alento enorme pelo fato dela ter compartilhado uma ação coletiva. Ela realmente se sente solidária e que está fazendo parte de uma “corrente do bem”, e que isso é o suficiente pros pacientes e suas famílias.

Desculpe se você é uma dessas pessoas, mas alguém precisa te dizer: os doentes de câncer e suas famílias precisam muito mais de você além de replicar ações em redes sociais que não têm nenhum efeito prático.

Achar que isso atenua o imenso desgaste que é o câncer nas vidas dos doentes e de suas famílias é o mesmo que pensar que você vai adquirir alguma consciência social depois de ouvir os álbuns d’O Rappa, por exemplo. Nesse exemplo em particular, apontar as falhas do sistema é bom e é o certo a se fazer, mas melhor ainda é ler, estudar e se informar sobre as razões que levam a sociedade a ter tantas injustiças por esse mundão afora. A consciência social só vai surgir depois de você entender as causas das injustiças no mundo e de despertar o seu senso crítico pra combatê-las ou, pelo menos, fazer o que tiver ao seu alcance pra minimizá-las.

Com o câncer, o buraco é muito mais embaixo, acredite em mim. O meu pai nos deixou há pouco mais de dois meses, após ter vencido uma batalha contra o câncer na próstata e ter perdido a guerra pra outro tumor, dessa vez na bexiga. Ele viveu longos 93 anos, a maioria deles muito bem aproveitados com alegria, disposição, ótima saúde e sem ter jamais feito um único desafeto nessa vida, e é essa a imagem que aqueles que o conheceram irão guardar dele. Ele lutou bravamente contra a doença nos últimos oito anos e só se entregou em seus últimos dias de vida, quando já não havia mais nada que pudesse ter sido feito. Eu e minha irmã preferimos ser bastante reservados em relação a todo esse processo, portanto apenas as pessoas bem próximas a nós sabiam da extensão do problema.

Passado o drama, essa nossa decisão revelou ter sido muito acertada. Sinceramente, eu não teria gostado nada de ser “consolado” com os inúmeros lugares comuns que são disseminados pelas redes sociais quando se fala sobre o câncer. Por mais que a maioria das pessoas tomem essas atitudes com as melhores das intenções, pra mim no final das contas vale aquele ditado que diz que “de boas intenções o inferno está cheio”.

Vivemos na era das petições online que conseguem milhões de assinaturas, enquanto as respectivas ações práticas ficam na base das centenas ou milhares de participantes. É uma era na qual as pessoas falam e escrevem muito sobre quase tudo, porém não executam quase nada pra mudarem aquilo que as incomoda. No futuro, esses tempos atuais poderão ser conhecidos como o período de maior distância entre as palavras e as ações práticas da história da humanidade, e não será nenhum exagero de forma alguma.

Você quer realmente ajudar aos que sofrem de câncer e suas famílias? Então pare imediatamente de copiar e colar textos, de colorir a sua foto ou a capa de seu perfil de rede social e parta pra ação prática. Tem um monte de coisas que você pode fazer que, sim, farão muito mais diferença tanto pros doentes quanto pras pessoas que os cercam.

  • Se você conhece alguém que tem câncer, pergunte se essa pessoa precisa de alguma coisa que esteja a seu alcance e faça o que for possível pra atender a essa necessidade. Esse simples gesto de aproximação vale muito mais do que a maioria imagina; mesmo que o enfermo esteja sendo muito bem cuidado e tenha todos os recursos a seu dispor, mostrar que está ao seu lado demonstra muito mais solidariedade do que qualquer textão que você possa compartilhar. Faça-se presente, esteja junto, seja o ouvido atento e o ombro amigo, tudo isso tem um valor inestimável.
  • Respeite as vontades do doente e de sua família, sempre. Pode ser com alguém que more contigo ou o seu melhor amigo, não importa: o seu desejo jamais pode ser mais importante do que a vontade do doente. Parece algo meio lógico de ser dito, mas eu soube do caso de uma mulher que ficou com pena de uma amiga estar com câncer e saiu espalhando a terrível novidade aos quatro ventos. O problema é que a própria família da doente estava mantendo tudo sob o mais completo sigilo, uma vez que tudo havia sido descoberto já em estado terminal, não havia muito mais o que podia ser feito e estava querendo minimizar o drama em torno da enferma. Resultado: a pessoa foi exposta sem necessidade, ficou num estado de agitação extrema com a atenção despertada sobre si e veio a falecer muito deprimida, de maneira contrária à de sua própria vontade. Naturalmente, a família cortou relações com a linguaruda, que ainda tentou fazer papel de vítima sem perceber o ridículo que estava passando. Resumindo, tenha “simancol” e faça somente o que te pedem, mesmo que você não concorde.
  • Participe de ações efetivas contra o câncer. Mesmo quem não conhece ninguém com a doença pode ajudar muito: se você tiver condições financeiras, doe algum valor pra organizações de apoio a pacientes com câncer. Caso você viva no aperto e não tenha como dispor de nenhum valor, pode doar roupas ou mantimentos a hospitais públicos de combate ao câncer; as condições da maioria dessas instituições são muito carentes e todo recurso extra será muito bem recebido. Se você só puder doar tempo, não tem problema algum: veja se você pode contar histórias infantis na ala de crianças ou então conversar e dar atenção aos idosos com a doença.

Em suma, o tempo que se gasta copiando e colando textões e mudando as cores de fotos e capas de perfil é o mesmo que se leva pesquisando como ajudar a quem precisa. Portanto, pare de perder o seu tempo e procure fazer algo que seja efetivo em prol de quem sofre com o câncer e suas famílias. Isso sim vai ser melhor pra todo mundo, inclusive pra você.

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