O Muro

Belo Horizonte, 1961. No início do ano ele decide se mudar do bairro Serra para o Prado. Era mais fácil pegar o bonde de lá e seguir pela então arborizada Av. Amazonas, rumo à Pontifícia Universidade Católica do bairro Coração Eucarístico, ainda despovoada da hodierna paisagem de concreto. Ela continua morando na Serra, porque ali também residem seus pais.

Av. Afonso Pena, 1950–1960

13/08/61. A cidade, em plena guerra fria, é surpreendida com a instalação de um gradeamento metálico por toda a extensão da Avenida Afonso Pena. Um muro dividiu Belo Horizonte em oriente e ocidente, em capitalismo e socialismo. Naquela noite ela estava na serra. Ele dormiu em sua nova casa, no prado. Entre ambos, um muro que os separou por 40 anos. Próximo ao pirulito da praça sete havia uma torre enorme com soldados armados que vigiavam, com olhares rigorosos, a fronteira da Belo Horizonte Oriental com a Belo Horizonte Ocidental.

Muitas coisas diferenciavam as duas Belo Horizontes. No ocidente: carros de diferentes marcas, livre comércio, moda, liberdade de imprensa e tecnologia. No Oriente: igualdade social, aluguéis irrisórios. Todos tinham trabalho, todos tinham um fusca. Típico da Belo Horizonte Oriental eram os blocos habitacionais padronizados, aos moldes do prédio JK a e JK b. Para mostrar que também gozavam de tecnologia e riqueza, o governo da Belo Horizonte Oriental decidiu construir um prédio que poderia ser visto de qualquer ponto de ambos os lados da cidade. Ergueu-se o “Tomara que Caia”.

Belo Horizonte?

Belo Horizonte Oriental e Ocidental, que por 40 anos pertenceram a países distintos, desenvolveram um estilo de vida próprio, roupas diferentes, gírias típicas. Os belo-horizontinos ocidentais chamavam os orientais de caipira. Os belo-horizontinos orientais chamavam os ocidentais playboys/patricinhas. Na verdade, sempre que alguém trazia escondido pão-de-queijo do ocidente, era uma festa. E os que conseguiram sair do oriente, foram recebidos com alegria no ocidente.

09/11/1989. O muro que cortava Belo Horizonte ao meio caiu.

20 e poucos anos depois, fui visitar a cosmopolita e unificada Belo Horizonte. Havia lido muito sobre sua história, costume, sobre as duas sociedades que lá se instalaram, sobre tentativas de fuga, protestos, sobre sua (multi)cultura. Estar nessa cidade, ainda que por apenas 4 dias, fez-me sentir também parte de sua história, que passou a ser um pouco minha.


Esse post é uma paródia e tradução (ou fantasia) livre do acontecido em Berlim, nesse intervalo de tempo citado no texto, em analogia ao espaço físico de Belo Horizonte, meu lar-doce-lar. As referências são, portanto, de fácil entendimento àqueles que conhecem a cidade. Nada que um pouco de imaginação não possa resolver, digo, para os que não desfrutam do nosso belo horizonte. O brincar com a história foi, acima de tudo, uma tentativa de reconstituir o que foi, para mim, conhecer Berlim.

Berlim, 03 de dezembro de 2010.

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